Estreito de Ormuz: entenda o que é e por que o mundo teme seu fechamento

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O Estreito de Ormuz voltou ao centro da geopolítica nas últimas semanas, após ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã desencadearem uma nova escalada militar no Oriente Médio. 

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Em poucas semanas, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta passou a operar sob forte risco. Navios deixaram de atravessar a região, o fluxo de petróleo despencou e os preços da energia reagiram rapidamente. Embora não tenha havido um bloqueio total e formal, ele passou a funcionar como se estivesse fechado.

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Não é a primeira vez que isso acontece. Ao longo de décadas, o estreito tem sido pressionado, ameaçado e, em alguns momentos, parcialmente paralisado.

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Localizado entre o Irã, ao norte, e Omã e Emirados Árabes Unidos, ao sul, o Estreito de Ormuz é um corredor marítimo que liga o Golfo Pérsico ao oceano aberto. É por ali que passa a maior parte do petróleo exportado pelos países do Golfo. Na prática, trata-se de um ponto de passagem obrigatório para a energia que abastece boa parte do mundo.

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Mesmo não sendo largo, o estreito é profundo o suficiente para comportar os maiores navios petroleiros do mundo. Em seu ponto mais estreito, tem cerca de 33 quilômetros de largura, com canais de navegação ainda mais limitados. Isso significa que qualquer interrupção, mesmo localizada, pode afetar todo o tráfego.

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A dependência global é enorme. Em condições normais, algo entre 20% e 30% do petróleo consumido no planeta passa por ali diariamente, além de grandes volumes de gás natural liquefeito. Isso representa dezenas de milhões de barris por dia e centenas de bilhões de dólares por ano em comércio de energia. Países como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes dependem diretamente dessa rota para exportar petróleo.

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Embora as rotas marítimas sejam consideradas águas internacionais, parte delas cruza áreas sob controle territorial de Irã e Omã. Na prática, a posição geográfica dá ao Irã capacidade de influenciar o tráfego, seja por presença militar, seja pelo controle de ilhas estratégicas.

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Décadas de tensão

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A importância do estreito começou a ganhar dimensão global nos anos 1970, durante as crises do petróleo. Em 1973, países árabes exportadores reduziram a oferta como resposta ao apoio dos Estados Unidos a Israel na Guerra do Yom Kippur. O preço do petróleo quadruplicou em poucos meses e provocou recessão em várias economias. 

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Em 1979, a Revolução Iraniana derrubou a produção do país e gerou novo choque de oferta. Nessas duas crises, o estreito não foi fechado, mas ficou claro que qualquer instabilidade na região podia afetar o fornecimento global.

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Foi nos anos 1980 que o Estreito de Ormuz se transformou, de fato, em zona de guerra. Durante o conflito entre Irã e Iraque, que durou de 1980 a 1988, os dois países passaram a atacar navios petroleiros para enfraquecer economicamente o adversário. Esse período ficou conhecido como “guerra dos petroleiros”.

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Navios comerciais, inclusive de países que não participavam do conflito, foram atingidos por mísseis, minas navais e ataques aéreos. O objetivo era interromper ou encarecer o transporte de petróleo. Em resposta, os Estados Unidos passaram a escoltar petroleiros, especialmente do Kuwait, numa das maiores operações navais desde a Segunda Guerra Mundial.

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O estreito não chegou a ser totalmente bloqueado, mas tornou-se extremamente perigoso. Em 1988, a tensão atingiu um dos pontos mais críticos: forças americanas enfrentaram diretamente o Irã em um confronto naval e, no mesmo ano, um navio dos EUA derrubou por engano um avião comercial iraniano, matando 290 pessoas. O fluxo de petróleo continuou, mas sob constante ameaça.

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Depois desse período, consolidou-se um padrão que se repetiria nas décadas seguintes: o estreito permanece aberto, mas sob risco, com ameaças frequentes de fechamento em momentos de crise.

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Isso ficou evidente em 2011 e 2012, quando o Irã ameaçou bloquear a passagem em resposta a sanções impostas por Estados Unidos e União Europeia por causa de seu programa nuclear. As medidas incluíam restrições à venda de petróleo iraniano e ao sistema financeiro do país. 

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A ameaça não se concretizou, mas foi suficiente para elevar os preços. O barril do tipo Brent, principal referência global do petróleo, ultrapassou os US$ 100 e chegou a mais de US$ 120 em 2012.

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Em 2018, o cenário voltou a se repetir. O governo de Donald Trump retirou os Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã e retomou sanções. Autoridades iranianas responderam com novas ameaças de fechar o estreito. Mais uma vez, a medida não foi executada, mas gerou instabilidade no mercado e pressão sobre países exportadores.

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Entre 2019 e 2025, a tensão assumiu outra forma. Em vez de ameaças diretas de fechamento, houve uma série de incidentes no mar. Segundo acusações dos Estados Unidos, navios foram atacados com minas e drones. O Irã negou.

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Também houve apreensão de embarcações estrangeiras, incluindo petroleiros gregos em 2022 e um navio de carga em 2024. Esses episódios não interromperam o tráfego, mas aumentaram o custo e o risco do transporte.

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Esse histórico ajuda a entender o que acontece em 2026. Após ataques dos Estados Unidos e de Israel contra alvos iranianos no fim de fevereiro, o Irã respondeu com ações militares na região e anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz. Também ameaçou atacar embarcações que tentassem atravessar.

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Na prática, não houve um bloqueio físico total, mas o efeito foi semelhante. O número de navios despencou, com quedas que chegaram a mais de 90% no tráfego diário. Companhias de navegação passaram a evitar a rota, tanto pelo risco de ataques quanto pelo aumento no custo de seguros.

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Segundo o analista Arne Lohmann Rasmussen, da Global Risk Management, à CBS News, “você pode ser atacado, e não consegue seguro ou ele fica extremamente caro, então é preciso esperar até que a situação melhore”. Ou seja, mesmo sem um bloqueio formal, o estreito se torna intransitável para boa parte da frota global.

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Navios que ainda cruzam a região adotam rotas incomuns, muitas vezes próximos à costa iraniana, sob orientação local. Há registros de embarcações atingidas por mísseis, drones e outros ataques, além de vítimas entre tripulantes. O ambiente é descrito por analistas como uma zona de alto risco para a navegação comercial.

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Com menos petróleo chegando ao mercado, os preços sobem. Mesmo interrupções curtas já provocaram aumentos relevantes. Em momentos recentes do conflito, o barril chegou perto dos 100 dólares, pressionando combustíveis e cadeias produtivas em vários países.

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Apesar disso, o impacto hoje tende a ser mais limitado do que nas grandes crises do passado. A produção global é mais diversificada, com maior participação de países fora do Oriente Médio, como Estados Unidos e Canadá. Além disso, alguns exportadores construíram rotas alternativas, como oleodutos que levam petróleo até portos fora do Golfo Pérsico.

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Ainda assim, essas alternativas não conseguem substituir totalmente o volume que passa por Ormuz. Um bloqueio completo poderia retirar milhões de barris por dia do mercado, com potencial de desencadear uma crise global.

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