Esquisitice rimada

[Editada por: Marcelo Negreiros]

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O poeta Raimundo Correia tinha fobia das alturas. Não suportava olhar para baixo se estivesse no segundo andar. Tinha a sensação de encarar um precipício e se esquivava, temeroso.

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Exatamente no segundo andar da rua da Candelária, no Rio, morava seu amigo Filinto de Almeida e era em casa dele que Raimundo se hospedava quando vinha à capital, nos intervalos de sua vida de magistrado em Vassouras.

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Ao instalar o amigo no seu melhor quarto, Filinto disse: - “Estás aqui muito bem. De cá de cima, nem sequer suspeitamos que isto seja a ignóbil rua da Candelária”. E sabendo da vertigem das alturas, insistia: - “Vem ver aqui da varanda o panorama da baía. É estupendo. Não há outro igual!”.

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Raimundo se recusava:

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- “Obrigado. Aqui estou bem. Não quero perder a ilusão da beira-mar, ao constatar que estou longe dela...”

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Mas Filinto não desistia:

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- “Mas vem ao menos olhar a baía...”

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E Raimundo, no meio da sala, esticando o pescoço:

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- “Estou vendo perfeitamente!”.

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Ainda sugeriu a Filinto:

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- “Uma boa ideia: você pode fazer uma fortuna, alugando esta varanda aos suicidas. Isto é um precipício!”.

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O dono da casa era alguém bastante pragmático:

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- “O negócio quebraria. Só se suicida quem não tem dinheiro...”

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As esquisitices de Raimundo o faziam brigar com amigos íntimos, como Filinto de Almeida. Ficou sem falar com quem o recebia em casa, como verdadeiro familiar.

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Ao trazer para o Rio, para a distribuição, o seu livro “Versos e Versões”, Raimundo foi à rua do Ouvidor, visitar Valentim Magalhães. Viu ali Filinto de Almeida sentado à mesa de trabalho e não o cumprimentou.

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Quando voltou do encontro com Valentim, passa novamente pela mesa de Filinto e deixa um livro, em cuja folha de rosto escrevera: “Ao Filinto, o Raimundo”. Mas sem uma palavra. Foi preciso que Valentim Magalhães fizesse uma reconciliação, que foi bem-sucedida.

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Mas Raimundo, famoso pelo soneto “As Pombas”, com quelas conquistara a glória, mas também o infortúnio. A glória, porque é um dos mais belos sonetos escritos em língua portuguesa. Infortúnio, porque geraram a pecha de plagiário. A ideia central do poema fora surrupiada segundo alguns a Metastásio e a Teófilo Gautier, segundo outros. Raimundo sofria com essa alusão.

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Seja como for, “As Pombas” ganharam extrema popularidade. Onde quer que fosse, era apresentado como “Raimundo Correia, autor de “As Pombas”. Era uma constante abordagem e as pombas não o deixavam. Insistiam, constantes, teimosas, persistentes. Para ele, parecia que o acompanhavam ruflando as asas, sacudindo as penas, arrulhando... Na verdade, um inferno.

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Os companheiros da poesia o perturbavam ainda mais. Uma tarde, Afrânio Peixoto agrava a aflição do aflito, com a notícia – que fez questão de transmitir pessoalmente – de que no sertão baiano, corria uma velha quadra popular que era, sem tirar nem pôr, o resumo perfeito do soneto.

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- “Mas isso é possível?”, espantou-se Raimundo Correia.

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E Afrânio recitou:

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“No coração moram sonhos,

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Como as pombas nos pombais...

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Mas as pombas vão e vêm,

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Eles vão, não voltam mais”.

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Era evidente que a ideia do soneto estava nesses versos. Perfeita, íntegra, transparente. Raimundo Correia desolado, balbuciando:

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- “É estranho! Mas eu nunca ouvi tal quadra!”.

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Mas Afrânio, sorrindo, abraçou Raimundo num abraço afetuoso e confessou que fora ele quem resumira o soneto, na graça popular daquela redondilha. Não só ele, como também Medeiros e Albuquerque se dera à façanha: “As pombas partem; mas voltam/voltam, de tarde, aos pombais. As ilusões, quando soltam/ seu vôo, não voltam mais”.

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Por sinal que Medeiros não se limitou ao soneto “As Pombas”. Também sintetizou outra obra-prima de Raimundo Correia: “Mal Secreto”: “De muita gente que existe/E que julgamos ditosa/Toda a ventura consiste/ Em parecer venturosa”.

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Gente esquisita, mas talentosa, essa que escreve poesia...

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[Por: Estadão Conteúdo]Source link

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