Marinetti e o futurismo – Estadão

[Editada por: Marcelo Negreiros]

Quem conheceu Marinetti e com ele conviveu foi Giovanni Papini. Isso foi em final de 1913. Narra Papini que, nessa época, ele já havia ultrapassado o meio do caminho de nossa vida, mas difundia uma vitalidade vertiginosa e vibrante, fora do comum. Vestia-se com elegância milanesa, se movia com energia elástica e impulsiva e se utilizava de palavras bem esculpidas e peremptórias. Tinha grande resistência física. Depois de longas e insones viagens, tomava um banho quentíssimo, bebia uma taça de café e logo estava saltitante, disposto a escaramuças e batalhas verbais que duravam horas e horas.

Sua chegada à pacífica Florença daquele tempo equivalia à queda de um meteorito em chamas, sobre um velho jardim ducal. Por causa de suas algazarras diurnas e noturnas, foi julgado, então e depois, pouco mais do que um mentecapto frenético e questionador. Dizia-se que D’Annunzio o definira como “o cretino fosforescente”. Mais mordaz e feroz a definição atribuída a Petrolini: “um idiota com traços de imbecilidade”.

Não era o que pensava Papini. Para ele, Marinetti possuía um tipo de inteligência intuitiva e instintiva, ainda que nada profunda. E também certa cultura, recolhida em colégios jesuíticos e nos cafés de Paris e Milão. No fundo, era uma boa alma, capaz de amizades fraternais e de impulsos generosos. Era de substância burguesa. Terminou formando casa e família e foi sinceramente enamorado de sua mulher e filhas.

Suas teorias, com frequência ingênuas e confusas, recolhera aqui e ali, sobretudo nos cenáculos e nas revistas francesas. No seu conjunto, constituíam uma espécie de “dannunzianismo” acomodado aos mitos mais grosseiros da civilização mecânica. Mas para quem se detiver na análise da atmosfera angustiante dos anos que prepararam a Primeira Guerra Mundial, reconhecerá que a irrupção do futurismo, antes de converter-se em marinettismo, exerceu alguns efeitos saudáveis. Marinetti obrigou a grande parte da sonolenta e anquilosada burguesia italiana a apaixonar-se pelos novos problemas da arte e da literatura e a entrar violentamente em contato com as buscas e descobrimentos do novo espírito europeu.

[Por: Estadão Conteúdo]

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