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A autonomia alimentar é uma peculiaridade dos gatos que geralmente surpreende quem está acostumado com os cachorros.
Enquanto os cães precisam fazer refeições regulares pelo menos duas vezes ao dia, no caso dos gatos, basta deixar o potinho de ração cheio que os felinos vão controlando a própria fome – de pouquinho em pouquinho, em pequenas porções.
Essa alimentação fracionada tem uma origem evolutiva: os gatos domésticos de hoje (Felis catus) são uma espécie de felinos que descendeu dos antigos gatos-selvagens-africanos (Felis lybica), carnívoros estritos cuja dieta consistia em pequenas presas, como roedores ou passarinhos.
Esse tipo selvagem caçava e comia múltiplos lanchinhos ao longo do dia. E, mesmo após milhares de anos, esse padrão de pequenos lanchinhos se mantém na alimentação dos gatos domésticos até hoje.
Os mecanismos por trás disso, porém, ainda são pouco conhecidos. O que, afinal, faz esses animais perderem o interesse na comida tão rapidamente?
Por que gatos não deveriam sair para a rua sozinhos
Agora, novo estudo sugere que tudo depende do quão habituados os gatos estão com o cheiro da comida. Um grupo de pesquisadores da Universidade de Iwate, no Japão, realizou uma série de experimentos com 12 gatinhos domésticos procurando entender como o olfato desses animais poderia afetar o jeito que comiam.
O artigo publicado no final de março no Physiology & Behavior indica que os gatos domésticos abandonam a comida na medida em que se acostumam com seus aromas – e ficam interessados quando sentem um cheiro novo.
Ao longo de cada experimento, os pesquisadores forneceram comida para os gatos em seis ciclos consecutivos, com pausas entre si. No primeiro experimento, os gatos receberam o mesmo tipo de ração todas as vezes: os pesquisadores colocavam um pote cheio de comida na frente do gato, esperavam 10 minutos, e, depois, substituíam por um pote vazio – e assim sucessivamente, por seis ciclos.
Nesse caso, quando a comida era sempre a mesma, os gatos perdiam cada vez mais o interesse, e comiam menos a cada novo ciclo. Por outro lado, quando o prato mudava, o interesse ressurgia mais uma vez.
No teste seguinte, os cientistas experimentaram usar a mesma ração nos primeiros cinco ciclos, e trocar por outra no sexto. Resultado: o consumo diminuiu significativamente do primeiro ao quinto ciclo, mas, no último, eles mostravam-se interessados novamente. Quando as marcas de ração eram invertidas e apresentadas na mesma ordem, o efeito era o mesmo – ou seja, era algo independente do sabor. O que importou foi a novidade.
Restava ver, então, como que o olfato influenciava nisso. Em outro experimento, os cientistas armaram uma farsa: todos os potes de comida teriam a mesma ração, mas com cheiros diferentes. No final, a mera mudança no aroma foi suficiente para que os gatos voltassem a se interessar pelo alimento.
Efeito da monotonia
Para entender por que os gatos desenvolveram esse mecanismo, é necessário voltar no tempo.
Os ancestrais selvagens de nossos gatos atuais começaram a ser domesticados há mais ou menos 10 mil anos, quando os primeiros assentamentos urbanos começaram a aparecer no Oriente Médio. Ou, melhor dizendo, foi aí que os gatos se domesticaram.
Para os gatos-selvagens, as cidades que começavam a emergir durante o período neolítico eram um ambiente novo e muito vantajoso. Isso porque eles abrigavam diversas espécies de bichinhos, incluindo os camundongos. Ou seja, enquanto outros animais eram ativamente domados pelos humanos de acordo com características específicas que nos ajudavam em algumas tarefas, foram os gatos que decidiram se aproximar da gente para tirar vantagem dos ratinhos que moravam nas cidades.
Vale lembrar: as rações para gatos são algo relativamente recente, que só veio a se popularizar mais ou menos na metade do século passado. Até então, os gatos continuavam primariamente caçando. Ao mesmo tempo, a vida doméstica acabou alterando o sistema digestivo dos gatinhos, de forma que o cardápio deles se tornou mais limitado. Restavam ainda opções de comida, mas nem toda presa dava os nutrientes necessários para a sobrevivência, então os gatos começaram a focar na variedade da dieta.
Algo que se vê até hoje, principalmente entre gatos domésticos que vivem livres, é o chamado “efeito da monotonia”: quanto mais eles comem algum tipo de comida, mais “entediados” eles ficam em relação àquele prato. O resultado é que os gatos estão sempre procurando sabores novos e diferentes, o que também acaba ajudando na variedade nutricional.
Mas, veja bem: os gatos não têm como saber quais nutrientes específicos eles estão consumindo. Essa variedade se baseia principalmente em sentidos mais imediatos, como o paladar e o olfato. E, agora, o novo estudo feito pelos pesquisadores da Universidade de Iwate traz a primeira evidência experimental de que o olfato está ligado ao comportamento milenar dos gatos de comer pequenos lanchinhos.
[Por: Superinteressante]
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