A história do clipe de Michael Jackson gravado no Brasil começa muito antes das câmeras ligarem no Pelourinho, em Salvador. Ela nasce de um contexto artístico, político e pessoal específico, no momento em que o cantor decidiu usar sua música de forma ainda mais direta como instrumento de denúncia social.
Crédito da imagem: Capa do álbum HIStory: Past, Present and Future, Book I / Epic Records / Sony Music
“They Don’t Care About Us” foi composta por Michael Jackson no início dos anos 1990 e lançada em 1995 no álbum HIStory: Past, Present and Future, Book I. A canção surgiu como uma resposta direta às experiências de perseguição midiática, acusações públicas e à percepção do artista sobre desigualdade, racismo, violência institucional e exclusão social ao redor do mundo.
Desde o início, Michael pensou a música como algo maior do que um single. Ela precisava de imagens fortes, reais, que conectassem o discurso da letra a lugares onde as tensões sociais fossem visíveis e incontornáveis. Para isso, ele recorreu novamente ao cineasta Spike Lee, parceiro criativo com quem já havia trabalhado em outros projetos audiovisuais.
Crédito da imagem: Getty Images
A ideia central do clipe era simples e poderosa: mostrar comunidades historicamente marginalizadas como protagonistas, não como cenário. O Brasil surgiu naturalmente nesse processo. Para Michael Jackson e Spike Lee, o país reunia contradições profundas — riqueza cultural, desigualdade social, herança da escravidão e uma população negra vibrante e ativa culturalmente.
Salvador, com sua história afro-brasileira e musical, tornou-se o ponto focal do projeto. A presença do Olodum não foi decorativa: o grupo simbolizava resistência cultural, identidade negra e ocupação do espaço público por meio da música.
Michael Jackson desembarcou no Brasil em 9 fevereiro de 1996, e sua chegada gerou uma comoção imediata. A imprensa local e internacional passou a acompanhar cada movimento do artista, com helicópteros, transmissões ao vivo e cobertura intensa dos principais jornais e emissoras de TV.
No Pelourinho, o clima era de expectativa absoluta. Moradores lotaram sacadas, ruas e ladeiras para acompanhar as gravações. Diferentemente de grandes produções isoladas do público, Michael fez questão de estar no meio das pessoas, dançando, cantando e interagindo com crianças e músicos locais.
As cenas no Pelourinho foram registradas com Michael Jackson cercado por integrantes do Olodum, moradores da região e figurantes locais. O roteiro priorizava movimento, multidão, batidas percussivas e expressões de alegria e resistência, criando um contraste direto com a dureza da letra.
A gravação foi também um gesto simbólico: um dos maiores artistas do mundo ocupando um espaço historicamente marginalizado, deslocando o centro do pop global para o coração da cultura afro-brasileira.
Além da Bahia, o clipe também teve gravações no Rio de Janeiro, em dois cenários distintos e igualmente simbólicos. Um deles foi o antigo Presídio Frei Caneca.
O outro cenário foi o Favela Santa Marta, na zona sul da cidade. A escolha do local não estava no plano inicial, mas ganhou força durante a produção por representar, de forma direta, a desigualdade urbana brasileira. Michael gravou no topo da comunidade, cercado por moradores, crianças e dançarinos locais, transformando a favela em palco e protagonista do clipe.
A decisão gerou resistência inicial de autoridades, que temiam que as imagens reforçassem estigmas negativos do Brasil no exterior. Ainda assim, as gravações aconteceram e se tornaram uma das sequências mais lembradas do vídeo. Anos depois, como reconhecimento simbólico da importância daquele momento para a história da comunidade, a Favela Santa Marta recebeu uma estátua de Michael Jackson, instalada no local exato onde ele dançou e cantou durante as filmagens, transformando o espaço em ponto turístico e memorial cultural.
Crédito da imagem: Reprodução / Videoclipe “They Don’t Care About Us” (versão 2)
A música ganhou duas versões oficiais de videoclipe. A primeira foi gravada no Brasil, em Salvador e no Rio de Janeiro. A segunda foi produzida em estúdio, com cenários que simulam um presídio, ampliando o caráter simbólico e político da obra, sem ligação direta com o Brasil.
Essa divisão refletiu a recepção internacional do clipe. Enquanto parte do público se concentrou na polêmica, outra passou a valorizá-lo como um manifesto visual de empoderamento. A seguir, assista à versão gravada no Brasil; a segunda versão não está disponível nos canais oficiais de Michael Jackson.
Na época, a mídia brasileira se dividiu entre o orgulho nacional e discussões sobre a imagem do país no exterior. Já a imprensa internacional reconheceu o clipe como um dos mais ousados e politicamente engajados de Michael Jackson.
Com o tempo, a leitura amadureceu. O vídeo passou a ser visto como um marco de representação cultural e como um dos raros momentos em que o pop global se voltou diretamente para realidades sociais fora do eixo tradicional Estados Unidos–Europa.
“They Don’t Care About Us” permanece atual porque sua mensagem nunca deixou de ser necessária. O clipe não apenas documentou um momento histórico, mas ajudou a projetar a cultura afro-brasileira e as periferias urbanas para o mundo, associando-as a uma narrativa global de resistência e dignidade.
Quase três décadas depois, as imagens de Michael Jackson ao lado do Olodum no Pelourinho e dançando na Favela Santa Marta continuam sendo lembradas não apenas como um episódio marcante da cultura pop, mas como um dos capítulos mais significativos da relação entre música, política e identidade no audiovisual contemporâneo.
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