Embaixador do Líbano no Brasil, Elias Nicolas, apela por maior protagonismo brasileiro na busca pela paz no Oriente Médio.
Em entrevista à Coluna do Estadão, o embaixador do Líbano no Brasil, Elias Nicolas, fez um apelo para que o governo brasileiro assuma um papel mais ativo e tome atitudes concretas para ajudar a solucionar o conflito em curso no Oriente Médio. A declaração surge em um momento delicado, um mês após o início de uma guerra que se iniciou entre Estados Unidos e Irã e cujos efeitos se espalharam pela região.
“Espero que o Brasil tenha um papel mais ativo para acabar com o conflito”, declarou Nicolas, que também busca o apoio do Itamaraty para facilitar o envio de doações humanitárias ao Líbano, país que sofre intensamente com a escalada da violência.
Relações históricas e apelo humanitário
Com 55 anos e no Brasil desde setembro do ano passado, Elias Nicolas ressaltou o forte laço histórico entre as duas nações como justificativa para seu pedido. Ele instou o governo brasileiro a contribuir com o apelo humanitário emergencial lançado pela ONU, que busca arrecadar US$ 325 milhões. Países como Itália, França e Alemanha já aderiram à iniciativa, demonstrando um esforço internacional conjunto.
O embaixador informou ter solicitado audiências com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para discutir a participação do Brasil. “Eu pedi ao Itamaraty de forma muito clara para que por favor faça algo muito tangível, para além do discurso, e que apoie as iniciativas da ONU no Líbano, contribuindo financeiramente para o apelo emergencial como outros países amigos já fizeram”, afirmou.
Crise migratória e a diáspora libanesa no Brasil
O Brasil abriga a maior comunidade libanesa e de seus descendentes fora do Líbano, estimada em cerca de 8 milhões de pessoas. Em contrapartida, aproximadamente 22 mil brasileiros residem no Líbano. Questionado sobre planos de retirada, o embaixador esclareceu que o espaço aéreo permanece aberto, permitindo a saída autônoma de cidadãos. Ele também informou que, até o momento, não há registro de brasileiros entre as vítimas fatais da guerra.
A ONU reporta mais de 1 milhão de deslocados internos no Líbano, muitos forçados a deixar suas casas, especialmente no sul do país, epicentro dos confrontos com Israel. Elias Nicolas enfatizou a gravidade da crise migratória, sublinhando a urgência de paz para que o povo libanês possa retornar aos seus lares. “A crise migratória é real. Já são mais de 1 milhão de pessoas deslocadas de suas casas por conta da agressão israelense. A gente precisa acabar urgentemente com o conflito para que o nosso povo possa voltar para suas cidades”, disse.
O Líbano arrastado para a guerra e o temor de retrocesso internacional
O Líbano foi envolvido no conflito em 2 de março, após o Hezbollah realizar ataques contra Israel em retaliação à morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em bombardeios atribuídos aos Estados Unidos e Israel. O embaixador expressou receio de que as ações em curso, caracterizadas por ele como violações ao direito internacional, possam levar o mundo a um cenário semelhante ao período anterior à Segunda Guerra Mundial.
“Se continuarmos assim, o mundo vai voltar ao que era antes da Segunda Guerra Mundial, quando qualquer país podia fazer o que quisesse”, alertou Nicolas. Ele também comentou sobre a complexidade da situação com o Hezbollah, destacando a falta de recursos do governo libanês para confrontá-lo sozinho e a contínua violação da soberania libanesa por Israel, o que, segundo ele, legitima a resistência. “Quando alguém viola a sua soberania, a resistência, qualquer que seja ela, é legítima, certo?” questionou.
A embaixada libanesa lançou a campanha “Apoie o Líbano 2026” em parceria com consulados e a organização “Unidos pelo Líbano” para angariar ajuda da comunidade libanesa-brasileira e amigos do país. “Eu me permiti pedir ao Itamaraty que o Brasil dê mais passos adiante no sentido de mostrar que está se importando com o Líbano”, concluiu o embaixador.
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