não há nada de especial em fazer 75 anos

Curiosamente, embora seja muito atento aos números e à frequência com que eles se repetem em quartos de hotéis e placas de automóveis, Zé Ramalho dá de ombros para o principal chamariz da sua nova turnê.

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“Não vejo nada de especial em fazer 75 anos de vida. É uma forma que os donos das casas de espetáculos usam para chamar e informar as pessoas, e que dará bons rendimentos. Tenho o privilégio de ter um público que lota minhas apresentações”, diz, em entrevista por e-mail.

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O cantor paraibano se apresenta nesta sexta-feira (12) no Espaço Unimed, em São Paulo, com o show “75 Anos de Vida – Temporada de Sucessos”, no qual passeia pelas grandes composições que marcam sua carreira, como “Avôhai”, “Frevo Mulher”, “Eternas Ondas” e “Sinônimos”.

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Dono de letras poderosas, que abrem a interpretação para múltiplos significados, Zé Ramalho tem o mistério e misticismo como companheiros infalíveis em sua carreira.

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Este ano também marca os 50 anos da gravação do seu primeiro álbum -“Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol”, ao lado do também compositor Lula Côrtes, morto em 2011.

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Sob forte influência da psicodelia da banda Pink Floyd, o disco mistura rock com ufologia e misticismo indígena -a partir da expedição que a dupla fez até a Pedra do Ingá, monumento natural da Paraíba, onde há indecifráveis escritas rupestres.

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O LP é considerado o Santo Graal entre os colecionadores. É o mais caro do Brasil. Um único exemplar, bem conservado, é vendido por até R$ 10 mil. Isso porque, lançado por uma gravadora pequena em Recife, teve quase todas suas cópias destruídas pela grande enchente do Rio Capibaribe, que devastou a capital pernambucana no mesmo ano da prensagem do disco.

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Zé Ramalho não fala sobre o “Paêbirú”. Esta foi a única restrição imposta antes do envio das perguntas. O compositor, no entanto, não deixa de revelar a influência estética mais decisiva na sua trajetória autoral.

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“Os repentistas são a forma mais séria, importante e estranha que conheci. São pessoas mediúnicas pelo mistério que acontece quando estão improvisando. Quando tinha 22 anos, tive dois mestres: Otacílio Batista e Oliveira de Panelas. O universo deles está em todos os meus discos”, afirma.

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O estilo mais adotado pelos artistas populares do Nordeste é o martelo agalopado -modelo com versos decassilábicos, com ritmo marcado em exatas sílabas tônicas. No disco “Terceira Lâmina”, de 1981, há duas músicas que, no título, fazem referência direta ao gênero -“Canção Agalopada” e “Galope Rasante”.

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Além da cultura dos violeiros, neste caleidoscópio criativo de Zé Ramalho há espaço também para as drogas alucinógenas, hippies, Beatles e Bob Dylan.

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“Assisti ao filme ‘Woodstock’. Nele, apareciam imagens da cultura hippie. Os cogumelos surgiram nesse tempo”, diz.

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“Sem essa viagem não existiria a música ‘Avôhai’. Quando estava sob os efeitos da psilocibina [substância psicoativa encontrada em 200 espécies de cogumelos], eu ouvia claramente a palavra ‘Avôhai’. Entendi que envolvia meu avô, que me criou”.

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Diz também que foi “ouvindo Beatles que senti vontade de tocar um instrumento [guitarra e violão] e de cantar”.

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Em 2008 e 2011, Zé Ramalho lançou, respectivamente, um tributo a Dylan e outro ao famoso quarteto de Liverpool, cantando músicas em inglês.

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No disco “Opus Visionário”, de 1986, a música “Zyliana” faz a junção das palavras Zé e Dylan. Em “Frevoador” (de 1992), a canção “Nona Nuvem” tem o mesmo nome traduzido do álbum “Cloud Nine”, trabalho solo do ex-beatle George Harrison.

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Apesar do alto valor de mercado praticado hoje, “Paêbirú” não projetou a carreira de Zé Ramalho nacionalmente.

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Isso só viria a acontecer três anos depois, em 1978, quando ele foi tentar a sorte no Rio de Janeiro.

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O disco “Zé Ramalho” foi produzido pela extinta gravadora CBS e já trazia alguns dos principais sucessos do cantor paraibano, como “Avôhai”, “Vila do Sossego”, “Chão de Giz”, “Dança das Borboletas” e “Bicho de Sete Cabeças”. As duas últimas, nesta ordem, em parcerias com Alceu Valença e Geraldo Azevedo.

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Aliás, é curiosa a quantidade de participações especiais neste disco. Nomes como o flautista Altamiro Carrilho, o guitarrista Sérgio Dias (dos Mutantes) e do tecladista Patrick Moraz (da banda britânica Yes) surgem nas nove faixas do álbum.

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Na música “Noite Preta”, Dominguinhos toca sanfona e o sambista Bezerra da Silva assume a zabumba. Em “Vila do Sossego”, as vozes femininas, em coro, são de Elba Ramalho -prima de Zé- e da carioca Lizzie Bravo, que também também faz o coral na canção “Across the Universe”, dos Beatles.

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Catapultado ao sucesso pela excelência deste trabalho, Zé Ramalho passou a integrar o rol dos grandes artistas do país -foi quando passou a exagerar no consumo de cocaína e álcool.

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Em 1982, uma polêmica o abateu em pleno voo. Ao lançar o álbum “Força Verde”, teve a música homônima acusada de plagiar o escritor William Butler Yeats, Nobel de Literatura em 1923.

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À época, Zé Ramalho se defendeu dizendo que tinha se inspirado nas primeiras linhas da HQ “Incrível Hulk” (editora GEA, 1972), que reproduziu os versos do poeta irlandês sem os devidos créditos. Hoje, enxerga por outra via.

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“Acusação mesquinha. Eu, sendo um nordestino, ‘sem parentes importantes e vindo do interior’, como dizia Belchior, estava numa evidência muito grande. Minha posição causava inveja. Qualquer outro artista teria sucumbido. Mas eu continuei na minha senda. Obviamente que isso atormenta sua cabeça um pouco, mas fazer o quê?”, diz.

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Longe das substâncias químicas, Zé Ramalho afirma que os abusos cometidos no passado são suficientes para trazer inspiração musical a “qualquer momento e qualquer tempo”.

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Hoje mantém uma rotina rígida, com horários definidos para as refeições e também para a música. “Acordo cedo e dedico uma hora para ouvir música. Não é brasileira, nem rock. Escuto profundamente música eletrônica. Sem letra, com sons que me dão sensação de viajar com a cabeça. Não adianta citar os artistas, pois ninguém conhece”, diz, mantendo o mistério.

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Cantor de sucessos de novelas, como “Mistérios da Meia Noite” (‘Roque Santeiro”, 1985) e “Admirável Gado Novo” (“Rei do Gado”, 1996), Zé Ramalho vem sendo redescoberto por cantores da nova geração.

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A versão de Chico Chico, filho de Cássia Eller, para “Vila do Sossego” é comemorada. “A mãe dele também regravou. A música atravessa o tempo. Isso me dá uma sensação de ter feito algo de valor”.

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*ANDRÉ UZÊDA/folhapress

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