Nós que guardamos o tempo

[Editada por: Marcelo Negreiros]

Esses instrumentos, que são grandes aliados do conhecimento histórico, são também parceiros de nossa nostalgia e saudosa lembrança. Afinal, quantos de nós gostaríamos de reviver o momento capturado numa fotografia ou vídeo, mais do que retornar ao local físico em si? Rubem Alves dizia que, se amamos um lugar, não devemos “fazer a besteira” de voltar, pois o que buscamos – o tempo, o momento vivido – já não está mais lá[1]. Por isso, tais registros tornam-se tão valiosos: eles nos permitem guardar, em papel, filme, onde quer que seja, fragmentos de um tempo que não volta mais; tempos de memória coletiva que estão sempre se refazendo a cada dia, e que poderiam nos escapar, não fosse o trabalho fundamental dos arquivos, museus e instituições de preservação histórica.

Enquanto assistia os vídeos da reabertura da Catedral de Notre-Dame em Paris no dia 7 de dezembro[2], depois de um incêndio devastador que encerrou suas atividades e visitações por mais de cinco anos, pensava muito sobre nossos símbolos históricos – o que temos de concreto para contar nossa história às futuras gerações? Enquanto Notre-Dame permaneceu fechada, calou-se um pouco a história da cidade de Paris, da França, Europa e, de certa forma, de todos nós. Da mesma maneira, cada vez que perdemos quaisquer de nossos importantes registros históricos, calamos nosso passado também. Foi assim com o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, que passou por episódio semelhante, sem, porém, desfecho igualmente positivo ao da Catedral: de um acervo de mais de 20 milhões de itens, quase tudo se perdeu.

Quando lidamos com arquivos e símbolos históricos, enfrentamos sempre o potencial de perdas irreparáveis. A passagem do tempo apenas intensifica o valor do trabalho de quem se dedica a essa missão – arquivistas, historiadores e gestores documentais que entendem que guardar o tempo é, também, preservar nossa identidade.

[Por: Estadão Conteúdo]

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