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Há milhares de anos os humanos são fascinados pelo brilho dos cristais. Hoje associados a místicos, esotéricos e videntes que juram antecipar o futuro em bolas de cristal, esses materiais já eram muito valorizados nas primeiras civilizações da China, Egito, Roma e América Central, com usos estéticos e também religiosos.
Um novo estudo mostra que talvez não sejamos os únicos atraídos pela beleza dos quartzos.
Na Espanha, um grupo de pesquisadores entregou cristais de quartzo para chimpanzés. O experimento tentava entender, a partir da reação de nossos parentes evolutivos mais próximos, de onde vem o nosso fascínio por esses minerais. Curiosos, os animais seguraram, ergueram, reviraram e analisaram os objetos com muita atenção.
Publicado no periódico Frontiers in Psychology, o estudo mostrou que, assim como nós, os chimpanzés também adoram as pedras brilhantes. Não só adoram: eles ficam tão vidrados que se recusam a largar os objetos no final do experimento.
Procurar as raízes primitivas da estranha relação entre os humanos e suas preciosas pedras cintilantes pode parecer uma busca pela origem de um antigo feitiço. Em meio às montanhas, árvores e rios, com suas curvas sinuosas e ramificações complexas, os cristais são diferentes de qualquer outro material na natureza. Transparentes, retas e brilhantes, essas rochas são os únicos objetos que naturalmente têm múltiplas faces planas.
Registros arqueológicos apontam que, há pelo menos 780 mil anos, os hominídeos já colecionavam cristais. E sem nenhum motivo aparente: pelas evidências encontradas, essas pedras não eram trabalhadas, não viravam ferramentas, nem mesmo eram transformadas em joias para serem usadas.
Na nova pesquisa, os pesquisadores não só descobriram que os chimpanzés compartilham dessa fixação como também registraram que ela vai muito além da mera curiosidade momentânea. No Centro de Resgate de Primatas Rainfer, próximo a Madri, os cientistas tiveram que negociar por horas até convencer os primatas a devolverem os cristais. Uma inesperada crise de reféns.
O Monolito

O estudo envolveu dois experimentos. O primeiro recebeu o apelido singelo de “O monolito” – referência à cena inicial do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), em que o surgimento repentino de uma tábua preta na Pré-História deixa os hominídeos primitivos tão empolgados que eles desenvolvem inteligência (ou algo do gênero – a cena está aberta a interpretações).
Nesse teste, os cientistas colocaram dois objetos sobre pedestais dentro dos viveiros dos chimpanzés: um cristal de quartzo transparente e uma pedra qualquer do mesmo tamanho. Em um primeiro momento, os dois materiais chamaram a atenção dos animais, e, depois de algumas tentativas, eles conseguiram apanhá-los dos pedestais. Mas não demorou muito até abandonarem a pedra comum e focarem no quartzo. Um macaco de 50 anos chamado Yvan agarrou o cristal e continuou com ele em mãos mesmo quando escalava e comia alface.
Depois, foi a vez de Yaki (do vídeo abaixo) examinar o objeto brilhante.
Não demorou até que Yvan levasse o objeto para o dormitório do grupo, onde ficaria por alguns dias. Em outro viveiro a cena se repetiu: uma macaquinha chamada Sandy roubou o quartzo embora e não devolveu mais.
Com o passar do tempo, assim como acontece com os humanos, os macacos foram perdendo o interesse na novidade. Mesmo assim, nenhum dos dois grupos estava disposto a devolver seus respectivos cristais aos pesquisadores. Os chimpanzés só cederam depois de horas, quando foram oferecidos presentes muito valiosos em troca: banana e iogurte. Esse é um indicativo de que, para os macacos, o cristal também tinha virado um item de valor.
No segundo experimento, os cientistas testaram se os macacos seriam capazes de selecionar, perdidos em meio a várias pedrinhas, alguns pequenos cristais de quartzo. Não deu outra: eles encontraram os brilhantes em segundos – e ficaram maravilhados.
Em vários registros os chimpanzés levantavam as rochas em direção ao sol e analisavam a superfície bem de perto. A macaquinha Sandy até escondeu algumas pedrinhas na boca (algo incomum entre chimpanzés).
Com base nesses achados, os pesquisadores concluíram que as características que mais chamavam a atenção nos cristais eram a transparência de suas superfícies e o formato incomum. O estudo não chegou a analisar, porém, se alguns dos animais davam mais atenção aos cristais do que outros.
“Existem Dom Quixotes e Sanchos: idealistas e pragmatistas. Alguns podem achar a transparência dos cristais fascinante, enquanto outros se interessam por seu cheiro e se eles são comestíveis”, diz, em nota, Juan Manuel García-Ruiz, pesquisador espanhol que liderou o estudo.
“Ficamos positivamente surpresos com o quão forte e aparentemente natural a atração dos chimpanzés pelos cristais se mostrou. Isso sugere que a sensibilidade para tais objetos pode ter raízes evolutivas profundas”, afirma o pesquisador.
García-Ruiz é um cristalógrafo, o tipo de especialista que se dedica ao estudo dos cristais, e fala com muito entusiasmo sobre as possíveis origens primitivas de nosso gosto por coisinhas brilhantes. Outros pesquisadores, porém, tentam encarar os resultados do estudo de maneira um pouco mais contida.
Ao New York Times, o arqueólogo Michael Haslam afirmou que, por mais que o estudo demonstre que os macacos têm um fascínio pelos cristais, apontar exatamente quais características mais chamam a atenção deles e, a partir disso, dizer que o mesmo se aplicava aos nossos antepassados hominídeos seria um exagero. “Ao mesmo tempo que a atração é clara, a motivação subjacente não é”, argumenta.
[Por: Superinteressante]
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