Depois e antes de atravessar

 

Ipojuca Pontes

Com a publicação de Antes de Atravessar pela Editora Ibis Libris, de Thereza Christina Rocque da Veiga, José Nêumanne Pinto alcança inusitada dimensão no cenário da poesia contemporânea. Desde logo, se faz necessário dizer ao leitor que o poeta paraibano nascido em Uiraúna busca trilhar caminhos bem impactantes na sua ordenação poética.

De fato, depois da festejada edição de Solos do Silêncio, obra publicada em fins de 1996, Nêumanne Pinto parte agora para a criação de uma ousada prosa poética que, para além da originalidade, deixa transparecer um secreto encanto. No livro, dividido em três partes – somando Poemas para Isabel, Escrituras Profanas e A vida como ela é -, o poeta mergulha em si e celebra a própria vida numa conversa franca; pontilhada de revelações eróticas, na qual, de forma inventiva, o corpo da mulher é exaltado e dissecado como se presenciássemos uma aula de anatomia. Tal prosa, no entanto, consubstanciada numa técnica renovadora do verso livre, leva o poeta, na sua “objetividade subjetiva”, ao confessionário.

Revela ele:

  • Ouvia o pulsar do meu coração,

remoçado pela presença dos dois

na minha vida velha de 68 anos.

Ou melhor, eram, sim, Isabel e Artur

caminhando pelas artérias e veias

desta melhor manhã de minha nova mocidade.

De minha parte, entendo que há semelhança perceptível entre as revelações da prosa poética de José Nêumanne Pinto e os versos livres de Walt Whitman, o grande poeta da democracia norte-americana do século XIX, em particular numa passagem coloquial do seu livro-chave Leaves of Grass, quando escreve:

  • Vem mulher, sê calma comigo.

Eu sou Walt Whitman

Fiel e robusto como a natureza.

Enquanto o sol não te excluir, eu não te excluirei,

Por outro lado, convém ressaltar que bem ao inverso da advertência encontrada por Dante Alighieri no portal do Inferno, onde se lia “Perdei toda esperança, ó vós que entrais” (“Lasciate ogne speranza, voi che entrate”) – José Nêumanne Pinto é poeta robusto de esperança, sempre procurando enxergar o maior e o melhor das coisas, até mesmo quando glosa a baba bovina de Fernando Henrique Cardoso, o Doutor Trololó, que acha que o “Brasil é isso ai, mesmo” – e que Nêumanne dilui na boa prosa de “Sr. Brasil, prazer e pena” ao comentar as grandezas e misérias do gigante nada adormecido. Ou ainda quando aborda com vigor o enigma da vida no longo poema “Ecce Homo” e chega a conclusão de que o ser, mesmo quando morto e sepultado, será sempre o Outro.

Por força de suas atividades de comentarista, escritor e jornalista, profissão que exerce há cinco décadas, Nêumanne Pinto é homem de largo trato com a palavra. Seja ela velha, nova, breve, longa, fácil ou difícil, fosca ou brilhante, ele sabe que posta fora do lugar uma palavra pode liquidar a beleza de qualquer pensamento – e por vezes levar sujeito à morte. Ademais, também entende que as palavras são abstrações que tornam possível a arte da poesia – arte que o filósofo Platão baniu de sua República por intangível, mas que levam o artista a imaginar o mundo não apenas como ele é, mas, sim, como ele deveria ser.

Outro ponto a destacar no livro de José Nêumanne Pinto é a capa de autoria de Chico Pereira, diretor do Museu de Arte Assis Chateaubriand de Campina Grande, que exibe, em cores outonais, a visão de um barco posto a beira de um rio – capa que, por adequada, ilustra à perfeição o sentido poético do oportuno livro Antes de Atravessar , já ao dispor dos aficionados da arte poética.

Por fim, é de se imaginar que Nêumanne Pinto, tal como fez o poeta Walt Whitman com edições recorrentes de Leaves of Grass, retorne a laborar edições complementares de Antes de Atravessar.

Ipojuca Pontes é cineasta, jornalista, escritor e produtor teatral

(Publicado no jornal A União da quinta-feira 11 de janeiro de 2024)


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