Nova análise de DNA indica que Santo Sudário pode ter origem na Índia

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O Sudário de Turim, também conhecido como Santo Sudário, é um dos objetos mais famosos – e controversos – da história do cristianismo. Trata-se de um grande pano de linho que, segundo alguns, teria envolvido o corpo de Jesus após a crucificação. 

Durante séculos, a relíquia foi venerada por fiéis e estudada por cientistas. Agora, um novo estudo genético acrescenta mais uma camada ao debate: análises preliminares de DNA sugerem que o tecido pode ter sido produzido na Índia antes de circular pelo Oriente Médio e, posteriormente, chegar à Europa.

A pesquisa foi publicada no servidor de pré-prints BioRxiv e ainda não passou por revisão de pares, ou seja, não foi avaliada por outros pesquisadores e publicada num periódico científico. Mesmo assim, os resultados reacenderam discussões sobre a origem e trajetória do tecido.

Hoje, ele é guardado na Catedral de São João Batista, na cidade italiana de Turim. O pano mede cerca de 4,4 metros de comprimento por 1,1 metro de largura e apresenta a imagem tênue de um homem visto de frente e de costas. A figura mostra marcas que lembram ferimentos associados à crucificação, além de manchas que muitos fiéis interpretam como sangue.

A primeira menção documentada ao objeto data de 1354, quando ele apareceu em Lirey, no norte da França. Desde então, tornou-se uma das relíquias religiosas mais estudadas do mundo. 

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A evidência científica mais citada nesse debate veio em 1989. Naquele ano, três laboratórios independentes analisaram amostras do tecido usando datação por radiocarbono. 

Os resultados apontaram que o linho foi produzido entre 1260 e 1390, período que coincide com a primeira aparição histórica do sudário na França. Para muitos especialistas, isso sugere que a peça é medieval, e não um tecido da época de Jesus.

Outras análises também reforçam essa hipótese. Alguns estudiosos argumentam que o tipo de tecido do sudário teria sido produzido em um tear de quatro eixos, tecnologia que só surgiu na Europa na Idade Média. 

Um estudo publicado por um pesquisador brasileiro no ano passado indicou ainda que a imagem humana pode ter sido criada pressionando o pano sobre uma escultura em baixo-relevo, em vez de envolver um corpo real.

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Agora, o novo trabalho acrescenta outra abordagem: o exame detalhado de DNA presente nas fibras do tecido.

Para isso, a equipe liderada pelo geneticista Gianni Barcaccia, da Universidade de Pádua, revisitou amostras coletadas em 1978 por pesquisadores que examinaram diretamente o sudário. 

Usando técnicas de análise genômica e metagenômica – capazes de identificar material genético de diferentes organismos misturados em uma mesma amostra –, os cientistas mapearam quais espécies deixaram vestígios no tecido. 

Origem indiana?

Foi identificado DNA humano de várias origens geográficas. Cerca de 55,6% das sequências analisadas estão ligadas a populações do chamado Oriente Próximo (região que inclui áreas como Israel, Palestina, Síria, Líbano e Chipre). Outras 38,7% parecem associadas a indivíduos com ascendência indiana, enquanto menos de 6% aparecem ligadas a europeus.

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Segundo os autores, a presença significativa de linhagens associadas à Índia levanta a hipótese de que o próprio linho possa ter sido produzido no subcontinente indiano.

A região tem uma longa tradição na produção e exportação de tecidos finos desde a Antiguidade, especialmente a partir do Vale do Indo. Esses materiais circulavam por amplas redes comerciais que conectavam o sul da Ásia ao Oriente Médio e ao Mediterrâneo, passando por rotas marítimas do oceano Índico e por caminhos terrestres que mais tarde seriam integrados às rotas da chamada Rota da Seda.

Os autores também mencionam um possível indício linguístico: “sudário” deriva do grego sindôn, que significa linho fino, termo que alguns pesquisadores relacionam à região de Sindh, no atual Paquistão, historicamente conhecida pela produção de tecidos. Isto, no entanto, é uma hipótese especulativa.

E não parou por aí. Além de DNA humano, os pesquisadores encontraram material genético de vários animais, como gatos, cães, galinhas, vacas, cabras, ovelhas, porcos, cavalos, veados e coelhos, além de vestígios de peixes, insetos e pequenos artrópodes.

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Também apareceram muitas espécies de plantas, incluindo cenouras, trigo, milho, tomates, pimentões, bananas e amendoins. Parte dessas culturas é tradicional da Europa e do Mediterrâneo, mas outras só chegaram ao continente após as grandes navegações, a partir do século 16.

A equipe também identificou microrganismos como fungos, bolores e arqueias halofílicas, que vivem em ambientes muito salinos, além de vestígios de coral vermelho do Mediterrâneo – possivelmente depositados no tecido quando ele entrou em contato com objetos religiosos, como rosários e crucifixos feitos desse material.

Muitos especialistas permanecem cautelosos em relação às novas conclusões. Um dos principais problemas é a enorme quantidade de contaminação acumulada ao longo dos séculos de exposição e manipulação.

Outros pesquisadores também questionam a interpretação dos dados genéticos. O paleogeneticista Anders Götherström, da Universidade de Estocolmo, disse à revista New Scientist que “ainda não vê motivos” para abandonar a hipótese mais aceita hoje, de que o sudário surgiu na França medieval.

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Além disso, alguns cientistas apontam que várias espécies vegetais encontradas no tecido chegaram à Europa apenas após o século 16. Isso indica que parte do DNA detectado foi depositada no pano muito tempo depois de sua fabricação.

Outro ponto levantado é a ausência de algumas plantas e animais que seriam esperados caso o sudário tivesse realmente permanecido por longos períodos no Levante, região onde viveram os primeiros cristãos. Espécies como oliveiras, romãs ou camelos, por exemplo, não foram identificadas nas análises.

Por enquanto, o estudo acrescenta novas pistas – e também novas dúvidas – sobre a história do Sudário de Turim.

[Por: Superinteressante]

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