A ciência achava que este tubarão que vive por 400 anos era cego. Um novo estudo diz que não é bem assim.

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Com até seis metros de comprimento, peso superior a uma tonelada e uma vida que pode chegar a 400 anos, o tubarão-da-groenlândia (Somniosus microcephalus) é um dos maiores e mais longevos vertebrados conhecidos. 

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Habitante das águas geladas e profundas do Atlântico Norte e do Ártico, esse predador se alimenta de peixes, focas, aves marinhas e carniça – e, durante décadas, foi descrito como um animal que atravessa o oceano praticamente às cegas.

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Isso porque muitos desses animais carregam nos olhos pequenos crustáceos parasitas (Ommatokoita elongata) que se fixam à córnea, deixando o globo ocular opaco e, em alguns casos, visivelmente danificado. 

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Somado ao fato de viverem em ambientes extremamente escuros por praticamente toda vida, isso levou biólogos a acreditar que a visão teria pouca ou nenhuma importância para a espécie, que dependeria quase exclusivamente do olfato e da audição para sobreviver.

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É justamente isso que um novo estudo coloca em xeque. Publicado na revista Nature Communications, o trabalho mostra que, mesmo em indivíduos com mais de cem anos de idade, os olhos do tubarão-da-groenlândia continuam funcionais e sem sinais claros de degeneração da retina.

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O estudo foi liderado por Dorota Skowronska-Krawczyk, professora associada de fisiologia e biofísica da Universidade da Califórnia em Irvine, que pesquisa os mecanismos moleculares por trás do envelhecimento e de doenças oculares. 

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“Depois de assistir a muitos vídeos, percebi que esse animal estava movendo o globo ocular em direção à luz”, afirmou a pesquisadora em comunicado. “Do ponto de vista evolutivo, você não mantém um órgão que não precisa.”

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Para testar essa hipótese, a equipe analisou globos oculares de tubarões capturados entre 2020 e 2024 ao largo da Groenlândia, próximo à Estação Ártica da Universidade de Copenhague. Os animais tinham idades estimadas superiores a cem anos. 

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Os olhos foram dissecados, preservados e submetidos a análises detalhadas. O resultado surpreendeu: não havia sinais claros de morte celular nem de deterioração da retina, algo comum em vertebrados idosos, inclusive humanos.

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Além disso, os pesquisadores identificaram que a rodopsina, proteína essencial para a visão em baixa luminosidade, permanecia ativa. Ela estava ajustada para detectar principalmente luz azul, o tipo de luz que consegue penetrar com mais eficiência nas águas profundas e turvas do Ártico. 

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A descoberta chama atenção porque, em vertebrados, o envelhecimento costuma vir acompanhado de perdas graduais na visão, causadas pela morte de células da retina e pelo acúmulo de danos nos tecidos oculares.

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Em humanos, por exemplo, problemas como degeneração macular e glaucoma tendem a surgir justamente com o avanço da idade, à medida que essas estruturas vão se deteriorando. Para os autores, entender como esses animais mantêm os olhos saudáveis por tanto tempo pode oferecer pistas importantes sobre essas doenças e inspirar novas estratégias para retardar ou tratar esse tipo de dano

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“Poucas pessoas estão estudando tubarões, especialmente a visão deles”, afirmou Emily Tom, coautora do estudo, em nota. “Podemos aprender muito sobre visão e longevidade com espécies longevas como o tubarão-da-groenlândia.”

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Um genoma único

A ideia de que o envelhecimento desses tubarões não segue as mesmas regras observadas na maioria dos vertebrados não é nova. Em 2024, um consórcio internacional de cientistas da Alemanha, Itália, Dinamarca e Estados Unidos publicou um estudo preliminar com o sequenciamento completo do genoma da espécie, disponibilizado em um pré-print no repositório bioRxiv. O trabalho revelou um genoma gigantesco, com cerca de 6,5 bilhões de pares de bases, aproximadamente o dobro do genoma humano e o maior já sequenciado entre os tubarões.

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O tamanho, por si só, não explica muita coisa. Boa parte desse “livro de receitas” genético é composta por trechos repetidos, conhecidos como genes saltadores. Eles funcionam como elementos móveis, capazes de se copiar e se inserir em outras regiões do DNA, muitas vezes causando mutações e instabilidade genética. 

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No entanto, ao comparar o DNA do tubarão-da-groenlândia com o de outras espécies, os pesquisadores identificaram uma rede de 81 genes exclusivos da espécie, muitos deles associados ao reparo do DNA. A hipótese é que esses genes tenham evoluído justamente para lidar com a abundância de genes saltadores, neutralizando seus efeitos nocivos e reduzindo o acúmulo de danos genéticos ao longo do tempo.

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Nesse contexto, a preservação da retina observada no novo estudo sobre a visão ganha um significado mais amplo. Se o organismo dele é particularmente eficiente em reparar o DNA e manter a integridade dos tecidos, isso pode explicar por que estruturas delicadas, como os fotorreceptores da retina, permanecem funcionais após séculos de vida.

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O sequenciamento genômico também identificou a presença do gene TP53, conhecido por seu papel na supressão de tumores e no reparo do DNA. Esse mesmo gene já havia chamado atenção em elefantes, animais que também apresentam taxas surpreendentemente baixas de câncer. A presença do TP53 no tubarão-da-groenlândia reforça a ideia de que múltiplos mecanismos, atuando em conjunto, contribuem para sua longevidade extrema.

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