[Editada por: Marcelo Negreiros]
Os jovens têm usado uma nova gíria para definir relacionamentos. Para os adolescentes, quando uma pessoa desaparece, deixa de mandar mensagens, bloqueia o contato nas redes sociais, sem dar satisfação, ela está fazendo “ghosting”, palavra que deriva do termo em inglês para designar fantasma.
A gíria serve perfeitamente para classificar a relação do governo Lula com Fernando Haddad. O ministro da Fazenda claramente está sofrendo ghosting. Ele fala em ajuste fiscal, propõe reformas, aponta para a necessidade de se cortar gastos, mas tudo parece ecoar no vazio. É como se ele estivesse gritando no deserto.
O presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva ( PT) acompanhado do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em solenidade no Planalto Foto: wilton junior/Estadão
Por trás dessa cortina de silêncio, o governo segue em outra direção, minando a autoridade do ministro da Fazenda. Haddad tem se tornado aquele amigo que foi “esquecido” em um grupo de Whatsapp e continua a mandar mensagens, enquanto os outros estão em um novo grupo secreto.
O presidente da República prefere viver na ilusão de um passado glorioso da economia do que entrar na realidade atual, onde a inflação, sobretudo nos alimentos, está penalizando as famílias, e onde as pessoas começam a ter uma percepção de que o país caminha para dias ainda mais difíceis.
Sempre que pode, Lula critica qualquer medida que possa limitar os gastos do governo, mesmo que seja para equilibrar as contas, algo que é básico para que se possa ter uma gestão saudável.
É como se o governo e a base da esquerda estivessem jogando Haddad para escanteio. Há perfis progressistas que o criticam abertamente e o classificam como “noeliberal disfarçado”ou “amigo do mercado”. Muitos desses perfis o veem como alguém que não é firme o suficiente na defesa dos princípios esquerdistas. Questões caras aos lulistas e aos pares petistas do ministro.
Os dados confirmam essa desconexão em curso, entre Haddad e a esquerda. Um estudo realizado pela AP Exata Inteligência Digital mostra que, entre perfis de cunho esquerdista, cerca de 44,5%, ou seja, menos da metade, veem o ministro de forma positiva. 27,1% o enxergam negativamente e 28,4% de forma neutra.
A AP Exata analisou cerca de 120 mil publicações no X, nas últimas duas semanas. Em termos gerais, sem recortes ideológicos, a reprovação ao ministro atinge 41%, enquanto a aprovação é de apenas 24,4%.
O sentimento de raiva predomina nas publicações que o mencionam, chegando a 22% dos posts. Em segundo lugar está o desgosto, com 18,3%, seguido do medo, com 15,3%. A confiança aparece em apenas 10,9% das publicações.
Esse derretimento da imagem de Haddad, no ambiente da esquerda, impede o ministro de ter uma defesa ampla e orgânica perante as críticas da direita.
Para os direitistas, Haddad é uma figura que representa tudo o que há de errado no governo petista. Eles o acusam de ser incompetente, incapaz de lidar com a crise econômica do país, de querer aumentar a carga tributária e de não conseguir impor uma agenda de cortes de gastos. Esse bombardeio é constante, e vem refletido em hashtags como #ForaHaddad, que dominam as conversações da oposição no X sobre o ministro.
A situação de Haddad é um reflexo da complexidade da política brasileira. Ele tem se tornado uma figura isolada no governo, mesmo sendo do PT e ter, inclusive, disputado a presidência pela sigla.
O ghosting político que sofre é uma triste metáfora para a forma como a política às vezes funciona. Nesse cenário, muitos apostam na queda do ministro. Veremos quanto tempo ele irá resistir sem apoio da própria militância lulista.
[Por: Estadão Conteúdo]
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