Oposição não vai dar mole

É bastante evidente que Fernando Haddad vive a sua hora da verdade como ministro da Fazenda do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ambiente externo se tornou mais adverso e, com isso, a aposta inicial do Lula 3 de priorizar o risco político – isto é, expandir gastos – em detrimento do risco econômico se tornou mais perigosa. A disparada do dólar e a alta da curva de juros são as principais consequências nefastas do complicado quadro doméstico e externo.

Diante dessa conjuntura, já se fala em corte de gastos e, sobretudo, de desindexar da receita pública os gastos de saúde e educação e, quiçá, desatrelar o piso previdenciário do salário mínimo.

No último dos seus sempre bem argumentados artigos na Folha de São Paulo, o cientista político Celso Rocha de Barros pede algo como um “pacto de Moncloa”, o entendimento nacional da democratização espanhola na década de 70, para que Haddad e Lula possam conduzir uma pauta tão arriscada do ponto de vista da popularidade.

Com o perdão antecipado por talvez supersimplificar, o entendimento desta coluna sobre o artigo de Barros vai nas linhas a seguir. Os ricos e a Faria Lima cobram de Lula medidas como as citadas acima para atacar de forma decisiva o risco fiscal. O problema é que boa parte dessa cobrança vem de quem já está embarcado na candidatura de Tarcísio de Freitas (ou de outra eventual liderança de direita, muito provavelmente ligada ao bolsonarismo, que porventura se firme para 2026).

Como bolsonarista assumido, Tarcísio, mesmo que pessoal e  explicitamente não tenha defendido a ditadura, se coloca como parte do grupo que tentou um golpe de Estado.

Barros lança dúvidas sobre a conveniência de Lula abraçar a pauta da desindexação do gasto sem antes se certificar de que “pode falar com uma direita adulta, que consiga levar seus radicais na coleira (…)”. O cientista político aponta que “nem Tarcísio nem Caiado, para não falar da família Bolsonaro ou de Silas Malafaia, declararam apoio à desvinculação do piso da Previdência ou à revisão dos mínimos constitucionais”.

Dessa forma, segundo o colunista da Folha, o establishment brasileiro estaria pedindo a Lula algo a que o PT deveria responder assim: “ô bonitão, você está me pedindo para tomar as medidas mais impopulares do seu programa (que não estavam no meu) para te ajudar a ganhar a eleição sem mim, em aliança com uma rapaziada que quer me colocar no pau de arara”?

A coluna concorda com Barros no que diz respeito ao quão repulsivo e antidemocrático é o bolsonarismo, e em enxergar com extremo desgosto que políticos de direita como Tarcísio e Caiado se assumam como aliados e/ou seguidores do ex- presidente.

Mas há alguns problemas sérios no raciocínio de Barros. O primeiro deles é que as duas principais medidas de correção de rumo fiscal citadas acima estão ligadas a corrigir erros populistas que Lula 3 quis por bem cometer. Os gastos de saúde e educação já tinham sido desindexados da receita pública, e foi a introdução do novo arcabouço fiscal que reintroduziu esse atrelamento.

Na questão do piso previdenciário, foi Lula quem quis retornar a uma lei (pela primeira vez permanente) que obriga ao reajuste real do salário mínimo todos os anos – a exceção são aqueles em que, dois anos antes, o PIB tenha caído ou não tenha crescido.

Pedir à direita no Congresso que agora arque com o custo em impopularidade da desindexação do orçamento é mais ou menos como dizer “ô queridão, eu, como sempre, tomei minhas medidas populistas sem nem pensar nas consequências, mas será que agora você pode me ajudar a limpar o estrago para que eu consiga te derrotar de novo em 2026?”.

É natural que Lula e o PT sintam saudade da oposição tucana nos anos iniciais do primeiro mandato de Lula (pré-Mensalão e pré pautas bomba), em que o PSDB, por coerência programática, frequentemente dava muitos votos para as reformas liberais de Antônio Palocci. Infelizmente, o mundo real das democracias contemporâneas numa era de polarização não é assim. A tendência da direita – e muito mais da direita extrema – é de ir na jugular do Lula 3, numa era em que o que se considera que “é do jogo” está em perigosa expansão.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/6/2024, terça-feira.

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