Na madrugada do último sábado (3), enquanto relatos de explosões começavam a circular em Caracas, na Venezuela, outro tipo de movimentação chamava atenção a milhares de quilômetros dali, nos arredores do Pentágono, na Virgínia (EUA).
Pizzarias próximas ao complexo militar norte-americano registraram um aumento repentino no fluxo de clientes, segundo dados públicos do Google Maps. Horas depois, os Estados Unidos confirmariam uma operação militar em território venezuelano que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro.
Para usuários atentos nas redes sociais, a coincidência parecia familiar: seria mais um caso do chamado “índice de pizza do Pentágono”.
A teoria, popularizada como Pentagon Pizza Index, circula há décadas e parte de uma dedução simples. Em momentos que antecedem crises internacionais ou decisões militares importantes, equipes do Departamento de Defesa e de agências de inteligência costumariam trabalhar até tarde da noite, sem tempo para sair do posto.
O efeito colateral seria um aumento fora do comum nos pedidos de comida rápida, especialmente pizza, em áreas próximas a prédios estratégicos do governo americano.
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No episódio envolvendo a Venezuela, quem apontou o padrão foi o perfil @PenPizzaReport, criado em 2024 para monitorar automaticamente sinais públicos de atividade em pizzarias da região em torno do Pentágono.
Pouco depois da 1h da manhã, o perfil indicou uma queda no movimento de bares e, quase simultaneamente, um salto no número de pessoas detectadas em pizzarias abertas até tarde, como uma unidade da Papa John’s e a Pizzato Pizza.
Por volta das 2h, o movimento atingiu um pico e permaneceu elevado por cerca de uma hora e meia. A confirmação oficial da operação militar só viria mais tarde.
All of the closest pizzerias to the Pentagon are reporting above average traffic.
Freddies Beach Bar, the closest gay bar to the Pentagon, is reporting very low traffic compared to usual.
As of 7:07pm ET pic.twitter.com/5gvzkSyhVA
— Pentagon Pizza Report (@PenPizzaReport) January 4, 2026
O método do perfil não envolve acesso a pedidos ou entregas. Ele se baseia apenas nos gráficos de “horários populares” do Google Maps, que estimam a movimentação em estabelecimentos a partir de dados anônimos de localização de celulares.
Ainda assim, o @PenPizzaReport acumula centenas de milhares de seguidores e é acompanhado por jornalistas, analistas de dados abertos e curiosos em geral.
A associação entre pizza e decisões militares, no entanto, é bem mais antiga que o Google Maps. Em 1990, Frank Meeks, franqueado da Domino’s na região de Washington, contou à imprensa que a sede da CIA havia feito um pedido recorde de 21 pizzas na noite de 1º de agosto. Na manhã seguinte, o Iraque invadiu o Kuwait, dando início à Guerra do Golfo.
Meeks afirmou ter observado padrões semelhantes antes da invasão americana a Granada, em 1983, e da operação militar no Panamá, em 1989. Anos depois, durante o impeachment de Bill Clinton e os preparativos para ataques ao Iraque, entregas de pizza à Casa Branca e ao Congresso também teriam batido recordes.
Esses relatos ajudaram a consolidar a lenda. A observação nunca foi tratada como método sério de inteligência, mas se tornou uma anedota recorrente nos bastidores de Washington. À época, o então correspondente da CNN no Pentágono, Wolf Blitzer, chegou a dizer que, para jornalistas, valeria a pena “ficar de olho nas pizzas”.
Com o tempo, a teoria ganhou novas camadas. Alguns observadores passaram a notar também o efeito inverso: bares e locais de lazer em Washington ficariam anormalmente vazios em noites de trabalho intenso no governo.
Mais recentemente, o índice passou a ser associado a eventos fora do eixo americano, como ataques envolvendo Israel e Irã, novamente a partir de picos de atividade detectados em pizzarias próximas ao Pentágono.
Especialistas, porém, veem tudo isso com cautela. Não há qualquer reconhecimento oficial de que pedidos de pizza sejam um indicador confiável de ações militares. O principal problema é o viés de confirmação: episódios em que a coincidência “funciona” são lembrados e compartilhados, enquanto as inúmeras noites de muita pizza e nenhuma crise internacional simplesmente desaparecem do radar.
Há também mudanças práticas que enfraquecem a teoria. Diferentemente das décadas de 1980 e 1990, o Pentágono hoje abriga uma série de opções internas de alimentação, a maioria funcionando em horário comercial. À noite, as alternativas se reduzem, e as regras de segurança tornam entregas externas complexas.
Segundo a própria administração do complexo, alimentos entregues precisam passar por inspeções rigorosas, e itens perecíveis não entram diretamente no prédio.
O Departamento de Defesa dos EUA já afirmou que o índice não é confiável e que picos de atividade em restaurantes não indicam, por si só, decisões estratégicas iminentes. Pesquisadores em segurança internacional reforçam que, sem uma base de dados ampla e sistemática, a teoria permanece no campo da curiosidade, não da análise.
Ainda assim, o Pentagon Pizza Index continua a atrair atenção. Parte do fascínio está no contraste entre algo banal, como uma caixa de pizza, e decisões que podem redefinir o cenário geopolítico global. Outra parte vem do espírito da internet, que transforma sinais cotidianos em pistas interpretáveis em tempo real.
No caso recente envolvendo a Venezuela, a sequência de gráficos, postagens e horários acabou se encaixando quase perfeitamente na cronologia do ataque, reforçando a sensação de que “algo estava no ar” antes do anúncio oficial.
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[Por: Superinteressante]Source link
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