JK: quais são as suspeitas que persistem sobre a morte do presidente

A morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek pode ser alvo de nova investigação federal, desta vez por parte da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP). Apesar de transcorridos quase 50 anos, desde o falecimento do líder que idealizou e promoveu a construção de Brasília, o episódio ainda é alvo de suspeitas e divergências sobre suas causas.

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A CEMDP, que é vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), decidirá em maio se desenvolverá ou não nova investigação sobre o caso. Desde 22 de agosto de 1976, quando JK morreu em decorrência de um acidente de carro, ao lado do motorista Geraldo Ribeiro, vários inquéritos apuraram as circunstâncias do acidente.

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O parecer mais recente sobre a morte de JK foi dado pelo Ministério Público Federal (MPF) em 2019. Após uma tentativa de revisitar a investigação utilizando técnicas e recursos atuais, os procuradores decidiram arquivar o inquérito alegando que a má conservação das provas inviabilizava uma conclusão exata sobre as causas do acidente. A mesma apuração apontou falhas cruciais nos laudos técnicos feitos à época do ocorrido, sugerindo uma possível condução ou interferência na investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro.

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O Metrópoles revisitou inquéritos, laudos, decisões judiciais, relatórios de diferentes comissões da verdade, fotos e arquivos das últimas décadas, todos relacionados ao caso, e resume aqui os argumentos que sustentam a possibilidade de atentado político para a morte de JK.

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Perseguido pela ditadura: direitos políticos cassados

Juscelino Kubitschek era um dos políticos mais populares do Brasil, à época do golpe militar. Depois de exercer a presidência entre 1956 e 1961, quando construiu e inaugurou Brasília como a nova capital federal, ele seguiu na carreira política, sendo eleito senador por Goiás. Com o golpe de Estado, no entanto, se tornou alvo imediato dos militares.

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O então presidente do país em 1964 e que foi deposto do cargo, João Goulart, o Jango, havia sido vice-presidente nos anos em que JK esteve à frente do país. O grupo político dele representava, portanto, o oposto aos interesses do regime. Com o golpe, JK perdeu o mandato de senador e teve os direitos políticos cassados por 10 anos.

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Articulação da Frente Ampla contra o regime

JK se auto-exilou em Lisboa, nos anos iniciais da ditadura. De lá, ao lado de João Goulart e do ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda, o ex-presidente articulou a formação da Frente Ampla, grupo de oposição ao regime militar e que, apesar dos riscos e perseguições, mantinha o objetivo de restabelecer a democracia no Brasil.

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Em 1974, completados 10 anos da cassação de seus direitos políticos, JK voltou ao Brasil e passou a agir de forma mais articulada. Isso teria elevado a preocupação dos militares em relação à atuação política do ex-presidente. O plano de Juscelino, conforme o exposto em relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), era se candidatar à presidência, em eleição indireta, em 1978.

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Carta expôs “plano” entre militar chileno e Figueiredo

Em 28 de agosto de 1975, um ano antes da morte de JK, o coronel chileno Manuel Contreras Sepúlveda, diretor do Serviço de Inteligência do Chile, país que também estava sob regime militar, enviou uma carta ao general brasileiro João Baptista de Figueiredo, então chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI). O documento falava sobre um “plano” contra opositores.

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No texto, o militar chileno expressou preocupação sobre a possível vitória do Partido Democrata, nos Estados Unidos, pois isso ampliaria a chance de apoio do país a líderes opositores dos regimes militares no Cone Sul. Contreras citou, nominalmente, Juscelino Kubitschek, como ameaça no Brasil, e Orlando Letelier, ex-ministro das Relações Exteriores do Chile e líder democrata contra o regime ditatorial do país.

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O militar informou, ainda, apoio ao “plano proposto” por Figueiredo para coordenar ações contra autoridades e políticos socialdemocratas da América Latina e Europa. “O plano proposto por você para coordenar nossa ação contra certas autoridades eclesiásticas e conhecidos políticos socialdemocratas e democratas cristãos da América Latina e Europa conta com nosso decidido apoio”, informou Contreras.

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Notícia falsa da morte de JK 15 dias antes

Duas semanas antes da morte de JK, no dia 7 de agosto de 1976, circulou em alguns dos principais jornais do país a notícia falsa de que o ex-presidente havia morrido em um acidente de carro na estrada entre o Rio de Janeiro e São Paulo. A informação foi desmentida no dia seguinte pelo Fantástico, da TV Globo. Juscelino, na verdade, estava em sua fazenda em Luziânia (GO), no Entorno do Distrito Federal.

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A divulgação falsa chamou a atenção por alguns motivos: primeiro, porque já era de conhecimento, inclusive do próprio JK, o monitoramento dele feito pelo regime militar; segundo, pelos detalhes “antecipados” e similares ao que ocorreria 15 dias depois. O ex-presidente morreu em 22 de agosto de 1976, numa batida de carro na rodovia Presidente Dutra, entre São Paulo e o Rio de Janeiro.

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Para o assessor e um dos “braços direitos” de JK à época do acidente, Serafim Melo Jardim, o boato foi um “teste psicossocial” para avaliar como o país reagiria à morte de JK.

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“Sou um vivo morto”, dizia JK

Serafim, que  hoje tem 90 anos e preside o Museu Casa de Juscelino em Diamantina (MG), relatou ao Metrópoles como foi o dia em que a notícia falsa sobre a morte de JK circulou na imprensa. “Recebi um telefonema de um colunista mineiro, que era muito ligado ao presidente, querendo saber se eu tinha notícias sobre JK. Ele, então, me disse que havia acabado de receber a informação sobre a morte da Folha de São Paulo”, conta.

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Ao saber sobre o boato que circulava na mídia, Serafim ligou, imediatamente, para um filho dele que vivia em Brasília, na época, e pediu que fosse até a fazenda de JK, em Luziânia, para saber se algo havia ocorrido. “Lá pelas 20 horas, ele me ligou de volta dizendo que o presidente estava bem e tranquilo”, lembra.

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Juscelino brincava sempre, entre as pessoas mais próximas, que era um “vivo morto”. Na mesma noite do boato do acidente, morreu um amigo do ex-presidente em Minas Gerais, o que fez com que ele se deslocasse de avião, no dia seguinte, até a capital Belo Horizonte para ir ao velório. JK telefonou para Serafim, pedindo que ele o buscasse no Aeroporto da Pampulha.

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“Perguntei a ele sobre o susto [boato sobre a morte] do dia anterior e ele me respondeu: “Estão querendo me matar, mas ainda não conseguiram”. Ouvi essa frase dele umas duas, três vezes, antes de ele morrer de fato”, conta o ex-assessor do presidente.

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Parada em hotel fazenda de militar em Resende (RJ)

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A batida de carro que tirou a vida de JK ocorreu por volta das 18h de 22 de agosto de 1976, no quilômetro 164,8 (atual km 328) da Rodovia Presidente Dutra, no perímetro de Resende (RJ), cidade-sede da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). O motorista dele, Geraldo Ribeiro, o pegou no km 2 da rodovia, ainda em São Paulo, conforme o combinado, para levá-lo até o Rio de Janeiro.

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Geraldo conduzia um Opala, ano 1970, que havia sido dado de presente a ele por JK, em comemoração aos 30 anos de amizade entre os dois. O motorista dirigia para o ex-presidente havia 36 anos. Um dia antes da viagem, Juscelino disse a pessoas próximas, em São Paulo, que precisava ir até o Rio de Janeiro para um “encontro importante”, sem especificar com quem ou do que se tratava.

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No trajeto, depois de 2h30 de viagem, JK e Geraldo passaram no Hotel Fazenda Villa Forte, que fica próximo à rodovia, em Resende. O dono do local era um militar, o brigadeiro Newton Villa Forte. Segundo depoimento do filho de Villa-Forte, Gabriel, que estava presente naquela tarde de domingo, o hotel estava vazio, sem nenhum hóspede no período em que o ex-presidente permaneceu por lá. Foram cerca de 90 minutos, depois JK e o motorista seguiram viagem.

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Motorista notou algo diferente no carro antes de sair

Antes de deixar o hotel, o motorista de JK teria notado algo estranho no carro. Conforme apuração do jornalista Carlos Heitor Cony, então repórter da revista Manchete, o guardador de veículos do local relatou que, ao pegar o volante, Geraldo Ribeiro teria estranhado as condições do veículo e perguntado se alguém havia mexido no carro. O guardador respondeu dizendo que não havia visto nada de errado.

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Geraldo e JK, que sempre ia no banco de trás, prosseguiram com a viagem e retomaram o trajeto pela Presidente Dutra. Menos de três quilômetros e meio depois, o Opala colidiu com um caminhão e os dois morreram. O carro, em aparente descontrole, seguiu reto numa curva à direita, cruzou o canteiro central e invadiu a pista oposta.

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Em 2019, em inquérito civil público do Ministério Público Federal (MPF), o perito e engenheiro especialista em acidente de trânsito Sergio Ejzenberg apresentou em vídeo a dinâmica do acidente, após avaliar laudos e fotos da época, para refazer cálculos e rechaçar por completo a tese de que o Opala teria colidido lateralmente com um ônibus em alta velocidade antes de perder o controle.

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A batida teria ocorrido da seguinte forma:

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Democrata chileno morreu um mês depois

Um mês após a morte de Juscelino Kubitschek, morreu o democrata chileno Orlando Letelier, o mesmo que foi mencionado ao lado de JK na carta enviada pelo chefe da Inteligência do Chile, coronel Manuel Contreras, ao general brasileiro João Baptista Figueiredo, em 1975. Letelier foi assassinado em 21 de setembro de 1976 em Washington, nos EUA, quando uma bomba explodiu dentro do carro que ele conduzia.

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Aliados da Frente Ampla morreram em sequência

Nos meses seguintes, morreram outros dois opositores ao regime militar no Brasil e que também integravam a Frente Ampla, da qual JK fazia parte. Em 6 de dezembro de 1976, morreu João Goulart, o Jango. Ele faleceu, supostamente, em decorrência de um ataque cardíaco. Em 21 de maio de 1977, foi a vez de Carlos Lacerda, também de suposto infarto no miocárdio.  Eventos cardíacos dessa natureza podem ser desencadeados por envenenamentos.

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Em um período de nove meses, portanto, morreram os principais líderes de oposição à ditadura. Em todos os casos, houve suspeita de atentados, mas essa hipótese nunca foi comprovada, tampouco rendeu condenação a alguém. No caso de Letelier, do Chile, o coronel Contreras, “amigo pessoal” de Figueiredo, como ele mesmo disse em depoimento, foi condenado à prisão em 1993.

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Já o general brasileiro, quinto do período militar, foi escolhido por seus pares como presidente do país em 1978.

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Publicação dos EUA denunciou Operação Condor

A carta de Contreras a Figueiredo veio à tona em agosto de 1979. O jornalista Jack Anderson revelou no jornal The Washington Post, dos Estados Unidos, a chamada Operação Condor, articulação transnacional de regimes militares da América do Sul, com apoio da CIA (Agência de Inteligência norte-americana) e cujo objetivo seria eliminar opositores.

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Anderson obteve a carta e confirmou a autenticidade do documento. Conforme o apurado por ele, líderes como JK e Letelier eram vistos como “ameaças à estabilidade” dos regimes militares. Contreras foi ouvido na prisão em 2 de junho de 2015, no âmbito do inquérito instaurado pelo MPF. Ele confirmou a autoria da carta, mas não detalhou o contexto ou a finalidade, alegando não se recordar. Ele morreu meses depois, em agosto, no Hospital Militar de Santiago.

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No depoimento, o militar chileno se disse “amigo” pessoal de Figueiredo, mencionou o interesse do general brasileiro em assumir a presidência do Brasil, mas não reconheceu a relação entre as mortes de JK e Letelier. “Nunca havia pensado nisso”, disse.

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[Metrópoles]Source link

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