As demissões voluntárias de empregos formais estão em forte alta, como abordado em recém-publicado artigo das economistas Janaína Feijó e Giovana Ferreira no Blog do IBRE. Segundo as autoras, “essa taxa de demissão voluntária é um indicador de pressão sobre o mercado de trabalho”.
De fato, a chamada “quit rate”, na qual se divide o número de trabalhadores que voluntariamente pediram demissão pelo número médio de trabalhadores no mesmo período (o resultado é multiplicado por 100) é um importante indicador de temperatura do mercado de trabalho nos Estados Unidos e em outros países.
As economistas do IBRE mostram que o número de desligamentos voluntários no Caged (registro dos empregos formais no Brasil) em abril, de 734.943, é o maior da série do indicador, iniciada em janeiro de 2020. Aliás, os quatro maiores valores da série correspondem aos meses do primeiro quadrimestre de 2024. Naturalmente, os 2.865.860 desligamentos voluntários nos quatro primeiros meses do ano também são o recorde da série, 14,7% a mais que o mesmo indicador em 2023, e 23% a mais que o de 2022.
O percentual de demissões voluntárias no total das demissões de janeiro a abril de 2024 também é recorde, com números na faixa de 35,6% a 36,5%. As pesquisadoras analisam o perfil educacional das pessoas que vêm pedindo demissão voluntária, e 80% delas têm pelo menos o Ensino Médio completo.
Segundo Feijó e Ferreira, “esse perfil educacional reforça o ponto de que trabalhadores mais qualificados podem estar se demitindo voluntariamente devido ao aparecimento de outras oportunidades mais vantajosas no mercado de trabalho”. Finalmente, 94% dos trabalhadores que pediram demissão voluntária em abril eram CLT, o que mostra que a grande maioria não se trata de temporários em busca de maior estabilidade.
O economista José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia do IBRE, observa que o crescimento das demissões voluntária é um aspecto a mais de uma conjuntura que, a seu ver, recomenda que o Banco Central (BC) interrompa a queda da Selic.
Ainda em relação ao mercado de trabalho, Senna nota que o rendimento médio real está crescendo a aproximadamente 4,5% ao ano, e a massa salarial real a cerca de 6,5%, sem aumento de produtividade que justifique esse ritmo puxado. Esses números compõem o hiato do produto positivo, e a pujança da demanda é confirmada pelos números do PIB divulgados ontem.
Mas, para além do mercado de trabalho, há vários fatores que indicam que a batalha contra a inflação (e também nos Estados Unidos) passa por um momento difícil. Desde o início do ano, há uma tendência modesta, porém significativa, de alta do título do Tesouro dos Estados Unidos de dez anos.
No Brasil, seja o juro prefixado, pós-fixado ou a inflação implícita entre os dois, a tendência também é de alta. O juro real hoje está no nível muito alto de 6,2%, de forma relativamente homogênea ao longo da curva de juros.
Outro problema é a desancoragem das expectativas inflacionárias, com a inflação mediana projetada no Focus para 2025 subindo para o máximo de 3,765% (muito acima da meta de 3%) na última coleta. A questão fiscal piorou, com a mudança de metas de primário, iniciativas de mais gastos tanto do Executivo quanto do Legislativo e a catástrofe climática do Rio Grande do Sul, que tragará largo e necessário volume de recursos públicos.
Senna frisa que, sem fazer nenhum juízo de valor, as incertezas sobre a sucessão no Banco Central (com a saída do presidente Roberto Campos Neto no final do ano) também tornam o quadro do combate inflacionário mais complexo.
E há, finalmente, ligada a quase todos esses fatores domésticos e internacionais, a pressão do câmbio, com a valorização do dólar e a depreciação do real.
Chama a atenção do analista que a demanda esteja tão robusta diante de condições financeiras apertadas, com destaque para o juro real de 6,2%. Parte da explicação deriva do impulsos fiscais, como o pagamento de precatórios e a enorme ampliação do Bolsa Família.
Voltando ao mercado de trabalho brasileiro, Senna aponta que seu desempenho surpreendentemente forte deriva de uma demanda também surpreendentemente forte, responsável pelos números vistosos do PIB, com destaque para o consumo das famílias.
Senna não tem dúvida de que os recordes de demissões voluntárias detalhados por Feijó e Ferreira são um sinal inequívoco de aquecimento do mercado de trabalho. Ele observa, inclusive, que, nos Estados Unidos, a quit rate, que subiu muito e é motivo de preocupação para a autoridade monetária, já começou a recuar.
Assim, parece que, pelo menos nesse quesito, a situação do combate inflacionário no Brasil está mais complicada do que nos EUA (mas há vários outros fatores, e a afirmação não pode ser estendida de forma geral).
Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)
Esta coluna foi publicada em 5/6/2024, quarta-feira.
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