Presos no DF leem Tolstói e Graciliano para reduzir pena; Bolsonaro e Torres aderem

Clássicos da literatura mundial e nacional são os preferidos entre os detentos do Distrito Federal que buscam a redução de pena por meio da leitura. O programa, que permite a diminuição de quatro dias de prisão a cada obra lida e resenhada, tem atraído um número crescente de participantes, incluindo figuras públicas como o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro Anderson Torres.

A busca por conhecimento e a oportunidade de diminuir o tempo de reclusão têm levado milhares de presos no Distrito Federal a mergulhar em obras literárias. Entre os autores mais procurados, destacam-se o russo Liev Tolstói, conhecido por “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”, e grandes nomes da literatura brasileira, como Graciliano Ramos, Jorge Amado e Clarice Lispector. O programa, que funciona com base na Lei de Execução Penal e regulamentação do Conselho Nacional de Justiça, permite que o detento reduza quatro dias de sua pena a cada livro lido e resenhado, com um limite de uma obra por mês.

Recentemente, o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça Anderson Torres, ambos condenados na trama golpista, aderiram à iniciativa. A participação deles no programa sublinha a abrangência e o alcance da proposta, que visa não apenas a remição de pena, mas também o incentivo à leitura e à reflexão.

Obras populares e temas relevantes no cenário prisional

Entre as obras mais lidas em 2025, um conto de Tolstói, “De Quanta Terra Precisa o Homem”, publicado em 1886, lidera a lista. A obra explora a ganância e a obsessão por posses, temas que ressoam em diferentes contextos. Em segundo lugar, “As Cores da Escravidão”, de Ieda de Oliveira, aborda o trabalho escravo no Brasil, inspirada em denúncias reais.

Clássicos brasileiros como “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, que retrata a dura realidade de retirantes sertanejos, e “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, sobre a vida de crianças em situação de rua em Salvador, também são muito apreciados. “Capitães da Areia” tem um histórico de polêmicas, tendo sido alvo de censura na ditadura do Estado Novo e, mais recentemente, de tentativas de proibição em escolas.

“A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, que narra a trajetória da nordestina Macabéa no Rio de Janeiro, completa o grupo de obras frequentemente escolhidas. A história, segundo a própria autora, é sobre “uma inocência pisada, de uma miséria anônima”.

Livros sobre democracia e antirracismo também são lidos

A lista de leituras permitidas para a redução de pena vai além dos clássicos. Obras como “Ainda Estou Aqui”, de Marcelo Rubens Paiva, e “Democracia”, de Philip Bunting, mostram o interesse dos detentos por temas políticos e sociais atuais. “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski, e “A Autobiografia de Martin Luther King”, de Martin Luther King, também integram o rol de livros disponíveis.

Outras leituras relevantes incluem “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, “O Sol É Para Todos”, de Harper Lee, “Pequeno Manual Antirracista”, de Djamila Ribeiro, e “1968: O Ano que Não Terminou”, de Zuenir Ventura, que discute a ditadura militar no Brasil. A diversidade de temas reflete um desejo de compreender o mundo e a própria realidade, ao mesmo tempo em que se busca a reintegração social através da educação.

Para que a redução de pena seja efetivada, os detentos precisam elaborar relatórios ou resenhas sobre as obras, que são avaliados por uma comissão da unidade prisional e homologados pela Justiça. O programa, além de oferecer uma alternativa para a diminuição do tempo de prisão, cumpre um papel fundamental na ressocialização e no acesso à cultura para a população carcerária.


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