A vez em que os EUA tentaram ensinar golfinhos a falar inglês

A Guerra Fria trouxe muitas bizarrices ao mundo, desde a tentativa da CIA de treinar gatos e pombos como espiões até o projeto MK Ultra, que drogava pessoas para estudar se era possível controlá-las mentalmente. Um coquetel perigoso de governos permissivos, pouca fiscalização e muita pseudociência.

Mas o projeto da Dolphin House, na década de 1960, não era secreto e nem criminoso — apenas bizarro. Tratava-se de um laboratório sofisticado no Caribe onde um cientista estadunidense, o Dr. John Lilly, criava três golfinhos: Peter, Pamela e Sissy. O objetivo da instalação era estudar a relação entre humanos e esses animais, especialmente a comunicação entre as duas espécies.

John Lilly acreditava que era possível conversar de forma inteligente com golfinhos, desde que fosse possível ensiná-los a se comunicar da mesma forma que humanos. Ele passou a crer nessa ideia após sua esposa, Mary, flagrar golfinhos imitando sons humanos alguns anos antes.

Compartilhe essa matéria via:

A primeira vez em que o Dr. apresentou sua tese ao público foi no livro Man and Dolphin, de 1961. Nessa obra, ele atestava que seria possível ensinar os golfinhos a falar inglês e vislumbrava um futuro onde esses animais poderiam assumir uma cadeira nas Nações Unidas, representando outras criaturas marinhas.

Inaugurado em 1963, o laboratório inicialmente tentou mapear o córtex cerebral dos golfinhos usando sondas finas. Mas essa linha de pesquisa foi alterada radicalmente após a chegada de Margaret Howe Lovatt ao projeto. Uma moradora local, Margaret era especialmente interessada em cetáceos desde que havia visto uma baleia encalhar na praia de sua cidade natal, em Massachusetts (EUA).

Continua após a publicidade

Ao saber que havia golfinhos perto de onde estava morando, resolveu se dirigir ao local e oferecer seus serviços. Mesmo sem nenhuma formação técnica ou científica, Margaret se provou uma boa observadora e foi convidada a frequentar o laboratório sempre que quisesse.

Logo, ela se provou uma entusiasta do sonho de John Lilly. Enquanto o diretor do laboratório, Gregory Bateson, se concentrava em estudar a comunicação entre animais, Margaret tentava ensinar os golfinhos a falar inglês.

A ideia

A abordagem de Margaret era passar o maior tempo possível junto aos animais e tentar entendê-los de uma forma mais profunda. Ela logo observou um problema: “Todas as noites, entrávamos em nossos carros, fechávamos a porta da garagem e íamos embora. E eu pensava: ‘Nossa, tem um cérebro enorme nadando por ali a noite toda’. Me impressionava que todo mundo continuasse indo embora, e eu simplesmente achava errado”.

Sua solução: mudar-se para dentro do aquário. Margaret acreditava que, se vivesse 24 horas por dia com os animais, criaria uma relação mais próxima, como a de uma mãe com os filhos. “Parecia tão simples. Por que deixar a água atrapalhar? Então eu disse para John Lilly: ‘Quero plastificar tudo e encher este lugar de água. Quero morar aqui’”.

Continua após a publicidade

E assim aconteceu. Empolgado com a ideia inovadora, Lilly aprovou um projeto de três meses em que os andares superiores do laboratório seriam impermeabilizados e inundados, de modo que Margaret pudesse se mudar para lá e um dos golfinhos, Peter, pudesse circular livremente. Margaret escolheu Peter porque, dos três, ele era o único que ainda não havia tido treinamento com humanos.

O projeto era realmente radical: Lovatt passou a viver isolada com Peter seis dias por semana, dormindo em uma cama improvisada na plataforma do elevador, no meio da sala, e fazendo seu trabalho administrativo em uma escrivaninha presa pelo teto. No sétimo dia, Peter retornava à piscina de água salgada no andar de baixo para passar um tempo com as duas fêmeas.

Polêmica

O projeto começou em meados de 1965, quando as preparações foram concluídas. Margaret dava aulas para Peter duas vezes por semana, tentando fazer com que ele repetisse palavras e sons. Peter, por sua vez, era muito curioso pela anatomia da colega.

Logo, um problema surgiu: Peter tinha impulsos sexuais e se esfregava em Margaret. A solução inicial era levá-lo para o tanque com as fêmeas. Mas o trabalho de fazer o transporte era tão disruptivo para as lições de inglês que ela resolveu simplesmente cuidar da questão manualmente.

Continua após a publicidade

“Não era algo privado. As pessoas podiam observar”, descreveu ela em uma entrevista. “Não era sexual da minha parte. Sensual, talvez. Parecia que isso fortalecia o vínculo. Não pela atividade sexual em si, mas pela ausência da necessidade de interromper o contato constantemente. E era só isso. Eu estava ali para conhecer Peter. Aquilo fazia parte de Peter”.

Muitos anos depois do fim do projeto, no fim da década de 1970, a revista pornográfica Hustler descobriu a história e fez uma matéria sensacionalista sobre o caso, apresentando Margaret como uma depravada que transava com golfinhos. Ela diz que considerou a repercussão “desconfortável”, mas escolheu ignorar.

O fim

O projeto não deu em nada: Margaret não conseguiu ensinar Peter a falar e o interesse do governo em patrocinar o estudo caiu — havia muito mais ânimo para as pesquisas de Lilly com a droga LSD. Ao final dos três meses do projeto de convívio, a equipe foi informada de que ele seria descontinuado e a Dolphin House seria fechada.

Peter foi realocado para um laboratório em Miami em condições muito piores, onde se matou após algumas semanas. Para os golfinhos, a respiração não é automática, e sim consciente, de modo que, caso estejam deprimidos, eles podem escolher parar de respirar para encerrar a própria vida.

Continua após a publicidade

Margaret casou-se com um fotógrafo e, posteriormente, reformou a Dolphin House e se mudou para lá, onde criou as três filhas com o marido. “Era um bom lugar”, ela se lembra. “Havia uma energia positiva naquele prédio o tempo todo”.

John Lilly desistiu de tentar ensinar golfinhos a falar inglês, mas permaneceu pesquisando formas de tentar se comunicar com eles. Seus métodos incluíam desde telepatia (!) até o uso de notas musicais, mas nada deu certo. Mesmo após tudo isso, nunca conseguimos conversar com os golfinhos.

[Por: Superinteressante]

Source link


Descubra mais sobre MNegreiros.com

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Comente a matéria:

Rolar para cima