Apesar do discurso de Lula, Brasil usa dólar em 95% das exportações

Antes mesmo da escalada da guerra comercial entre Brasil e Estados Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defende o uso de moedas locais no comércio entre países ou a criação de uma nova opção para, assim, diminuir a dependência global do dólar. Na prática, porém, o Brasil segue usando a moeda dos EUA na grande maioria de suas trocas comerciais, mesmo no governo Lula.

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Mesmo após o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciar em 9 de julho a imposição de uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras, Lula continuou defendendo que os Brics devem buscar alternativas ao dólar, seja por meio de uma nova moeda ou a preferência às moedas dos países envolvidos nas transações comerciais.

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Em 10 de julho, um dia após do anúncio do “tarifaço”, o petista afirmou que o bloco cansou de ser “subordinado ao Norte” e confirmou que o Brics cogita desenvolver uma moeda própria para “fazer comércio sem precisar usar o dólar”.

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“Queremos ter independência nas nossas políticas, queremos fazer comércio mais livre e as coisas estão acontecendo de forma maravilhosa”, disse Lula em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo.

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Tarifaço de Trump e reações no Brasil

  • Trump tem ameaçado o mundo com um tarifaço, desde o início do atual mandato. Recentemente, o republicano tem focado no Brics e no Brasil por causa das políticas multilaterais.
  • Em 9 de julho, o presidente dos EUA anunciou a taxação de 50% aos produtos brasileiros, a partir de 1º de agosto. Ele pediu o fim do que considera uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no Brasil.
  • Lula informou que a resposta brasileira à taxação será por meio da Lei de Reciprocidade Econômica, regulamentado por decreto que também criou o comitê presidido pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).
  • A esquerda tem atribuído a sobretaxa à atuação da família Bolsonaro, em especial do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), nos EUA. Por lá, o clã busca sanções contra o STF e o governo brasileiro.
  • Por outro lado, os apoiadores do ex-presidente alegam que as tarifas unilaterais de Trump foram direcionadas às ações do ministro Alexandre de Moraes nos processos contra Bolsonaro.
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Dólar é principal moeda usada pelo Brasil em seus negócios de importação e exportação

Apesar do interesse do presidente, a maior parte das exportações e importações brasileiras ainda é feita em dólar. Só em 2024, US$ 323,2 bilhões foram comercializados em exportações, enquanto US$ 211 bilhões foram usados nas importações.

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As informações fazem parte do levantamento sobre exportação e importação por moeda declarada, elaborado pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

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Nos últimos cinco anos, quase todas das exportações foram feitas em dólar (95,5%). Do lado das importações, as compras com a moeda norte-americana chegaram a 81,7% no mesmo período.

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Logo atrás do dólar, o euro se mostra como a segunda moeda mais utilizada na corrente de comércio brasileira, segundo dados da Secex. Conforme o levantamento, as importações (9,06%) em euro são maiores do que as exportações (2,71%).

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Confira a participação das moedas nas exportações brasileiras:

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  • Dólar: 95,48%
  • Euro: 2,71%
  • Real: 1,48%
  • Libra esterlina: 0,12%
  • Iene: 0,08%
  • Outras moedas: 0,13%
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Veja a variação no caso de importações brasileiras:

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  • Dólar: 81,69%
  • Euro: 9,06%
  • Real: 6,41%
  • Iene: 0,71%
  • Renminbi Chinês: 0,42%
  • Outras moedas: 1,71%
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Como o dólar se tornou a principal moeda do mundo?

Desde 1994, com a assinatura do Acordo de Bretton Woods, o dólar é usado como referência no comércio exterior, mesmo em operações que não envolvem os EUA. De lá para cá, a moeda se consolidou como o principal meio de precificação e reserva do mundo.

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O tratado foi firmado em um cenário pós Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de criar um sistema financeiro e monetário internacional estável e, assim, superar o cenário de instabilidade provocado pelo conflito.

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Para garantir a estabilidade da economia global, foram criados o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Além disso, o acordo definiu o dólar como moeda de referência e estabeleceu taxas de câmbio fixas entre as moedas.

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O que dizem os especialistas

O economista Robson Gonçalves, professor de MBAs da Fundação Getulio Vargas (FGV), não vê equívocos na declaração do presidente Lula de ampliar o uso de moedas alternativas ao dólar no comércio externo.

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De acordo com ele, o movimento é semelhante ao processo que levou à criação do euro, iniciado a partir de uma sinalização política dos países que integram a União Europeia e desenvolvido ao longo de duas décadas.

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“Não tem nada de errado com o fato de que, por enquanto, é só uma fala [de Lula]”, frisa. Para o economista, o Brasil e os países dos Brics estão em uma etapa de estudos e discursos sobre o tema, o que considera “natural”.

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Gonçalves acredita que a mais recente sanção comercial imposta pelos Estados Unidos às exportações brasileiras, encomendada pelo presidente Donald Trump, empurra o país “ainda mais na direção de buscar alternativas ao dólar”.

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“Se os Estados Unidos vão ser um destino menos importante para as nossas exportações, por que a gente vai continuar ancorando os contratos em dólar? O ingrediente de política externa que nos empurra nessa direção [desdolarização] foi acrescentado por esse absurdo dessa tarifa do Trump”, afirma ele.

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Apesar das intenções do governo brasileiro, Gonçalves pondera que tanto o Brasil quanto os Brics “não estão sendo agressivos” na condução dessa política de desdolarização, mas sim explorando possibilidades.

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Ele argumenta que triangular moedas com o dólar “impõe custos de transação desnecessários e um risco de flutuação cambial dos dois lados do contrato”. “Se passa a assinar contratos entre empresas de dois países na moeda desses dois países, a eficiência do contrato aumenta”, defende o professor, que diz que o dólar foi imposto na reunião de Bretton Woods.

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Em um cenário global mais multipolar, Gonçalves avalia que: “Continuar usando a moeda americana é ineficiente do ponto de vista econômico e injustificado do ponto de vista geopolítico. Qual é o argumento econômico para que o dólar não deixe de ser o padrão no mundo multipolar? Não existe”.

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Na avaliação de Jackson Campos, especialista em comércio exterior, a adoção de moedas locais no comércio internacional é tecnicamente possível, mas exige uma série de fatores para substituir o dólar como referência. Entre eles:

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  • Infraestrutura financeira adequada;
  • Mecanismos claros de compensação entre moedas; e
  • Confiança mútua entre os países envolvidos (até os respectivos bancos centrais).
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Campos diz que os principais desafios para a transição estão relacionados à volatilidade cambial, à falta de liquidez fora do país e à ausência de sistemas internacionais que garantam segurança e previsibilidade nas transações. “O mercado global ainda opera com forte preferência por moedas que oferecem menor risco e maior aceitação”, ressalta.

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Ainda assim, ele acredita que ampliar o uso do real nas transações internacionais poderia trazer benefícios à economia brasileira. Segundo Campos, isso poderia reduzir a exposição ao dólar, diminuir custo com hedge (no jargão do mercado financeiro, estratégia usada para compensar investimentos de risco), fortalecer a posição do país nas negociações comerciais, além de incentivar o desenvolvimento de uma estrutura financeira mais conectada com parceiros estratégicos.

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No caso de uma moeda comum no Mercosul, no entanto, Campos vê entraves significativos. Para ele, as diferenças fiscais e monetárias entre os países-membros do bloco tornam difícil uma integração mais profunda. “Por enquanto, parece mais uma pauta política do que um projeto com base técnica consolidada”, avalia.

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Fábio Pereira de Andrade, professor de relações internacionais e economia da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), acredita que o presidente Lula “levou muito a sério” a proposta de ter uma moeda alternativa ao dólar.

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“O presidente Lula parece que levou muito a sério, mais a sério do que outros membros do Brics, a proposta chinesa de ter uma moeda alternativa em relação ao dólar”, afirma ele, acrescentando que a China “flerta” com a ideia de se tornar a nova potência global.

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Para o professor, o governo brasileiro adotou uma posição de defesa do Sul Global. “Me parece, para tentar ser gentil, que o governo brasileiro entrou numa defesa do Sul Global. Isso é uma posição histórica do presidente Lula e do PT, que levou a sério demais a possibilidade de substituição pacífica de moedas”, diz.

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Apesar das dificuldades, Andrade considera que a transição para uma nova moeda de referência é “viável”, embora reconheça que o processo seria complexo. “A operacionalização da substituição do dólar por outra moeda é um processo que implicaria em substituição da hegemonia”, explica ele.

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Conforme Andrade, a postura brasileira envolve riscos. “O Brasil deu o famoso passo à frente pelo amigo [China] e está correndo risco de forma desnecessária”, conclui.

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[Metrópoles]Source link

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