Pássaros têm mais medo de mulheres do que de homens, e ninguém sabe o porquê

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Cientistas descobriram que a pega-rabuda (Pica pica) é, de fato, um pouco sexista – e o mesmo vale para outras 36 espécies de pássaros que parecem ter mais medo de mulheres do que de homens.

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É o que indica um estudo recente publicado no periódico People and Nature, no qual pesquisadores observaram o comportamento de aves urbanas europeias. Comparando a reação dos bichos diante de pessoas de gêneros distintos, o estudo constatou que os passarinhos ficavam consideravelmente mais ariscos ao lado de mulheres.

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Em média, os passarinhos deixavam homens chegarem cerca de 1 metro mais próximos do que as mulheres antes de alçarem voo. Essa tendência foi geral entre todas as espécies observadas.

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O motivo do medo específico contra elas? Os pesquisadores não fazem ideia.

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“Identificamos um fenômeno, mas realmente não sabemos o porquê. No entanto, o que nossos resultados destacam é a capacidade sofisticada das aves de avaliar o ambiente ao seu redor”, diz, em nota, Federico Morelli, principal autor do estudo.

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A equipe levantou algumas possibilidades. Os pássaros podem estar, por exemplo, reagindo a cheiros específicos. Estudos passados já mostraram que ratos se comportam de maneira distinta ao lado de pessoas do sexo masculino por causa de sinais olfativos, e outras pesquisas com pássaros demonstram que o olfato pode ter um papel importante para evitar predadores, embora isso não se aplique a todos os contextos e espécies.

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Além disso, os autores especulam que fatores visuais mais sutis, como o formato do corpo ou o jeito de andar, podem ter tido alguma influência.

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Ainda assim, o estudo não permite apontar nenhuma causa certa. Seriam necessárias pesquisas bem maiores para delimitar exatamente as características que fizeram os pássaros fugirem mais rápido na presença de mulheres.

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Os experimentos do estudo recente eram relativamente simples e contaram com apenas oito participantes – quatro mulheres e quatro homens, todos ornitólogos experientes. Os dados foram coletados em parques ou áreas verdes de cidades de cinco países – França, Polônia, Alemanha, Espanha e República Tcheca.

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Os participantes organizaram-se em pares: em cada local, um observador de cada gênero caminharia em linha reta na direção de um pássaro, olhando fixamente nos olhos do bicho, até ele sair voando.

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O que eles estavam tentando medir era a chamada “distância de iniciação de voo”, uma métrica comum para analisar como os animais percebem o risco de potenciais predadores. Ela descreve o quão próximo o pássaro deixa uma ameaça se aproximar antes de fugir.

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Os pesquisadores também procuraram controlar alguns aspectos visuais mais óbvios, que poderiam interferir nos resultados. As pessoas de cada dupla tinham aproximadamente a mesma altura e usavam roupas similares. Além disso, quem tinha cabelo comprido precisava esconder os fios caso o colega tivesse um corte mais curto.

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Os pesquisadores controlaram também fatores biológicos. Nenhuma das mulheres estava menstruada, já que isso poderia gerar sinais químicos e hormonais que interfeririam nos resultados do estudo. (Subentende-se que só participaram da análise pessoas cisgênero, ou seja, que não são transgêneros.)

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No total, eles reuniram 2.581 observações referentes a 37 espécies comuns de pássaros urbanos europeus – incluindo a já citada pega-rabuda (Pica pica), o chapim-real (Parus major) e o pombo-comum (Columba livia).

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A rejeição maior às mulheres foi consistente em todas as espécies, de todos os países, para diferentes padrões de movimento. Até aves mais medrosas demonstraram o comportamento. O pica-pau-verde (Picus viridis), que tenta escapar quando a ameaça chega mais perto que 16 metros, ainda assim se manteve cerca de um metro mais distantes das mulheres.

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Por outro lado, os cientistas também analisaram espécies mais tolerantes, como os pombos-comuns (Columba livia). Em geral, essa é uma espécie que não vê problema com qualquer coisa a uma distância de 3,5 metros. Ainda assim, com as moças, as rolinhas também fugiam antes.

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É um estudo que parece meramente curioso ou engraçado (e de fato é), mas suas implicações podem impactar a forma como são desenhados estudos observacionais da vida selvagem. Isso porque, agora, cientistas têm evidências de que pássaros podem agir de maneiras diferentes quando observados por pessoas de gêneros diferentes, algo que pode afetar os resultados de pesquisas que envolvam o contato entre humanos e os animais.

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“Como mulher na área, fiquei surpresa com o fato de que as aves reagiam de maneira diferente a nós. Esse estudo destaca como os animais nas cidades ‘veem’ os seres humanos, o que tem implicações para a ecologia urbana e para a igualdade na ciência. Muitos estudos comportamentais presumem que um observador humano é neutro, mas esse não foi o caso das aves urbanas em nosso estudo”, afirma, em nota, a pesquisadora Yanina Benedetti.

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No final, os cientistas também não sabem o que potencialmente poderia ter condicionado os pássaros a temerem mais as mulheres. No artigo, eles lançam a possibilidade de que a estrutura das sociedades caçadoras-coletoras da antiguidade, nas quais mulheres poderiam ter se especializado na captura de pequenas presas, poderia ter tido alguma influência nisso, mas essa especulação está alguns bons passos à frente daquilo que o estudo de fato consegue garantir com certeza.

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