Diogo Schelp: Brasil precisa de coragem para apostar em políticos moderados
Jornalista lança livro “Nem comunista, nem fascista” e defende a força do eleitorado que rejeita os extremos
O mito da polarização eleitoral
Às vésperas de eleições marcadas pela polarização, o jornalista Diogo Schelp, colunista do Estadão, aponta a falta de coragem dos partidos políticos brasileiros em lançar candidaturas moderadas. Segundo ele, criou-se um “mito de que apenas os extremos têm chance eleitoral”. Schelp baseia sua afirmação em pesquisas que indicam que “cerca de 60% da população não se identifica com nenhum dos extremos, e quase metade dos brasileiros não se considera nem petista nem antipetista”.
O jornalista defende que a moderação não significa ausência de posição, mas sim uma abordagem ponderada e informada. “Uma característica central da moderação é o ecletismo“, explica. “É possível, por exemplo, ter um posicionamento moderado mais à direita e, em determinadas situações, reconhecer que a esquerda oferece respostas melhores para alguns problemas.” Ele ressalta que, historicamente, há espaço para esse campo na política brasileira, e que as últimas disputas para governador e prefeito em capitais brasileiras mostram que candidatos moderados venceram estratégias mais radicais.
O guia para resistir à radicalização
O novo livro de Schelp, “Nem comunista, nem fascista: guia de resistência para moderados”, que chega às livrarias em 31 de janeiro, mergulha na história para discutir o papel dos moderados e oferece técnicas para enfrentar o debate público em contextos radicalizados. O autor percebeu uma lacuna no mercado editorial, com muitos livros abordando a polarização e as emoções dos extremos, mas poucos contemplando o público que busca alternativas e um repertório para lidar com esse cenário.
O livro apresenta estratégias de diálogo com pessoas radicalizadas, como a “angariação profunda”, que envolve escuta não julgadora e interesse genuíno pela opinião do outro, e o “reenquadramento moral”, que dialoga a partir de valores compartilhados. “Histórias pessoais funcionam melhor do que estatísticas, que raramente dissuadem”, afirma Schelp, citando pesquisas que indicam a eficácia dessas abordagens em introduzir dúvidas e questionamentos, tornando as posições menos herméticas.
Causas e consequências da polarização
Schelp aponta a nova era da informação digital, marcada pela desinformação e pela ascensão de lideranças populistas, como um dos fatores que conduziram o Brasil ao cenário de polarização atual. A “horizontalização da informação”, embora positiva para a democracia, ainda vivemos uma transição de adaptação, e as redes sociais criaram um “caldo de cultura perfeito para a polarização extremada”.
Ele diferencia a polarização saudável, como a partidária vista no Reino Unido por décadas, da polarização afetiva ou tribal, que se apoia em emoções e adesão pouco racional a um grupo. Essa última, segundo o jornalista, leva à demonização e desumanização do adversário, como visto em episódios de violência política no Brasil e nos Estados Unidos. Schelp também desmistifica a ideia de que radicalismo está ligado a distúrbios psiquiátricos, afirmando que, em muitos casos, trata-se de uma questão ideológica e de busca por pertencimento a um coletivo político.
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