Sons inaudíveis podem fazer uma casa parecer assombrada, diz estudo

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Há algo na atmosfera de uma casa velha e carcomida que nunca falha em dar um frio na espinha. O ar vai ficando mais denso, e o clima pesa com a gravidade de alguma presença invisível e misteriosa. Em meio a tamanho desconforto, não seria tão absurdo pensar que talvez o lugar esteja acometido por alguma assombração.

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No entanto, em casos assim, de acordo com cientistas, talvez a solução não seja chamar um exorcista, mas sim um encanador: esse desconforto pode ser apenas as vibrações de uma tubulação velha mexendo com a sua cabeça.

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Dos tubos enferrujados nas paredes até o sistema de ventilação enterrado no porão, grande parte da infraestrutura de residências mais antigas está a todo momento emitindo os chamados infrassons – sons tão graves que passam absolutamente despercebidos pelos nossos ouvidos, mas ainda assim conseguem mexer com o nosso corpo.

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De acordo com um novo estudo feito por cientistas canadenses, essa trilha sonora inaudível pode ser uma das fontes do desconforto que faz lugares parecerem assombrados. Em artigo lançado nesse domingo (26) no periódico Frontiers in Behavioral Neuroscience, os autores sugerem que pessoas podem se tornar mais irritáveis e expressar níveis mais altos de cortisol, o hormônio do estresse, quando expostos ao infrassom.

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No geral, a audição humana capta uma faixa de frequências entre 20 e 20.000 Hertz. Qualquer som abaixo desse limiar mínimo é considerado um infrassom – um barulho tão grave que o ouvido e o cérebro nem registram como sendo um barulho.

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No cotidiano, os infrassons estão por toda parte – no ruído dos carros nas ruas, no fragor dos processos industriais, nos sistemas de ar-condicionado, no movimento das placas tectônicas ou mesmo dentro do nosso corpo, durante a respiração ou nas batidas do coração.

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Ainda que o infrassom seja inaudível, porém, suas vibrações ainda podem ser sentidas pelo corpo. Os efeitos disso em humanos, porém, ainda são em grande parte desconhecidos. Estudos em animais mostram que a exposição a sons extremamente graves poderia ser uma fonte de estresse, mas, no caso dos humanos, as pesquisas são bem menos conclusivas – e muitas vezes contraditórias.

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Enquanto alguns estudos com pessoas não observaram qualquer efeito significativo da exposição ao infrassom, outros relataram efeitos adversos como ansiedade e perturbações no sono. No artigo, os autores afirmam que o motivo disso provavelmente é metodológico: muitos estudos se apoiavam em observações e relatos pessoais, além de não controlarem propriamente a exposição aos infrassons.

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Para contornar isso, os pesquisadores elaboraram um experimento controlado que, além de contar com o relato subjetivo dos participantes, também mediria um marcador fisiológico do estresse: o cortisol da saliva.

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No experimento, 36 participantes foram colocados em salas de teste e expostos a diferentes estímulos sonoros. Metade ouviria das caixas de som uma música relaxante, enquanto o restante ficaria com uma trilha-ambiente de terror. Cada um desses dois grupos também seria dividido no meio: além da trilha, metade de cada grupo também sentiria, sem saber, uma frequência infrassônica de aproximadamente 18 Hz, tocada em um subwoofer escondido.

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No final, a presença do infrassom invariavelmente causou uma reação negativa. Mesmo os participantes acompanhados da trilha mais calma se disseram mais irritados. As amostras de saliva coletadas antes e depois de cada teste revelaram um aumento dos níveis de cortisol entre os participantes expostos ao infrassom: o efeito relaxante da música se dissipou, e a trilha assustadora, somada com o som grave, deixou os participantes ainda mais desconfortáveis.

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A música também parecia menos interessante e mais triste para os participantes expostos ao infrassom. Ainda assim, o ruído não teve qualquer efeito significativo nos níveis de ansiedade relatados pelos voluntários.

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Tendo isso em vista, não é de se espantar que alguns atribuem esse desconforto misterioso a uma presença paranormal. Para Rodney Schmaltz, um dos autores do estudo, essas pessoas “muito provavelmente não sabem o que é o infrassom, mas foram informados de que estão em um local assombrado, então atribuem a sensação de irritação a um fantasma, em vez do encanamento antigo, que emite um ruído grave e contínuo no porão”, sugere em entrevista ao jornal britânico The Guardian.

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As implicações do novo estudo vão além das supostas assombrações. Os novos achados sugerem que o infrassom pode ser um poluente invisível que pode estar afetando o humor de pessoas, principalmente em espaços urbanos. No artigo, os pesquisadores questionam os possíveis impactos que uma exposição mais prolongada aos infrassons pode causar uma humanos, visto que, durante os experimentos, meros cinco minutos já foram o suficiente para aumentar os níveis de cortisol das pessoas.

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“Considerando a prevalência do infrassom dentro e ao redor de habitats humanos, essas descobertas ressaltam o potencial valor de identificar e mitigar fontes de poluição infrasonora dentro de nossos ambientes”, concluem os cientistas no artigo.

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