Brasil em Crise: Três Presidentes em Uma Semana Sacudiram o País Há 70 Anos

A Revolução de 1955: Uma Semana de Instabilidade Presidencial

Em novembro de 1955, o Brasil viveu uma das mais intensas crises políticas de sua história republicana. Em um período de apenas sete dias, o país testemunhou a passagem de três presidentes pelo Palácio do Planalto, em meio a um plano de golpe de Estado e um contragolpe legalista que visava garantir a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek (JK) e seu vice, João Goulart (Jango).

A turbulência teve início com o presidente em exercício, Café Filho, que foi afastado por motivos de saúde. Em seu lugar, assumiu o presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz. No entanto, Luz logo se viu em meio a uma disputa acirrada e foi deposto em poucos dias. Para preencher a vacância, o presidente do Senado, Nereu Ramos, assumiu interinamente, garantindo a estabilidade necessária para a posse de JK em janeiro de 1956.

O Legado de Vargas e a Eleição de JK e Jango

O cenário de instabilidade política em 1955 era um reflexo direto das profundas divisões deixadas pela morte de Getúlio Vargas em agosto de 1954. Após o atentado contra Carlos Lacerda e o suicídio de Vargas, o vice-presidente Café Filho assumiu a presidência, buscando acalmar os ânimos. Contudo, a eleição de Juscelino Kubitschek e, principalmente, de João Goulart como vice-presidente, em outubro de 1955, reacendeu as tensões.

JK foi eleito com pouco mais de três milhões de votos, enquanto Jango obteve mais de 3,5 milhões de votos. A vitória da chapa JK-Jango desagradou profundamente a oposição, liderada pela União Democrática Nacional (UDN), que via na eleição um risco de retorno à agenda nacionalista e trabalhista do varguismo. Argumentavam que a soma dos votos dos adversários de JK e Jango era superior, defendendo uma eleição por “maioria absoluta”, um argumento já utilizado em eleições anteriores.

O Caso Mamede e o Movimento de 11 de Novembro

O estopim para a crise foi o discurso do coronel Jurandir Bizarria Mamede, em 31 de outubro de 1955, durante o sepultamento do marechal Canrobert Pereira da Costa. Mamede questionou a legalidade e o valor democrático das eleições, gerando forte reação do então ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott. Lott considerou o discurso um ataque à institucionalidade e buscou punir Mamede.

A tentativa de punição esbarrou em questões institucionais e na própria saúde do presidente interino Café Filho. Com o afastamento de Filho e a posse de Carlos Luz, a situação se agravou. Luz, em vez de atender à demanda de Lott, sinalizou que pretendia demitir o ministro da Guerra, o que foi interpretado como parte de um plano para impedir a posse de JK e Jango. Diante disso, o general Lott, com apoio de outros militares e parlamentares, deflagrou o Movimento de 11 de Novembro, um contragolpe legalista.

A Vitória da Legalidade e a Posse de JK

Na madrugada de 11 de novembro, tropas foram mobilizadas, e o Palácio do Planalto, entre outros órgãos estratégicos, foram ocupados. O Congresso Nacional votou pelo impedimento de Carlos Luz. Com isso, Nereu Ramos assumiu a Presidência interina. Para garantir a transição, Ramos decretou estado de sítio e Lott agiu para impedir o retorno de Café Filho ao poder, que também teve seu impeachment votado e aprovado.

A semana de intensos eventos culminou com a posse de Juscelino Kubitschek e João Goulart em 31 de janeiro de 1956, consolidando a vitória das forças legalistas e a manutenção da ordem democrática, apesar dos fortes embates políticos e militares.


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