[Editado por: Marcelo Negreiros]
O escritor Gabriel Waldman, nascido em 1938 em Budapeste, compartilhou em entrevista ao programa Conversa com Augusto Nunes nesta terça-feira, 19, detalhes de sua infância marcada pela guerra, pela perseguição nazista durante o Holocausto e pela posterior opressão comunista.
Filho de judeus, perdeu o pai e toda a família paterna nos campos de extermínio. “Do lado do meu pai, todos foram assassinados”, relatou. Ainda criança, viveu escondido em prédios protegidos por embaixadas de países neutros, em Budapeste.
Waldman contou que a sobrevivência só foi possível graças a um salvo-conduto obtido pela mãe junto à representação suíça. “Um prédio onde cabiam 50, no máximo 60 pessoas, tinha 600 pessoas”, lembra. “Existia turno para dormir. Das oito às 11 horas, por exemplo, a primeira turma podia dormir. O resto ficava de pé.”
Ele descreveu também a escassez de água potável, contaminada pelos cadáveres que enchiam o rio Danúbio. “Em tempos extremados, não existem crianças, existem adultos prematuros”, lembra. “Eu era um desses adultos prematuros.”
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A vida depois do Holocausto
Depois da ocupação soviética, Waldman prosseguiu sua vida na Hungria por quatro anos. Segundo ele, o regime comunista impôs severas restrições, que atingiram até sua vida escolar. “Recebemos ordens do Partido Comunista, que filho de burguês não podia ter nota maior do que 5?, lembrou.
A decisão da mãe de fugir se consolidou diante da impossibilidade do acesso de judeus ao ensino superior. Ao tentar entrada em países de língua inglesa, seus pedidos foram recusados por falta de arrimo masculino. “O Brasil foi o único país que nos aceitou”, recordou. Ele e a mãe chegaram em 1951, durante o governo Getúlio Vargas.
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No Brasil, Waldman começou os estudos em inglês, mas logo teve de se adaptar ao português. Sem recursos, sua mãe trabalhou como vendedora até casar-se novamente, quando ele pôde experimentar estabilidade pela primeira vez. Aos 14 anos, compreendeu o significado de rotina.
A carreira acadêmica o levou à Fundação Getúlio Vargas, onde se formou em Administração de Empresas. Mais tarde, lecionou filosofia por influência de Vilém Flusser, pensador com quem mantinha contato frequente. Ainda assim, seguiu trajetória empresarial em grandes companhias, inclusive alemãs.
A filha do comandante
O episódio mais marcante de sua vida adulta foi narrado em Ingrid, a filha do comandante, livro em que conta o relacionamento com a filha de Franz Stangl, comandante do campo de extermínio de Treblinka. Sem saber do passado do futuro sogro, Waldman conviveu com ele em São Paulo, quando Stangl trabalhava na Volkswagen.
O choque veio anos depois, ao ver a fotografia de Stangl no jornal. “Embaixo, escrito: preso no Brasil, um dos maiores criminosos de guerras dos nazistas. Era o pai dela”. Stangl foi extraditado, condenado à prisão perpétua e morreu de infarto um ano depois.


Waldman disse que levou décadas para conseguir relatar o episódio. “Era um choque, uma mágoa, um ódio de mim mesmo”, lembra. “Não conseguia nem verbalizar tudo isso.” Incentivado por Celso Lafer, escreveu o livro durante a pandemia.
Atualmente, Waldman se dedica a palestras em escolas e instituições, convidado por entidades como o Memorial do Holocausto. Define sua atuação como forma de conscientizar novas gerações. “Considero isso uma espécie de vacinação numa época que o ódio novamente está levantando a cabeça”, afirma. “Vacinar jovens contra a discriminação.”
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[Oeste]
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