Patos, reduto do deputado, tem contrastes como aeroporto e esgoto a céu aberto

O deputado Hugo Motta (no meio) ao lado da avó, a deputada estadual Francisca Motta, e do pai, prefeito de Patos (PB), Nabor Wanderley Filho — Foto: Divulgação
A matemática das forças políticas de todos os matizes que se somaram em torno da candidatura do deputado Hugo Motta, líder do Republicanos, à presidência da Câmara, traduz a dimensão da influência política do paraibano no plano federal. Ele tem o apoio de Arthur Lira (PP-AL), titular da cadeira, a simpatia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e, nos bastidores, reuniu pelo menos nove partidos em torno de seu nome
Esse cálculo contabiliza PT e PL, e viabiliza a formação de um bloco com mais de 300 deputados. Nada é oficial, mas está bem alinhavado nos bastidores. Só não se materializa em 2025 se PSD e União Brasil convencerem o Palácio do Planalto de que caminhar ao lado do PL de Jair Bolsonaro na metade final do mandato de Lula não seja prudente.
A outra conta a se fazer abrange o volume expressivo de emendas do orçamento secreto destinadas a Patos (PB) entre 2021 e 2024 – período relativo ao terceiro mandato do pai de Motta, Nabor Wanderley Filho (Republicanos), como prefeito da cidade, conhecida como a “capital do sertão”.
Nesses quase quatro anos, Patos foi favorecida com R$ 68,2 milhões em emendas parlamentares. Desse total, R$ 46,3 milhões (68%) correspondem aos valores sem autoria e destinação específica, as emendas RP9 (de relator) e RP8 (de comissão). O volume empenhado alcança R$ 84,9 milhões.

Imagem aérea das obras de construção do Aeroporto de Patos, que tem inauguração planejada para 2025 — Foto: Divulgação
Cidade-pólo de economia emergente, famosa pela “maior festa de São João do sertão”, Patos tem localização estratégica, a 40 quilômetros de Pernambuco e à mesma distância do Rio Grande do Norte, o que justificaria o aeroporto – o terceiro do Estado, ao lado dos terminais de Campina Grande e João Pessoa.
Voos saindo de Recife já desembarcam no município, mas no ano que vem deve ser inaugurada a área de embarque e desembarque de passageiros. A obra é acompanhada de perto pelo correligionário de Motta – e articulador de sua candidatura -, o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, deputado licenciado do Republicanos de Pernambuco.
Em contraste, somente 13,36% da população é atendida com rede de coleta e tratamento de esgoto, segundo dados do Instituto de Água e Saneamento (IAS). Há bairros onde o esgoto circula a céu aberto e predomina o mau cheiro. Parte dos dejetos é descartada no rio Espinharas, que corta a cidade, está poluído, e não há projeto para recuperá-lo, apesar da crise climática. O município sofre com inundações, e amargou uma cheia histórica em 2009, que deixou centenas de desabrigados.
No dia 20, ao fim de um comício, Nabor anunciou que a cidade receberá investimentos de R$ 92 milhões para saneamento básico do governo federal, sendo R$ 47 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e mais R$ 42 milhões do governo estadual – essa conta aproxima-se dos mais de R$ 80 milhões do orçamento secreto dos últimos quatro anos.
Ao Valor, o prefeito ponderou que a obra de saneamento é de responsabilidade do Estado, que comanda a Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa). Alegou que é uma obra complicada, pelo terreno pedregoso, mas acredita que haverá empenho dos entes federal, estadual e municipal para que avance.

Se contempla Lira e Lula, a candidatura de Hugo, ou “Huguinho” – como ele é chamado entre seus pares -, também atende às ambições de caciques nacionais e regionais. Primeiro, acalmou o presidente do Progressistas (PP), senador Ciro Nogueira (PI), amigo próximo e um dos articuladores de seu nome, que não queria ver o União Brasil, do senador Davi Alcolumbre (AP), presidindo o Senado e a Câmara Federal.
Também reacomoda os caciques regionais, de modo que cada um deverá garantir seu naco de poder em 2026. Antes do lançamento do nome de Motta para a sucessão de Lira, ele era cotado para disputar o governo ou o Senado em 2026. Com a eventual eleição para a presidência da Câmara em fevereiro de 2025, a expectativa dos aliados (e dos adversários) é que ele dispute o quinto mandato, a fim de tentar completar dois biênios na chefia do Legislativo.
A saída dele do pleito local pavimenta o caminho para a candidatura do vice-governador Lucas Ribeiro (PP) ao comando do Executivo estadual, num cenário em que o governador João Azevêdo (PSB) é pule de dez para uma das vagas de senador.
O mandatário do PSB deverá se desincompatibilizar do cargo e passar a caneta ao vice, que é filho da senadora Daniela Ribeiro (PP-PB) e sobrinho do líder da Maioria no Congresso e ex-relator da PEC da reforma tributária, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB).
O movimento das placas tectônicas na Paraíba também remove obstáculos à candidatura à reeleição do vice-presidente do Senado, Veneziano Vital do Rêgo (MDB), considerada mais difícil porque ele rompeu com o grupo de Azevêdo e migrou para a oposição, ao lado do senador Efraim Filho (União-PB) e do ex-senador Cássio Cunha Lima (PSDB).
Um dos aliados mais próximos do governador e com trânsito no Planalto, Motta é reconhecido como articulador habilidoso, de espírito conciliador e cumpridor de acordos. “Ele tem essa capacidade de liderança e a exerce sem a arrogância que alguns às vezes tentam impor”, disse João Azevêdo ao Valor, em entrevista na sede do Executivo estadual em João Pessoa. “O Congresso precisa de alguém que não coloque sempre um cabo de guerra nas discussões”, acrescentou.

O diretório do PSB em Pernambuco, comandado pelo prefeito de Recife, João Campos, havia sinalizado apoio à candidatura do líder do União Brasil, Elmar Nascimento (BA). Inicialmente, Nascimento despontava como favorito de Lira para a sucessão, mas o cenário mudou com a entrada de Motta no jogo. Mas o líder da bancada, Gervásio Maia, é paraibano, e segundo Azevêdo, tem a orientação da direção nacional do PSB para atuar a favor de Motta.
Se as mesmas famílias se revezam no poder na Paraíba, em especial em Campina Grande e na capital – os Ribeiros (de Aguinaldo), os Vital do Rêgo (de Veneziano), os Cunha Lima – com o líder do Republicanos não é diferente. A singularidade é que ele representa dois clãs que se revezam na Prefeitura de Patos há mais de 30 anos: os “Motta”, da avó materna Francisca (Chica) Motta, ex-prefeita, e os “Wanderley”, do avô, Nabor Wanderley.
Edivaldo Motta, avô materno, foi deputado constituinte junto com Lula. O pai, conhecido como “Naborzinho”, tenta em outubro o quarto mandato no cargo. Mas a perpetuação da dinastia dos Motta-Wanderley não afastou Patos do atraso nem das operações policiais.
Em 2016, na gestão de Francisca Motta na prefeitura, a mãe do parlamentar, Illana Motta, que era chefe de gabinete, chegou a ser presa, com outros suspeitos, e a prefeita foi afastada. A investigação mirou supostos desvios em contratos de locação de veículos.
Nos quatro anos seguintes, o município teve mais três prefeitos, alternando-se o vice e os presidentes da Câmara Municipal. Em 2020, Nabor Filho reelegeu-se para o terceiro mandato no cargo. Ele disse ao Valor que a avaliação dos eleitores é de que ele levaria estabilidade política ao município.
Recentemente, em meados de setembro, outra operação da Polícia Federal teve como alvo empresas sediadas em Patos, responsáveis por obras de restauração de avenidas. A suspeita é de desvio de recursos estimados em R$ 6 milhões, que envolvem emendas do orçamento secreto.
O prefeito esclareceu que todos os documentos estavam digitalizados, e foi possível fornecer as informações para a PF e para a Controladoria-Geral da União em menos de 48 horas.
Um terceiro escândalo também envolveu recentemente a Prefeitura de Patos, este envolvendo o suposto desvio de R$ 21 milhões em recursos do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). O episódio é alvo de investigação do Ministério Público da Paraíba, e tem sido explorado na campanha eleitoral.
O prefeito disse ao Valor que afastou um servidor efetivo da Prefeitura, que teria envolvimento no ocorrido, e que acha esse valor exagerado. Ele encaminhou documentos para a investigação do Ministério Público e do Tribunal de Contas.
Aos 35 anos, no quarto mandato de deputado federal, Motta trocou o MDB pelo Republicanos em 2018, em um movimento de reacomodação de forças no Estado. Pegou a direção estadual da sigla com 2 prefeitos, 1 deputado estadual e 1 vereador em João Pessoa em 2018. Seis anos e três eleições depois, o partido tem 3 deputados federais, 8 deputados estaduais, 36 prefeitos e 5 vereadores na capital.
Nos últimos dois anos, Motta destinou mais de R$ 70 milhões em emendas impositivas para cidades da Paraíba em dois anos. Menos do que o vice-líder governista Damião Feliciano (União), porém, à frente de O senador Efraim Filho, que milita na oposição na Paraíba, citou um exemplo no pleito de 2022 em que Motta não recuou no compromisso e manteve a palavra – qualidade pela qual tem sido lembrado.
Efraim era aliado do governador João Azevêdo, que havia acenado com apoio à postulação dele ao Senado. Houve um movimento, entretanto, de que Aguinaldo Ribeiro concorreria à mesma vaga, e impôs-se um impasse. Ao fim, o próprio Aguinaldo recuou, mas Efraim foi para a oposição. Mesmo com o movimento, Motta dividiu-se: pediu votos para a reeleição do governador, e para a eleição de Efraim, mesmo no campo adversário. Procurado, Hugo Motta não quis comentar.
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