Uma faixa de areia localizada na praia do Futuro, em Fortaleza, cumpre um papel essencial para o funcionamento da internet no Brasil. É ali que estão ancorados 16 cabos submarinos de fibra óptica, responsáveis por quase 90% do tráfego internacional de dados que entra ou sai do país.
Apesar de termos cada vez mais redes móveis como o 5G e de utilizarmos serviços na nuvem diariamente, a base que sustenta a internet global continua sendo majoritariamente física — e cabeada. Grande parte desse sistema passa por debaixo d’água, por meio de cabos submarinos que conectam países e continentes.
De acordo com dados da TeleGeography, consultoria especializada em infraestrutura de telecomunicações, Fortaleza abriga o maior número de cabos submarinos da América Latina e ocupa a 17ª posição no ranking mundial, ficando atrás de cidades como Cingapura, que lidera a lista com 28 cabos.
“Fortaleza acolhe a grande maioria dos cabos submarinos que chegam ao Brasil e concentra perto de 90% do tráfego internacional que chega ou sai do país”, afirmou Antonio Moreiras, gerente de projetos e desenvolvimento do NIC.br, entidade que opera sob o Comitê Gestor da Internet no Brasil, à BBC News.
A localização geográfica é um dos principais fatores para essa concentração. A capital cearense está entre os pontos brasileiros mais próximos dos Estados Unidos, Europa e África. Além disso, a praia do Futuro oferece condições ideais, como leito oceânico estável, baixa movimentação de sedimentos e espaço disponível para infraestrutura.
Outro elemento que vem fortalecendo a posição de Fortaleza como hub tecnológico é a produção de energia renovável no Ceará, especialmente solar e eólica, o que atrai investimentos no setor de tecnologia e data centers.
Os cabos submarinos são, na prática, grandes rodovias digitais. Eles conectam data centers espalhados pelo mundo, que funcionam como verdadeiros “cérebros da internet”.
Quando um usuário acessa um conteúdo, os dados percorrem uma rede de servidores até chegar à residência, passando por cabos de fibra óptica e, só nos metros finais, pela rede sem fio — seja Wi-Fi ou 4G/5G. Se o conteúdo acessado não estiver armazenado em um data center no Brasil, ele percorre milhares de quilômetros via cabo submarino, atravessando oceanos em questão de milissegundos.
Dados da Enisa (Agência Europeia para a Segurança das Redes e da Informação), repassados pela Anatel à reportagem da BBC, indicam que 97% dos dados transmitidos entre continentes trafegam pelos cabos submarinos. Apenas 3% utilizam satélites, que servem principalmente para regiões remotas onde não há rede física.
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Esses cabos têm uma vida útil média de 25 anos, mas podem sofrer danos antes disso. Em áreas costeiras, os reparos podem ser feitos por mergulhadores. Já em grandes profundidades, o conserto exige robôs submarinos ou operações para trazer o cabo à superfície.
Nos últimos dois anos, ao menos 11 cabos foram danificados no Mar Báltico, sob suspeita de sabotagem durante a guerra entre Rússia e Ucrânia.
Se um dos cabos da praia do Futuro apresentasse defeito, usuários poderiam notar impacto, por exemplo, em serviços que dependem de servidores fora do Brasil, como uma possível lentidão na atualização de catálogos de filmes e séries.
No entanto, boa parte do tráfego interno brasileiro não seria afetada, já que entre 70% e 80% dos dados circulam dentro da própria infraestrutura nacional, segundo o NIC.br.
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