“Navios fantasmas”: o que são e como movimentam o mercado paralelo do petróleo

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Nos oceanos que nos cercam, uma parcela significativa do comércio de petróleo ocorre fora dos radares oficiais. São os chamados “navios fantasmas”: petroleiros que escondem sua identidade e suas rotas para transportar barris de países que estão sob sanções internacionais. 

Embora seja difícil mapear esse mercado, algumas estimativas indicam que até um em cada cinco petroleiros em operação no mundo faz parte dessa rede clandestina. Agora, a guerra no Irã deu um novo impulso ao sistema.

Com as rotas no Estreito de Ormuz ameaçadas e preços em alta, esses navios passaram a ter um papel ainda maior para manter o fluxo global de energia.

Mas como exatamente funciona esse mercado invisível?

Normalmente, o transporte marítimo de petróleo é altamente rastreável. Petroleiros transmitem continuamente sua posição por meio de um sistema chamado AIS, que permite acompanhar em tempo real dados como velocidade e direção da embarcação, além de identificar origem, destino e proprietário da carga.

Os navios fantasmas fazem justamente o oposto. Eles costumam desligar o sistema AIS e “sumir” do mapa.

Além disso, muitas dessas embarcações são antigas e registradas em países com pouca fiscalização. A propriedade costuma ser obscura e o seguro marítimo, quando existe, vem de empresas sem transparência.

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Para escapar de sanções, esses navios utilizam uma série de truques. Um dos mais comuns é trocar de nome ou de bandeira com frequência – às vezes, várias vezes no mesmo mês. 

Também há casos em que embarcações assumem a identidade de navios já desmontados, utilizando seus números oficiais de registro. Nesse caso, passam a ser conhecidos como “navios zumbis”, porque operam com a identidade de embarcações que já deixaram de existir.

Outra característica é a idade das embarcações. Muitos desses navios têm mais de 20 anos. Grandes companhias de navegação costumam descartar petroleiros depois de cerca de 15 anos de uso e enviá-los ao desmanche após 25 anos. Parte desses navios, porém, acaba sendo comprada por operadores ligados ao comércio clandestino.

Outra técnica frequente ocorre em alto-mar. Um petroleiro carrega petróleo em um país sob sanções e navega até uma área remota, onde transfere a carga para outro navio. Esse segundo petroleiro segue viagem com documentação diferente, o que torna difícil o rastreamento da origem do produto. 

Regiões próximas à Indonésia e à Malásia se tornaram pontos conhecidos para esse tipo de operação. Depois da transferência, o segundo navio segue até o destino final e apresenta o petróleo como se tivesse origem em um país não sancionado.

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Esse sistema começou a se expandir na década de 2010, quando países como Irã e Venezuela passaram a usar essas técnicas para driblar sanções internacionais. A rede cresceu ainda mais após 2022, quando sanções impostas à Rússia depois da invasão da Ucrânia obrigaram Moscou a encontrar novas rotas para vender petróleo.

Países sob sanções frequentemente oferecem grandes descontos no preço do petróleo para atrair compradores dispostos a assumir o risco da operação. Assim, mesmo proibido em vários mercados, o petróleo continua circulando.

Em alguns momentos, esse comércio ocorre de forma tão opaca que nem aparece nas estatísticas oficiais. Hoje, segundo a empresa de análise marítima Windward, a frota fantasma reúne cerca de 1,3 mil embarcações espalhadas pelos oceanos.

A guerra no Irã

O conflito no Irã afetou diretamente o Estreito de Ormuz, uma das rotas mais estratégicas do planeta para o transporte de petróleo. 

O estreito liga o Golfo Pérsico ao oceano Índico e funciona como a principal saída marítima para o petróleo produzido por países importantes neste mercado, como Arábia Saudita, Irã, Kuwait e Emirados Árabes Unidos. 

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Todos os dias, cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo passa por esse corredor marítimo estreito. O risco de ataques elevou os custos de seguro e dificultou a navegação convencional na região. 

Os navios fantasmas, que já operam fora do sistema tradicional de seguros e fiscalização, continuaram navegando.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos relaxaram temporariamente algumas sanções para evitar uma disparada maior nos preços da energia. Washington suspendeu restrições sobre cerca de US$ 15 bilhões em petróleo iraniano armazenado em navios no mar, permitindo que parte dessas cargas fosse vendida.

Isso abriu uma nova oportunidade para operadores clandestinos.

O que são as “terras raras”?

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As sanções internacionais que o Irã sofre foram impostas principalmente pelos Estados Unidos e aliados em resposta ao seu programa nuclear, ao desenvolvimento de mísseis e ao apoio a grupos armados no Oriente Médio. 

Essas medidas restringem fortemente as exportações oficiais de petróleo do país. Para contornar as limitações, o governo iraniano estruturou ao longo dos anos uma complexa operação clandestina em alto-mar. Todos os dias, cerca de dois milhões de barris deixam o litoral iraniano.

Ao se aproximarem de regiões como Indonésia e Malásia, muitos petroleiros desligam seus sistemas de rastreamento. Em seguida, transferem o petróleo para outra embarcação, que segue viagem sob outra bandeira e com nova documentação. Na maioria dos casos, o destino final é a China.

Esse sistema criou um mercado paralelo altamente lucrativo. Estimativas indicam que a operação clandestina pode render cerca de US$ 50 bilhões por ano, dinheiro que ajuda a financiar a Guarda Revolucionária do Irã, uma poderosa força militar e econômica ligada ao regime dos aiatolás.

A crise também beneficiou a Rússia. Com a alta dos preços provocada pela instabilidade no Oriente Médio, Moscou passou a arrecadar até US$ 150 milhões extras por dia em receitas de petróleo.

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Enquanto isso, autoridades ocidentais tentam conter o fenômeno. Nos últimos anos, alguns petroleiros foram interceptados e apreendidos no mar por transportar petróleo ilegal.

Mesmo assim, especialistas dizem que é quase impossível eliminar completamente essa rede. Claire Jungman, diretora de risco marítimo da empresa de dados de energia Vortexa, afirmou ao Financial Times que a frota paralela se tornou parte estrutural do mercado. 

“Enquanto houver barris que precisam ser transportados por canais não regulamentados, haverá operadores dispostos a assumir esse risco”, disse.

No fundo, o crescimento desses navios revela uma contradição do mercado global de energia. Governos tentam usar sanções para pressionar países como Irã e Rússia, mas o mundo continua dependente do petróleo que eles produzem.

Em momentos de crise, manter o fluxo de petróleo se torna prioridade, mesmo que isso signifique tolerar uma rede clandestina de petroleiros cruzando os oceanos.

[Por: Superinteressante]

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