[Editada por: Marcelo Negreiros]
A organização criminosa que se infiltrou na Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) a mando do PCC fincou três bases no coração da tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo: uma com a missão de assassinar desafetos da facção, outra de inteligência e outra para fazer escoltas.
Alguns militares eram responsáveis pelo ‘cancelamento de CPFs’ – assassinatos de rivais e desafetos. Outros abasteciam a facção com informações privilegiadas sobre operações policiais. O terceiro grupo cuidava da segurança pessoal de faccionados, entre eles o delator Antônio Vinícius Gritzbach, fuzilado na tarde de 8 de novembro do ano passado no Aeroporto Internacional de São Paulo.
As informações constam de um inquérito administrativo da PM que descobriu como policiais da Rota vazavam informações para o PCC a fim de proteger seus integrantes de prisões e de eventuais prejuízos a seus ‘negócios’.
O Batalhão da Rota, na Avenida Tiradentes Foto: PAULO LIEBERT/AE
Os três grupos que se instalaram no quartel secular da Rota, uma notável construção de paredes amarelas da Avenida Tiradentes, na Luz, foram citados no pedido que a Corregedoria da PM enviou à Justiça de São Paulo para deflagração da operação que prendeu, na última quinta, 16, quinze policiais militares supostamente ligados ao PCC e envolvidos com a execução de Gritzbach. No sábado, 18, mais um militar, tenente da PM, foi preso em Osasco.
A logística da suposta quadrilha de policiais – com a divisão entre os núcleos operacional, de vazamentos e de seguranças – levou a Corregedoria a fundamentar o pedido de prisão de todos os suspeitos, a eles imputando o crime de organização criminosa.
Segundo a PM, ficou demonstrado que os agentes tinham fins criminosos – no caso, especificamente, os que faziam a escolta de Gritzbach.
“Todos sabiam para quem prestavam atividade de segurança, foram escolhidos para tal serviço por serem militares e valiam-se disto para encobrir e dar benefícios ao empresário em troca de dinheiro e favores (viagens, por exemplo)”, frisou a Corregedoria ao pedir a prisão dos agentes.
Segundo a Corregedoria, foi possível identificar uma “divisão ordenada de tarefas com objetivos previamente ajustados em torno dos crimes almejados pela organização, no caso dos militares, dar segurança e auxiliar na prática da lavagem de capitais perpetrada por Gritzbach, crime punido com pena máxima superior a quatro anos”.
Os corregedores apontam que os PMs fizeram um “ajuste criminoso” e discutiam em mensagens a “ilicitude” de suas ações. Na visão da Corregedoria, os PMs confessaram, nos diálogos recuperados, a prática de crimes em troca de dinheiro e benefícios.
“Mesmo sabendo que aquilo era declaradamente ilícito, diziam não se importar, não havendo como se falar em mera relação empregatícia”, aponta a Corregedoria.
A descoberta de PMs da agência de inteligência da Rota cooptados pela facção colocou em xeque todo o esquema de combate ao crime organizado no Estado. Durante anos, o grupo de Atuação especial e Combate ao crime Organizado (Gaeco) usava policiais da agência da Rota para fazer levantamentos de endereços de bandido, buscas e prisões em operações.
As revelações do inquérito são consideradas gravíssimas por integrantes do Ministério Público e ameaçam demolir uma estrutura que garante até mesmo a segurança de autoridades no Estado. Na PM, discute-se como a situação chegou a tal ponto sem que os comandantes do 1º Batalhão de Choque se dessem conta.
PM quis ouvir traficante suspeito de fazer os pagamentos do PCC para os agentes da Rota
A Corregedoria foi até a Penitenciária Dr Paulo Luciano Campos, em Avaré – interior de São Paulo – para tomar o depoimento de um líder do PCC, um dos chefes da ‘Sintonia Restrita’ do PCC, sobre a morte de Gritzbach. A PM queria ouvir Valter Lima Nascimento, o Guinho, mas diligência acabou frustrada. Segundo o registro da oitiva, o faccionado disse que “não tinha interesse em contribuir com as investigações e se negou a assinar qualquer documento”. “Me sinto lisonjeado, mas não vou poder colaborar”, disse Guinho aos policiais que o procuraram.
Valter Lima Nascimento foi preso no início de 2023, quando seu nome constava na lista dos 15 traficantes mais procurados de São Paulo. Ele era considerado o braço direito de Fuminho, principal fornecedor de drogas para o PCC. Ele é apontado como o responsável por planejar um ousado plano de resgate do chefão da facção, o Marcola, que envolvia o uso de aeronaves, blindados e metralhadoras.
Guinho está decretado pela facção – há uma sentença de morte do PCC contra ele. Ele e outros bandidos teriam participado de uma videoconferência para discutir o sequestro de Moro. Um dos bandidos gravou o encontro e quando foi preso, o material caiu nas mãos do Ministério Público. Em razão do “vacilo”, dois dos participantes da reunião – Janeferson Aparecido Mariano Gomes, o Nefo, e Reginaldo Oliveira de Souza, o Rê – foram mortos perlo PCC em 17 de junho dentro da penitenciária 2 de Presidente Venceslau. Guinho só não teria morrido porque pediu “seguro” e está separado dos demais presos, em Avaré.
O faccionado preso em Avaré era o suspeito de fazer os pagamentos do PCC para o grupo de PMs da Rota. Tinha uma mesada que começou em 2021, depois que os PMs tiveram contato com a delação de Emilvaldo da Silva Santos, o BH. BH era da cúpula da facção e recebeu a missão de resgatar Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, da prisão. Como falhou, ele foi “decretado” pelo PCC. Em razão disso, após ser preso, concordou em assinar uma colaboração premiada e hoje está no programa de proteção á testemunhas.
Além de matar Gritzabach, policiais militares investigados teriam recebido a missão de localizar BH e entregá-lo ao PCC. Ao todo, os bandidos do PCC teriam colocado R$ 5 milhões à disposição dos PMs em troca das informações sobre as operações e da localização de BH.
A facção também teria encomendado para um PM dois assassinatos na zona leste de São Paulo – Galo Cego e Cabelo Duro. Ambos foram executados com dezenas de tiros de fuzil, em ações semelhantes à que vitimou Gritzbach no aeroporto de Guarulhos.
Os PMs também teriam recebido dinheiro para frustrar as prisões do traficante Silvio Luiz Ferreira, o Cebola, e de Marcos Roberto de Almeida, o Tuta. Ambos estão na lista de beneficiários das informações vazadas pelos policiais investigados. Cebola era um dos líderes do tráfico de drogas do PCC enquanto Tuta era o responsável pela facção nas ruas. Cebola está foragido; Tuta, desaparecido.
[Por: Estadão Conteúdo]
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