A ideia de que um centro político mais forte e programático traria maior governabilidade ao Brasil é um argumento recorrente. A premissa sugere que um bloco central coeso atuaria como moderador, oferecendo previsibilidade e estabilidade em meio às polarizações.
No entanto, uma análise mais atenta da dinâmica política brasileira levanta questões cruciais sobre essa suposição. A verdadeira questão a ser debatida é se, de fato, partidos de centro com programas ideológicos definidos tornariam o governo eleito mais ou menos capaz de gerir o país.
No sistema presidencialista brasileiro, é praticamente inevitável que o partido do presidente não detenha maioria absoluta no Congresso. A governabilidade, portanto, depende da construção de coalizões amplas e, frequentemente, heterogêneas. Partidos de centro com propostas ideológicas rígidas e linhas vermelhas claras tornariam a formação e a manutenção dessas coalizões um desafio muito maior.
A necessidade de concessões significativas em termos de agenda para acomodar um centro programático poderia comprometer a coerência do programa vencedor e a capacidade decisória do Executivo. Assim, um centro mais ideológico poderia, na verdade, resultar em menos governabilidade, e não mais.
A distinção entre partidos no sistema multipartidário brasileiro reside menos em sua força intrínseca e mais em seu papel: protagonistas, que almejam a Presidência e precisam de identidades programáticas, e coadjuvantes, que focam na trajetória legislativa, maximizando bancadas e participando do governo.
Para os partidos coadjuvantes, investir em programas rígidos ou identidades ideológicas densas pode não ser a estratégia mais vantajosa. A flexibilidade, muitas vezes vista como oportunismo, é, na realidade, uma tática racional para garantir sobrevivência e influência em um cenário onde raramente lideram o Executivo.
A expectativa de que esses partidos se tornem espontaneamente forças programáticas ignora a lógica institucional que os molda. Apenas os partidos protagonistas possuem incentivos para uma maior programatização, pois organizam o debate ideológico. Os demais orbitam como satélites, negociando apoio em troca de acesso a recursos e poder decisório.
Uma análise institucional rigorosa sugere que o chamado Centrão não é um desvio, mas um resultado previsível dos incentivos do sistema. Reconhecer isso não significa negar os problemas que ele gera, mas sim entender que a busca por um centro ideológico e programático não é uma solução simples para dilemas complexos.
A estabilidade democrática, a coerência programática e a governabilidade dependem das regras do jogo que estruturam as escolhas dos partidos. Para um sistema político mais previsível e responsável, é fundamental analisar com mais pragmatismo os limites e os trade-offs do presidencialismo multipartidário brasileiro, indo além da idealização de um centro político que talvez nunca tenha existido como imaginamos.
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