Cientistas deram cocaína para peixes. Entenda por que – e o que aconteceu depois

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Olhos esbugalhados, pupilas dilatadas, movimentos agitados e uma feição distintamente paranoica. Em seres humanos, esses podem ser sinais de que alguém está sob o efeito da benzoilmetilecgonina – a cocaína.

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Mas em peixes… Bem, essas são apenas as características de um peixe normal, mesmo.

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O que acontece, então, quando um peixe usa cocaína? É uma pergunta que, acredite, é perfeitamente científica. Drogas ilegais e fármacos usados por humanos têm se infiltrado em organismos marinhos com uma frequência cada vez maior nos últimos anos, com efeitos ainda desconhecidos nesses ecossistemas.

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Tubarões no litoral do Rio de Janeiro já mostraram traços de cocaína e benzoilecgonina, um subproduto da metabolização da droga pelo fígado humano, dentro dos músculos e do fígado. Mais recentemente, cientistas comprovaram que as águas de São Vicente estavam contaminadas com as mesmas substâncias, além de cafeína, losartan (medicamento para pressão), carbamazepina (para epilepsia) e orfenadrina (um relaxante muscular).

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Essa é uma tendência mundial, e os efeitos da contaminação ainda são incertos. Via de regra, qualquer possível alteração no organismo de seres aquáticos tem grandes chances de ser prejudicial para o funcionamento de seus respectivos ecossistemas – e o primeiro sinal disso geralmente aparece no comportamento dos animais. Para entender os impactos disso, é necessário estudar o comportamento dos organismos expostos à cocaína.

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Como? Ora, basta drogar os peixes.

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Foi exatamente o que uma equipe de pesquisadores suecos fez para um novo estudo publicado na revista Current Biology. Pesquisas passadas já haviam observado o efeito da cocaína e da benzoilecgonina na função cerebral e no comportamento dos animais; mas, até agora, tudo tinha sido feito dentro de tanques de laboratórios. Dessa vez, os pesquisadores queriam entender como a presença dessas substâncias afetava o comportamento dos peixes na natureza.

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Não sem suas devidas precauções, é claro. Um estudo desses precisa de uma série de documentos e alvarás comprovando que, de fato, seria seguro e ético.

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O experimento, que foi aprovado pelo Conselho Sueco de Agricultura, foi conduzido dentro do lago Vättern, o maior da Suécia. Trata-se de um ambiente extenso e confinado, o que, além de facilitar o rastreamento dos peixes, também impediria que os contaminantes usados no estudo se espalhassem para outros sistemas hídricos.

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Foram selecionados 105 salmões-do-atlântico (uma espécie que já circula pelo Vättern) com dois anos de idade, nascidos em cativeiro. Com os animais anestesiados, os pesquisadores implantaram dispositivos de rastreamento dentro de cada um dos peixes.

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Além disso, 70 dos salmões também receberam implantes químicos de liberação lenta – metade contendo cocaína, metade, benzoilecgonina –, que injetariam doses diárias das substâncias nos peixes, equivalentes às concentrações que encontrariam na natureza. Os 35 restantes serviriam de grupo controle, e não receberam nada. Os salmões foram despejados no lago, e, por oito semanas, os pesquisadores monitoraram o movimento de cada um deles.

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Com isso, os cientistas descobriram que até debaixo da água a onda bate.

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Os peixes alterados não apenas nadavam mais rápido, como também iam mais longe – e o efeito era ainda maior para os que receberam a substância já metabolizada. Isto é, o grupo exposto à benzoilecgonina nadou, por semana, quase duas vezes mais longe em comparação aos peixes sóbrios, e se dispersaram por distâncias até 12 quilômetros maiores. Para o grupo da cocaína, esse aumento foi de pouco mais de 5 quilômetros.

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Os resultados preocupam os especialistas. Alterações no comportamento, como o aumento na dispersão, causados por contaminantes como a cocaína “podem causar efeitos em cascata que se estendem muito além do indivíduo”, escrevem os pesquisadores Marcus Michelangeli e Jack Brand no site The Conversation. “Pequenas mudanças na forma como os animais se deslocam, se alimentam ou respondem a ameaças podem se ampliar a ponto de influenciar a dinâmica de populações inteiras, as interações entre espécies e o funcionamento de ecossistemas completos.”

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Um dos achados mais relevantes do estudo é o efeito adicional que a benzoilecgonina teve em relação à cocaína pura. Esse metabólito, fruto da ação do fígado humano sobre a droga, é expelido pelo corpo dos usuários e vai parar direto no sistema de esgoto. As estações de tratamento de água, porém, não são propriamente equipadas para remover essa substância. De acordo com uma meta-análise global, a concentração média da benzoilecgonina nas águas superficiais (257 nanogramas por litro) é mais que o dobro da concentração da cocaína (105 nanogramas por litro).

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“Embora esses níveis sejam baixos, eles continuam sendo motivo de preocupação, porque os compostos atingem sistemas cerebrais compartilhados por muitos animais, o que significa que mesmo pequenas quantidades têm o potencial de afetar a vida selvagem”, escrevem os pesquisadores.

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