Poucos artistas conseguiram transitar com tanta fluidez entre o rock progressivo, o pop radiofônico e as trilhas sonoras memoráveis quanto Phil Collins. Baterista de formação, vocalista por vocação e compositor por excelência, ele se tornou um dos grandes nomes da música mundial nas últimas cinco décadas, consolidando uma carreira que ultrapassou as fronteiras do Genesis e alcançou um sucesso solo estrondoso.
Ao longo de sua trajetória, Collins se firmou como um dos maiores contadores de histórias em forma de canção. Sua música, marcada por emoções sinceras e arranjos poderosos, tocou gerações e moldou a sonoridade do pop e do soft rock a partir dos anos 1980.
Mas sua jornada vai muito além dos palcos e dos estúdios. Nos últimos anos, o músico enfrentou problemas de saúde sérios, que afetaram sua mobilidade e o afastaram da bateria — seu primeiro instrumento e símbolo de identidade artística. Ainda assim, mesmo diante das limitações físicas, Phil Collins encontrou maneiras de seguir próximo do público, seja através de turnês emocionantes com o Genesis ou de homenagens que celebram sua inestimável contribuição musical.
Nesta matéria especial, relembramos os principais momentos da carreira de Phil Collins, sua influência cultural e a força com que ele continua a inspirar fãs no mundo todo — não apenas como artista, mas como ser humano em busca de superação.
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A história de Phil Collins no Genesis começou discretamente em 1970, quando foi contratado inicialmente como baterista de estúdio. Na época, o grupo já era conhecido dentro do circuito do rock progressivo britânico, com uma sonoridade complexa e teatral, liderada pelo carismático vocalista Peter Gabriel.
Collins logo se destacou pela precisão técnica e criatividade rítmica, mas só assumiria os vocais principais após a saída de Gabriel, em 1975, durante a turnê do álbum The Lamb Lies Down on Broadway. A transição causou certa incerteza entre os fãs — e dentro da própria banda — mas foi o ponto de partida para uma nova fase do Genesis: mais direta, emocional e acessível.
O marco simbólico dessa nova fase veio com “Follow You Follow Me”, faixa do álbum ...And Then There Were Three... (1978). A canção, mais simples e romântica do que os trabalhos anteriores do grupo, dividiu opiniões na época, especialmente entre os fãs mais puristas. Ainda assim, tornou-se o primeiro grande sucesso comercial do Genesis, alcançando o Top 10 no Reino Unido e abrindo portas para novos públicos ao redor do mundo.
Em 1983, o Genesis lançaria o álbum homônimo Genesis, que trouxe a faixa “That’s All”, outro sucesso emblemático da era Phil Collins. Com melodia cativante e uma letra irônica sobre relacionamentos fracassados, a música conquistou as rádios dos Estados Unidos e do Reino Unido, firmando o grupo entre os nomes mais relevantes da década.
Essa transição para uma estética mais acessível trouxe ao Genesis críticas de fãs tradicionais, que viam na nova fase um afastamento das raízes progressivas da banda. No entanto, também garantiu uma longevidade comercial e uma base de ouvintes global.
Após firmar sua voz à frente do Genesis, Phil Collins iniciou uma carreira solo que rapidamente ultrapassou qualquer expectativa. Lançado em 1981, o álbum Face Value revelou ao mundo um artista capaz de canalizar dor pessoal e emoções profundas em músicas que tocariam milhões de ouvintes. A partir dali, Collins construiu uma sequência impressionante de hits internacionais, combinando apelo pop, identidade sonora marcante e videoclipes inesquecíveis.
Essas cinco faixas definiram a estética visual e narrativa de Phil Collins como artista solo. Seus videoclipes, sempre coerentes com as mensagens das canções, ajudaram a fixar sua imagem como um artista sensível, versátil e profundamente conectado com o público.
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No dia 13 de julho de 1985, Phil Collins protagonizou uma verdadeira jornada épica — e heróica — no histórico evento Live Aid. Ele começou com um set solo em Wembley, tocando clássicos como “In the Air Tonight” e “Against All Odds”, ao lado de Sting. Imediatamente após sua apresentação, embarcou em um helicóptero até o aeroporto, seguiu num Concorde cruzando o Atlântico e, ao desembarcar, tomou outro helicóptero para participar do show em Filadélfia no JFK Stadium.
Em Filadélfia, Collins foi músico de apoio em duas apresentações distintas: primeiro na bateria com Eric Clapton, e depois tocou bateria junto a Tony Thompson para a reunião relâmpago do Led Zeppelin, substituindo o legendário John Bonham.
Apesar de sua atitude profissional, a performance com o Led Zeppelin se transformou em um dos momentos mais comentados da noite — e não necessariamente pelos melhores motivos. Críticas comuns da época apontaram a ausência de ensaio suficiente, problemas técnicos e o vocal rouco de Robert Plant. O guitarrista Jimmy Page, anos depois, lamentaria o evento:
“Tivemos duas horas de ensaio, nem isso, e o baterista [Collins] simplesmente não conseguia acertar o começo de ‘Rock and Roll’… não foi muito esperto.”
Collins também compartilhou suas memórias, confessando ter considerado abandonar o palco:
“Não era necessário e me senti como uma peça de reposição… se eu pudesse ter saído, teria feito.”
Apesar das críticas, muitos fãs destacam o esforço sobre-humano do músico:
"Estamos falando de uma tarefa monumental... Aquele cara tocou bateria em três malditos sets e arrasou em cada música."
A performance, embora controversa, é emblemática de sua ética: ele enfrentou dois concertos em continentes distintos, apoiou grandes artistas e ainda se arriscou em um palco de alta pressão — mesmo sem ter ensaio. Esse episódio imortalizou Phil Collins não só como um músico de renome, mas como um verdadeiro herói da solidariedade e do compromisso.
O brilho de Phil Collins não se limitou às rádios ou à MTV. A partir dos anos 1990, ele expandiu sua atuação como compositor de trilhas sonoras, deixando sua marca especialmente em produções da Disney.
Seu maior êxito nesse campo veio com a canção “You’ll Be in My Heart”, composta para o filme Tarzan (1999). A música não só encantou públicos de todas as idades, como também rendeu a Collins os principais prêmios do cinema e da música:
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O sucesso da trilha sonora de Tarzan levou a Disney a convidá-lo para outras colaborações, como em Irmão Urso (Brother Bear), reforçando seu status como compositor sensível e eficaz em narrativas cinematográficas.
Além disso, Collins também atuou como ator em participações especiais, como no filme Buster (1988), no qual interpretou o papel principal e contribuiu com a trilha — incluindo a faixa “A Groovy Kind of Love”, outro de seus hits número 1.
Mesmo acostumado a dominar palcos ao redor do mundo, Phil Collins teve de enfrentar uma batalha ainda mais desafiadora fora deles. Nos últimos anos, o artista passou por uma série de complicações de saúde — incluindo problemas na coluna vertebral, deslocamento de vértebras cervicais e danos nos nervos das mãos — que afetaram diretamente sua capacidade de tocar bateria, seu instrumento de origem e paixão de toda a vida.
Com o agravamento da condição, Collins passou a se apresentar sentado, limitando seus movimentos, mas nunca perdendo o carisma. Seu filho, Nic Collins, assumiu as baquetas durante os shows, formando com o pai uma emocionante ponte geracional que tocou profundamente os fãs. Em entrevistas, Phil revelou que às vezes mal conseguia segurar uma baqueta — mas que fazia questão de seguir próximo ao público enquanto pudesse.
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Essa resiliência foi simbolizada na turnê de despedida do Genesis, encerrada em março de 2022. Ao lado dos colegas Tony Banks e Mike Rutherford (em destaque na imagem acima), Collins fez sua última apresentação em Londres, marcando um fim digno, emocionante e respeitoso para uma trajetória musical extraordinária. Ovacionado por milhares de fãs, o músico encerrou sua carreira nos palcos com dignidade, humildade e coragem.
Phil Collins é lembrado por milhões como um mestre da bateria e da emoção em forma de música — mas seu legado vai além dos palcos. Ao longo de décadas de sucesso, o artista também construiu uma família plural, marcada por diferentes talentos e trajetórias.
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Sua filha mais conhecida é a atriz Lily Collins (em destaque acima) que construiu carreira sólida no cinema e na televisão com destaque em produções como Emily in Paris. A relação entre os dois nem sempre foi simples, mas Lily já afirmou em entrevistas que admira profundamente a resiliência e a sensibilidade artística do pai — traços que também influenciaram sua formação como artista.
Entre os filhos que seguiram os passos musicais do pai está Nicholas Collins, baterista que emocionou o público ao assumir as baquetas na última turnê do Genesis, formando ao lado de Phil um elo familiar tocante nos palcos. Já o mais novo da família, Matthew Collins, escolheu outro caminho: o esporte. Aos 20 anos, atua como jogador de futebol no time austríaco WSG Tirol.
Em uma das aparições mais recentes de Phil Collins — registrada em maio de 2025, em uma publicação feita por Matthew —, o músico aparece ao lado do filho nas arquibancadas de um estádio.
Sorrindo, visivelmente mais frágil, mas com olhar sereno, ele celebra o sucesso do filho com discrição e ternura. A imagem viralizou entre fãs e imprensa como um retrato íntimo e silencioso do astro em seu papel mais humano: o de pai.
Com cinco filhos ao todo, frutos de diferentes relacionamentos, Collins vê sua herança artística reverberar não apenas nas plataformas de streaming ou em capas de álbuns, mas também nas escolhas e caminhos dos seus. Cada um à sua maneira, eles refletem um pouco da profundidade emocional, criatividade e força de vontade que sempre definiram Phil.
A música pode já não ser mais parte de sua rotina, mas o que ele deixou é imenso: um repertório eterno e uma história que continua — dentro e fora dos palcos.
Mesmo longe dos palcos, Phil Collins continua sendo uma figura presente na memória afetiva de milhões de fãs ao redor do mundo. No entanto, seus dias de estúdio e criação musical também parecem ter ficado para trás. Em uma entrevista à revista Mojo, o cantor falou abertamente sobre seu momento atual, revelando que o interesse por compor ou gravar novas canções já não faz mais parte de sua rotina.
“Às vezes penso que deveria entrar no estúdio e ver o que acontece, mas a verdade é que já não tenho mais essa fome criativa. Estou doente... muito doente”, declarou, em tom melancólico e sincero.
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O impacto físico causado por anos de turnês e performances intensas não afetou apenas sua capacidade de subir aos palcos, mas também abalou a relação íntima que sempre teve com seu ofício. No documentário "Phil Collins: Drummer", lançado em 2024 após os últimos shows do Genesis, o músico fez um dos depoimentos mais emocionantes de sua carreira.
“Ainda estou tentando assimilar tudo isso. Passei a vida inteira tocando bateria. De repente, não poder mais fazer isso é um choque. Se um dia eu acordar e conseguir segurar um par de baquetas, talvez tente novamente. Mas, honestamente, acho que já gastei minhas milhas aéreas.”
Essas palavras selam, com humanidade e dignidade, uma jornada heroica marcada por talento raro, autenticidade e resistência emocional. Mesmo no silêncio, Phil Collins permanece como um dos maiores nomes da música contemporânea — admirado, respeitado e eternamente lembrado por tudo o que construiu com sensibilidade e som.
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