Crédito para compra de carros atinge em abril melhor patamar em dez anos. O que explica essa alta?

Fazia seis meses que o representante de vendas Edser Sergio Buratto Neto, de 41 anos, se preparava para trocar de carro. Vendeu o Ônix 2017 automático, da GM, que estava muito rodado, por R$ 49 mil, e estava disposto a desembolsar, no total, até R$ 98 mil à vista para levar um carro novo ou usado. Na última segunda-feira, 3, ele comprou um Nivus, da Volks, zero-quilômetro, por R$ 120 mil. “Fui atraído pela boa taxa de juros”, diz.

O representante comercial observa que acabou fechando um negócio completamente diferente do planejado. “Comprei um carro mais caro e com uma parcela que coube no meu bolso, sem me descapitalizar.” Pelo veículo, deu R$ 65 mil de entrada e parcelou o saldo em 36 meses, com prestações fixas de R$ 1.890 e juros de 0,60% ao mês.

Edser Sérgio Buratto Neto foi atraído pela taxa de juros subsidiada para comprar a prazo um veículo de maior valor Foto: Taba Benedicto/Estadão

As aquisições de Buratto Neto e de outros compradores devem engrossar as estatísticas do Banco Central (BC) que já apontam um salto na aprovação de novos financiamentos para a compra de veículos.

Turbinado por campanhas agressivas de financiamento com taxas de juros reduzidas, bancadas pelas montadoras, e até juro zero e também pela retomada, em alguns casos, da modalidade “troca com troco”, o volume de novos financiamentos para compra de veículos cresceu 26,8% em valor nos últimos 12 meses até abril, segundo dados do BC.

Essa linha de financiamento ao consumidor, que encerrou abril com R$ 17,670 bilhões no total de novos empréstimos – cifra 69% maior que no mesmo mês de 2023 –, foi uma das que mais avançaram em 12 meses até abril. Perdeu a corrida apenas para o cartão de crédito parcelado (32%).

O ritmo de aprovação de novos créditos para aquisição de veículos em 12 meses até abril também superou de longe o avanço de novos financiamentos com recursos livres liberados para pessoas físicas como um todo, de 10,6%, no período.

Dados da B3, que reúne o cadastro das restrições financeiras de veículos que entram como garantia em operações de crédito em todo território nacional (Sistema Nacional de Gravames), confirmam a disparada dos novos empréstimos. Abril foi o melhor mês para a venda de veículos financiados dos últimos dez anos, desde dezembro de 2014.

Entre comerciais leves, veículos pesados e motos, novas e usadas, foram vendidas 611 mil unidades por meio de financiamentos. É um volume 45% maior ante abril de 2023. O segmento que mais puxou o número de unidades financiadas em abril foi o de motocicletas, com crescimento de 47,3% ante abril de 2023, seguido por automóveis leves (42,7%) e veículos pesados (32,5%). No acumulado do ano até abril, as vendas financiadas somaram 2,2 milhões de unidades, com alta de 27% na comparação com igual período de 2023, aponta a B3.

Para o presidente da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef), Paulo Noman, o fator que mais tem pesado no aumento dos financiamentos de veículos novos são as campanhas das montadoras, por meio de seus bancos, para oferecer taxas de juros mais vantajosas.

“Quase todos os bancos cativos fizeram campanhas com taxas de juros subsidiadas pelas montadoras, o que tornou o financiamento mais atrativo para o cliente”, observa. Os juros dos financiamentos, que estavam na casa de 20% ao ano, hoje caíram para 10% ao ano, porque a montadora pagou a outra metade, acrescenta.

Também os planos com taxa zero disponíveis no mercado e bancados pelas montadoras para escoar os estoques ajudaram a impulsionar a venda a prazo. Neste caso, o valor exigido na entrada é maior e o número de parcelas é menor em relação a um financiamento com juros.

Marcos Leite, diretor de vendas da Amazon, revenda Volkswagen, conta que tem praticamente em todas as linhas de veículos planos com taxa zero. O que varia é a entrada e o prazo. Hoje, do volume total de vendas da concessionária, entre 65% e 70% são financiadas e pelo menos 80% é com taxa zero. “Isso acelera as vendas”, afirma.

O financiamento com juro zero tem atraído, de acordo com Leite, até quem tem dinheiro para pagar à vista o carro novo. É que acaba sendo uma oportunidade manter o dinheiro aplicado no banco ou gastar os recursos com outras atividades, como uma viagem ou reforma da casa. “Se a pessoa for buscar uma linha de crédito para reformar a casa ou para viajar terá de pagar juros, e se pegar um financiamento pessoal, os juros serão bem mais altos”, observa.

‘Troca com troco’

Até a modalidade de venda chamada de “troca com troco” está de volta e tem ajudado a aumentar o volume de financiamentos, segundo Leite. Na “troca com troco”, o comprador do veículo entrega o carro usado e recebe em troca dinheiro vivo, financiando integralmente o carro zero-quilômetro.

Essa modalidade de vendas tinha caído no esquecimento por causa dos juros mais altos – antes em 1,99% ao mês e hoje entre 1,29% e 1,39% ao mês e sem entrada. “A queda da Selic (a taxa básica de juros) viabilizou a ‘troca com troco’”, diz o diretor da Amazon. Ele conta que na sua concessionária, por exemplo, essa modalidade já responde por 10% das vendas financiadas.

Noman, da Anef, diz que a “troca com troco” existe, mas pondera que representa muito pouco. Portanto, na sua opinião, não se trata de um fator que tenha puxado as vendas a prazo. De toda forma, ele observa que tem havido um grande aumento de “planos balão”. São financiamentos cuja parcela final tem um valor muito maior do que as prestações correntes.

Além da queda dos juros dos financiamentos veículos, que, segundo dados do BC, foi de três de pontos porcentuais nos últimos 12 meses – de 28,5% ao ano em abril de 2023 para 25,5% ao ano em abril de 2024 – e que se refletiu nos planos subsidiados das montadoras, criando a demanda, há outros fatores que têm ajudado no avanço das vendas a prazo de veículos.

Um deles é a procura reprimida pela compra de veículos que agora está vindo à tona, segundo o presidente da Anef. Em razão da pandemia, por um longo período a oferta de carro zero ficou prejudicada pela falta de componentes.

Outro fator apontado por Noman para o avanço do volume de financiamentos é a melhora do risco de crédito, com a reestruturação de dívidas, diminuição da inadimplência e avanço do nível de emprego. “Isso levou a uma oferta maior de crédito.”

Descompressão de preços

Além da queda dos juros, Caio Napoleão, economista sênior da MCM Consultores Associados, acrescenta mais outra razão para o avanço do volume de financiamento: a descompressão de preços dos veículos. Na saída da pandemia, a falta de componentes turbinou os preços dos carros novos e, por tabela, dos usados.

Segundo dados Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a medida oficial da inflação, esse movimento vem perdendo força. Em 12 meses até abril, o preço do carro novo subiu 1,18%, bem abaixo do IPCA cheio do período, que foi de 3,69%. No caso do carro usado, houve até deflação de 4,87%, na mesma base de comparação. “Inflação baixa e queda nos juros é a combinação para puxar vendas financiadas”, diz o economista.

Outro ponto levantado por Napoleão para explicar o avanço dos financiamentos de veículos, que incluem motocicletas, é o fato de este segmento estar sendo muito turbinado pelo aumento dos serviços de entrega.

Quanto à tendência, o economista observa que, no momento, está sendo desafogada a demanda por financiamento de veículos que havia sido represada por causa de preços e juros altos. A perspectiva da procura por financiamentos de veículos daqui para frente, diz ele, é de acomodação em razão do escoamento da demanda represada e do aumento das bases anuais de comparação.

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