
Pesquisas recentes mostram que o autismo pode ser uma variação cognitiva, não um erro biológico, refletindo a evolução do cérebro humano.
Durante décadas, o transtorno do espectro autista (TEA) foi compreendido quase exclusivamente sob a ótica do déficit: uma condição marcada por dificuldades de comunicação, interação social e comportamento. Mas esse olhar começa a mudar. Pesquisas recentes sugerem que o autismo pode estar ligado à própria evolução do cérebro humano e não como um “erro biológico”, mas como uma variação cognitiva que emergiu ao longo da história da nossa espécie.
A nova abordagem ganha espaço especialmente nos campos da psicologia evolucionista e da genética de populações. Nessa perspectiva, características hoje associadas ao espectro autista podem ter sido preservadas e até favorecidas pela seleção natural, por estarem relacionadas a habilidades cognitivas que impulsionaram o desenvolvimento humano.
O que a ciência tem descoberto sobre cérebro e autismo
Um dos estudos que ajudaram a fortalecer essa hipótese foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Stanford e publicado na revista Molecular Biology and Evolution. A pesquisa identificou uma evolução acelerada de neurônios excitatórios no neocórtex humano – região do cérebro ligada a funções como linguagem, raciocínio e tomada de decisão.
Segundo os autores, esse avanço evolutivo estaria associado à redução da expressão de genes que protegem o neurodesenvolvimento. O resultado seria um aumento da probabilidade de traços autísticos, interpretados como um possível “trade-off” evolutivo: o preço biológico pago pelo desenvolvimento de altas capacidades cognitivas.
Na prática, isso significa que os mesmos processos que ampliaram a complexidade do cérebro humano também podem ter favorecido o surgimento de variações neurológicas, entre elas, o autismo.
Da ideia de déficit à noção de diversidade
Essa mudança de entendimento representa um deslocamento importante na forma como o autismo é percebido. Em vez de tratar a diferença como algo a ser corrigido, a ciência começa a reconhecê-la como parte da diversidade cognitiva humana.
Para a Autistas Brasil, esse novo olhar contribui para romper com visões patologizantes e reforça a importância da inclusão. “Judy Singer estava certa ao nos convidar a pensar a neurodiversidade como um elemento essencial da vida social: assim como a biodiversidade garante a estabilidade e a resiliência dos ecossistemas, a diversidade cognitiva sustenta a criatividade, a adaptabilidade e a complexidade cultural”, afirma Guilherme de Almeida, presidente da entidade.
A referência é à socióloga australiana Judy Singer, responsável por popularizar o conceito de neurodiversidade nos anos 1990, defendendo que diferentes formas de funcionamento neurológico fazem parte da condição humana.
Por que os diagnósticos de autismo estão aumentando?
Dados internacionais indicam que os diagnósticos de TEA cresceram de forma expressiva nas últimas décadas. Hoje, estima-se que cerca de uma em cada 36 crianças nos Estados Unidos esteja dentro do espectro. Parte desse aumento se explica por fatores conhecidos, como a ampliação dos critérios diagnósticos, maior conscientização e acesso aos serviços de saúde.
No entanto, pesquisadores também investigam a influência de fatores genéticos e sociais mais amplos, especialmente em sociedades altamente tecnológicas. Uma das hipóteses mais discutidas é a do “acasalamento assortativo”, proposta pelo neurocientista britânico Simon Baron-Cohen. Segundo essa teoria, a organização social moderna pode favorecer a união entre pessoas com perfis cognitivos semelhantes, especialmente aquelas com maior tendência à sistematização. Ao longo do tempo, isso poderia aumentar a frequência de traços associados ao espectro autista na população.
Os riscos de interpretações equivocadas
Apesar do avanço científico, especialistas alertam para o perigo de leituras distorcidas dessas descobertas. Para a Autistas Brasil, reconhecer o autismo como parte da evolução humana não significa hierarquizar inteligências ou atribuir valor maior a determinados perfis cognitivos.
“O autismo não é um erro da natureza, mas um sinal de que o cérebro humano se transformou em múltiplas direções; a evolução não nos pede uniformidade, nos pede compreensão”, reforça Guilherme de Almeida.
A entidade destaca que o conhecimento científico precisa caminhar lado a lado com políticas públicas eficazes, especialmente nas áreas de educação, saúde e inclusão social. Reconhecer a neurodiversidade, segundo a organização, é uma questão de justiça, mas também de futuro.
“Ignorar ou tentar uniformizar essas diferenças é comprometer a própria capacidade da humanidade de evoluir, inovar e enfrentar os desafios do futuro. Reconhecer e valorizar a neurodiversidade é uma condição para o florescimento cultural e social”, conclui o presidente da Autistas Brasil.
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