Ataque à Venezuela: Transição Incerta Sob Tutela dos EUA

Ataque à Venezuela: Transição Incerta Sob Tutela dos EUA

A ofensiva americana, já antecipada, abre caminho para mudança de regime em Caracas, mas ritmo e custo dependem de militares e mobilização interna.

EUA Inicia Nova Fase Política na Venezuela

O recente ataque dos Estados Unidos à Venezuela, embora amplamente antecipado por observadores atentos aos sinais de Washington, inaugura uma nova e **incerta fase de transição política** no país. Após meses de avisos, movimentações militares e pressões diplomáticas, a ação militar direta americana traz mais perguntas do que respostas sobre os próximos passos, especialmente após as declarações de Donald Trump e a reação imediata da vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez.

Trump deixou em aberto a possibilidade de novas ações, sugerindo que a operação pode ir além de um ataque pontual. O envolvimento militar direto dos EUA aumenta a probabilidade de uma transição mais rápida, contudo, o desfecho dependerá fundamentalmente de duas variáveis cruciais: o comportamento do **alto comando militar venezuelano**, que terá de decidir entre resistir, negociar ou abandonar o regime, e o **grau de mobilização popular nas ruas**.

Petróleo e Poder: A Aposta de Washington

A aposta de Washington parece ser uma capitulação relativamente célere do regime atual. No entanto, a admissão explícita de Trump de que o objetivo inclui o **controle do petróleo venezuelano** pode gerar o efeito oposto ao desejado, reforçando resistências internas e regionais. Ao tratar a crise menos como um esforço de restauração democrática e mais como uma disputa direta de poder, os Estados Unidos **dificultam a construção de uma transição minimamente consensual**, elevando o risco de instabilidade prolongada.

Trump também evitou esclarecer o que quis dizer ao mencionar a possibilidade de “governar a Venezuela”. A oposição doméstica a uma intervenção longa e onerosa sugere que a presença americana deverá ser limitada, concentrada na proteção de áreas petrolíferas e de outros ativos estratégicos. A hipótese de uma administração direta do território ou da população parece pouco plausível.

Brasil e o Cenário Regional sob Nova Doutrina

Nesse cenário, mecanismos formais de transição, como eleições supervisionadas ou uma nova constituinte, tendem a ganhar espaço nas próximas etapas. O grau de adesão do chavismo a esse processo será decisivo para definir se a transição ocorrerá de forma relativamente ordenada ou marcada por confrontos. Países como Brasil, México e Espanha podem atuar como mediadores, mas de maneira secundária, em um contexto onde Washington define o ritmo e os limites do processo.

O próprio discurso de Trump reforçou essa assimetria ao invocar, ao lado de Marco Rubio, a chamada doutrina “Donroe”, uma releitura mais assertiva da ideia de “América para os americanos”, com referências diretas a Cuba, Colômbia e México como áreas de atenção estratégica. Essa projeção externa de força ocorre em paralelo a um ambiente político doméstico cada vez mais desafiador para Trump, com índices de aprovação em queda e a perspectiva de perder a maioria na Câmara dos Representantes.

Uma eventual normalização da produção venezuelana, com queda dos preços do petróleo, poderia oferecer algum alívio nesse contexto. Já ações militares diretas em outros países da região parecem menos atraentes do ponto de vista econômico ou eleitoral, embora não possam ser completamente descartadas. O Brasil, assim como não conseguiu impedir a eleição fraudulenta de Nicolás Maduro nem a ação militar americana, dificilmente terá papel central na definição da transição. Contudo, ao atuar como interlocutor e apoiar uma saída negociada, o país pode contribuir para uma solução mais estável e duradoura, com efeitos positivos para a região.


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