Antes de mais nada, preciso deixar claro que todas as nossas capas são feitas com muitas mãos (e mentes). Nenhuma imagem que você vê por aqui tem um processo singular – e isso é umas das coisas que fazem as imagens da Super serem tão legais de desenvolver.
Em algumas edições, a sacada genial vem de uma única pessoa, geralmente do time de design. Em outras, fazemos uma reunião com todos da revista para pensarmos no conceito juntos.
Há, por fim, casos em que precisamos ampliar ainda mais esse processo: diferentes profissionais com diferentes expertises são convidados para produzir diferentes etapas de uma única imagem. Esse é um desses casos.
Depois de receber a pauta e pesquisar sobre o assunto, decidi criar uma releitura da última capa sobre o mesmo tema (ed. 395, de outubro de 2018). Sempre gosto de me esforçar ativamente para honrar a memória da Super, ao mesmo tempo em que modernizamos a revista. Sinto que é um easter egg que só eu, outros diretores de arte que já passaram pela Super e fãs longínquos e muito dedicados vão sacar, mas acredito que esse cuidado vale a pena por causa desse elo secreto e silencioso que existe entre nós.
Na edição de 2018, a criação da Bruna Sanches consiste em uma escultura de coelho de pelúcia remendado, com destaque para um dos olhos pendurado por apenas uma linha.
Tudo na imagem dá a entender que ela é apenas a foto de um ursinho de pelúcia, e não uma escultura dura feita à mão e que pode enganar o leitor à primeira vista. Fascinante, não?

Sem perceber, usei o mesmo recurso agora: uma fotografia de uma escultura de balões que pode parecer uma criação meramente digital, mas que foi feita do zero.
Hora(s) do show
O primeiro passo foi aprovar com o editor-chefe e a repórter da matéria de capa a minha ideia: um coelho feito de bexigas prestes a ser perfurado pela agulha de uma seringa. A escolha por usar objetos reais não foi à toa: queria me divertir com o processo e testar técnicas que não são tão fáceis de aplicar no dia a dia de uma publicação mensal.
Nesse início, eu tinha apenas uma ideia, um dinheirinho e um sonho. Literalmente. Não tinha certeza se daria certo, mas estava mais do que determinada a tentar.
Comecei com o bom e velho “faça você mesmo” que eu e todo brasileiro adoramos. Minha estagiária Rafaela Reis (valeu, Rafa! <3) me ajudou a selecionar tutoriais do TikTok de coelhos em balão. Fizemos uma curadoria dos menos infantis e, nessa, encontramos um russo que ensinava um único modelo que se encaixa nos critérios. Daí, parti pra compra dos materiais e coloquei a mão na massa.
Achando que poderia sobreviver de esculturas em balão caso desse tudo errado na minha vida, achei errado. Descobri no processo que o tamanho do balão canudo que é vendido do Brasil é diferente dos do querido russo que estava me ensinando e, mesmo tentando ajustar proporções, entendi que não seria possível chegar no mesmo resultado.

Até que me dei conta de que eu tinha conseguido fazer o tutorial até o último passo, quando o balão dele ainda sobrava mais do que o meu, e só por isso eu não conseguiria terminar. Ele fazia a escultura toda com uma única bexiga, mas eu não precisava disso. Podia quebrar o coelho em 3 partes (cabeça, orelhas e corpo) e juntá-las apenas para que ele ficasse estável durante a foto.
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Ficou até que ok. Mas como eu não gosto de coisas “ok” e ainda tinha um pouco de tempo sobrando, decidi chamar os universitários para o play.
O que os olhos podem ver
Aqui chegamos na fase de contatar todos os esculturistas de balão de festas infantis em São Paulo que eu conseguisse (a cidade era importante: o coelho precisaria ser feito no estúdio do ensaio, porque os balões murcham em poucas horas e podem estourar no transporte). Meu agradecimento a André Minnassian pela rede de contatos que ele me passou e que foi essencial para que eu encontrasse mais e mais pessoas.
Depois de dias trocando mensagens e ligações sobre coelhos de balão possíveis para o tempo e dinheiro e disponibilidade que tínhamos, acabei com um total de 0 pessoas disponíveis para essa missão. Aí voltamos para o DIY da diretora de arte um pouco tensa com o tempo que começava a se esgotar.

Passei mais 2 dias desenvolvendo todas as formas de coelho em balão possíveis e imagináveis. Foram muitas cabeças, orelhas, corpos, olhos com e sem pálpebras, e partes (ênfase no plural) desenvolvidas numa tentativa de criar o melhor Frankenstein possível. Depois disso, lá se foi mais um tempo estudando todas as recomendações de donas de buffett sobre qual a melhor forma de juntar balões. Nessa, descobri que (pasmem!) a maneira mais eficaz é usar cola quente.
Um disclaimer: é claro que eu tinha planos B e C caso fazer a capa com foto não fosse possível ou a qualidade não chegasse aos padrões Super. Mas eu não queria desistir ainda.
Entendi todas as minhas limitações, recalculei algumas rotas e decidi chamar um dos meus braços direitos quando o assunto é tornar ideias malucas realidade: o Luiz F. Pilato. O Luiz trabalha com design e é um excelente profissional em modificar imagens no Photoshop. Parece muito banal, mas também é por causa dele que posso criar com qualidade algumas das ideias que tenho.
Voltando pro coelho, montei o pedaço que eu garantia e fui pro estúdio de outro parceiro, Eduardo Dulla, cheia de balões e seringas e sonhos pra realizar.
Chegando lá, tiramos foto da estrutura que eu montei e de vários outros pedaços separados que simulavam partes do coelho.




Minha estagiária foi escalada para o importantíssimo papel de quase espetar o coelho enquanto segura a seringa. Nada na fotografia é tão fácil quanto parece, e ela teve que ficar por um tempo considerável sentada em uma posição bem chata enquanto eu a dirigia para chegar no clique perfeito. (Valeu de novo, Rafa!)
Fui para casa, mandei as fotos para o Luiz e comecei o processo de dirigir a imagem na pós-produção junto a ele. Aí mexemos na cor, adicionamos os pedaços que faltavam, melhoramos o formato do nariz e fizemos vários outros pequenos ajustes necessários pra deixar a imagem perfeita.

O resultado você pode ver aqui –e a reportagem está neste link. Espero que goste, e te vejo no próximo mês com mais bastidores de ideias malucas para a Super (:

[Por: Superinteressante]
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