Novo dinossauro “punk rock” coberto de espinhos intriga cientistas

Coberto por espinhos de quase um metro de comprimento e protegido por uma armadura óssea que lembrava um colar de lâminas afiadas ao redor do pescoço, o Spicomellus afer parece mais próximo de uma criatura inventada para a ficção científica do que de um animal real.

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Comparado por cientistas a um “punk rocker” pré-histórico, esse anquilossauro herbívoro viveu há cerca de 165 milhões de anos, no período Jurássico, em uma região que hoje corresponde ao Marrocos.

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A descoberta, publicada na revista Nature, reescreve a história evolutiva deste grupo de dinossauros e já está sendo considerada uma das mais importantes da paleontologia dos últimos anos.

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O primeiro indício desse animal surgiu em 2019, quando a paleontóloga Susannah Maidment, do Museu de História Natural de Londres, encontrou um fragmento de costela com espinhos soldados ao osso – uma configuração jamais vista em qualquer animal, vivo ou extinto.

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Em 2021, essa peça isolada já havia levado cientistas a propor a existência de uma nova espécie. Mas as dúvidas permaneciam: sem fósseis adicionais, não era possível saber se aquele fragmento representava uma característica única ou apenas uma deformação.

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As respostas começaram a aparecer a partir de 2022, quando escavações nas Montanhas Atlas, próximas à cidade de Boulemane, revelaram novos fragmentos do mesmo animal. Em 2023 e 2024, mais fósseis foram recuperados, permitindo finalmente descrever a criatura de forma mais completa. Ainda não há restos do crânio, mas já é possível ter uma boa ideia de sua aparência.

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O Spicomellus media cerca de quatro metros de comprimento, podia pesar até duas toneladas e se locomovia sobre quatro patas robustas. Assim como outros anquilossauros, era um herbívoro revestido por placas ósseas, mas seu corpo apresentava características que o tornavam único.

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Além do colar ósseo no pescoço, com dois pares de espinhos – um deles medindo 87 centímetros, provavelmente ainda maior quando recoberto por tecidos moles em vida –, o animal possuía fileiras de espinhos ao longo das costas, placas reforçadas sobre a pélvis e dois grandes espinhos voltados para cima na região dos quadris.

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O efeito visual era impressionante: um tanque de guerra pré-histórico, mas com adornos tão exagerados que lembravam mais um desfile de excentricidades do que uma adaptação prática.

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Esse é justamente um dos pontos que intrigam os cientistas. Estruturas defensivas geralmente têm uma função clara contra predadores, mas alguns elementos do Spicomellus parecem excessivos.

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O paleontólogo Richard Butler, da Universidade de Birmingham, afirmou em comunicado que é difícil imaginar utilidade para espinhos tão longos no pescoço. Para ele, o exagero sugere outra função: rituais de cortejo, disputas entre indivíduos da mesma espécie ou até exibição territorial.

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A colega Susannah Maidment fez a mesma comparação, lembrando que em animais atuais estruturas desproporcionais, como os chifres de cervos ou a cauda de pavões, costumam estar ligadas à seleção sexual. Isso indica que o Spicomellus talvez tenha usado sua armadura não apenas como proteção, mas também como espetáculo.

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Outra descoberta surpreendente veio da análise de sua cauda. Algumas vértebras estavam fundidas de maneira semelhante ao que se observa em anquilossauros do período Cretáceo, dezenas de milhões de anos mais tarde. Esse arranjo permitia sustentar uma arma óssea na ponta da cauda, provavelmente usada em combates ou para afugentar predadores.

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O achado mostra que o desenvolvimento de armas caudais ocorreu 30 milhões de anos antes do que se imaginava, reescrevendo parte da história evolutiva desse grupo.

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Para os pesquisadores, o Spicomellus é o anquilossauro mais antigo já descrito, o que obriga a repensar como e onde surgiu a linhagem. A expectativa era de que os primeiros representantes tivessem formas simples de armadura, evoluindo para estruturas mais elaboradas ao longo do tempo.

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O oposto parece ter acontecido: logo no início já havia espécies extremamente ornamentadas, como se a evolução tivesse testado excessos antes de se estabilizar em formatos mais funcionais.

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“O que nos surpreende é que a armadura mais elaborada de todos os tempos esteja justamente no membro mais antigo do grupo”, resumiu Butler em entrevista à Reuters.

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A descoberta também destaca a relevância do norte da África para a paleontologia. Em nota, o professor Driss Ouarhache, da Universidade Sidi Mohamed Ben Abdellah, no Marrocos, afirmou que o país tem tradição em geologia, mas ainda há muito a ser explorado no campo dos fósseis. Ele destacou que novas pesquisas podem atrair mais cientistas internacionais para colaborar com equipes locais.

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