A América de Trump busca replicar o sucesso da Venezuela no Irã, mas a realidade é outra.
Diferenças Fundamentais entre os Regimes
Donald Trump, após uma operação militar que resultou na captura de Nicolás Maduro na Venezuela, viu na ação um modelo de sucesso para lidar com nações consideradas problemáticas. A intenção de aplicar uma estratégia similar ao Irã foi declarada explicitamente, com o envio de uma armada naval para o Oriente Médio. No entanto, a situação no Irã apresenta desafios significativamente maiores e riscos mais elevados do que o cenário venezuelano.
A intervenção na Venezuela não gerou reação armada e não resultou em baixas americanas. A substituta de Maduro, Delcy Rodríguez, embora tenha criticado a ação, acabou por ceder em pontos cruciais, como a libertação de presos políticos e a aprovação de leis favoráveis ao setor de petróleo e gás, abrindo portas para investimentos estrangeiros e o afrouxamento de sanções. A influência cubana foi afastada, e a deportação de imigrantes venezuelanos dos EUA foi aceita. Tudo indica que houve um acordo interno para a deposição de Maduro, mantendo um certo status quo, sem uma transição para um sistema democrático genuíno.
A Resistência e a Ideologia Iraniana
O regime chavista na Venezuela é descrito como uma cleptocracia com uma base ideológica frágil e instituições mais ainda. O apoio militar era meramente utilitarista. Em contraste, as forças de segurança iranianas possuem raízes profundas na sociedade, com uma forte vinculação à ideologia da Revolução Iraniana, de caráter religioso e anti-Ocidental. O sistema iraniano foi construído para sobreviver a ameaças externas e divisões internas, tornando a cooptação de figuras-chave para um resultado previsível, como ocorreu na Venezuela, muito mais difícil.
Embora o Irã possa apresentar rachaduras institucionais, a exploração dessas fragilidades é complexa. A debilidade pós-Khamenei pode tornar o governo mais suscetível a pressões, mas há o risco de fragmentação do poder político, levando a um caos similar ao visto no Iraque e na Síria. A fragmentação no Irã seria perigosa, pois colocaria armas nas mãos de atores com agendas difusas e imprevisíveis.
O Poderio Militar e a Rede de Aliados do Irã
O poderio militar iraniano é incomparavelmente maior que o da Venezuela, potencializado pela sua geografia estratégica. O Estreito de Ormuz, por onde passa 20% das exportações globais de combustíveis fósseis, representa um ponto de vulnerabilidade. O Irã, mesmo sem fechar o estreito, pode torná-lo perigoso para petroleiros, elevando os preços do petróleo e do frete marítimo. Além disso, o Irã possui uma capacidade de retaliação que transcende seu arsenal bélico. Através de aliados como o Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen e milícias xiitas no Iraque e na Síria, o Irã pode incendiar o Oriente Médio.
A motivação religiosa é um fator crucial, ausente na Venezuela. O regime iraniano enxerga o confronto com os EUA e Israel como uma guerra santa. A morte de Khamenei foi definida pelo presidente iraniano como uma declaração de guerra contra os muçulmanos. Acuado, o Irã pode recorrer a atentados terroristas, seja diretamente ou estimulando grupos associados ou lobos solitários.
O Irã é historicamente um fator de instabilidade no Oriente Médio e de insegurança global. A opressão sobre seu próprio povo já justificaria a queda do regime. Contudo, o resultado de uma intervenção americana no Irã é incerto, pois, ao contrário da Venezuela, o país possui uma capacidade de resposta e uma complexidade que Trump pode não ter como prever completamente.
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