[Editada por: Marcelo Negreiros]
O União Brasil e o Progressistas (PP) se preparam para oficializar a federação entre os partidos. Nesta terça-feira, 19, os dirigentes das siglas vão se reunir em Brasília para aprovar o estatuto da federação e ratificar a aliança. Além das formalidades, o encontro deve tratar do possível desembarque do governo Lula.
Desde o anúncio da federação União Progressista, em abril, lideranças das duas legendas têm defendido o rompimento com a gestão petista. À época, o vice-presidente do União Brasil, Antônio Carlos Magalhães Neto, o ACM Neto, defendeu que a saída do governo ocorresse logo após a formalização da federação.
O desembarque, no entanto, enfrenta resistência de setores mais pragmáticos, já que União Brasil e Progressistas controlam quatro ministérios, além de cargos no segundo escalão e diretorias de estatais, como a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf).
Mesmo entre aqueles que defendem a entrega dos cargos, há um entendimento de que essa decisão não será tomada no encontro, devendo se arrastar pelos próximos meses. Enquanto isso, cresce a pressão sobre os ministros da federação que, de um lado, são pressionados por correligionários a deixar o governo e, de outro, pelo próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a defender publicamente a gestão.
O deputado José Nelto (União-GO) espera que a reunião desta terça funcione como um ultimato aos ministros do partido.
Na prática, a sigla comanda três pastas: Comunicação; Integração e Desenvolvimento Regional; e Turismo. Porém, os dois primeiros ministérios são chefiados, respectivamente, por Waldez Góes e Frederico Siqueira, que, embora indicados pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não são filiados ao partido. Já o Turismo está sob o comando do deputado Celso Sabino (União-PA).
Segundo Nelto, os titulares da Comunicação e da Integração e Desenvolvimento Regional não podem ser considerados ministros do União, mas, sim, indicações pessoais de Alcolumbre. Já Sabino, que realmente é filiado à legenda, acaba sendo o principal alvo das pressões de correligionários para entregar o cargo.
Congressistas do União ouvidos pela reportagem sugerem que, caso decidam manter seus cargos, os ministros adotem uma posição de independência, já que não são filiados ao partido e, por isso, a federação não poderia obrigá-los a pedir demissão.
Apesar da possibilidade, o deputado Dr. Zacharias Calil (União-GO) considera “antiético” e “imoral” manter cargos no governo federal quando o partido tem um candidato à Presidência da República. Em abril, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), lançou a sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto.
“Isso é enganar a população. Chegar na eleição e dizer que é oposição depois de passar meses compondo o governo”, afirmou Calil. Essa avaliação é compartilhada por outros membros do partido, que argumentam que seria um erro “entrar no ano eleitoral com as digitais no governo Lula”.
Já o Progressistas tem apenas uma pasta no governo: o Ministério do Esporte, comandado pelo deputado André Fufuca (MA). A maioria da bancada é contra sua permanência, afirmando que a sigla sequer deveria ter embarcado no governo.
Congressistas do partido ouvidos pela reportagem dizem que o governo nunca demonstrou interesse no partido, especialmente porque o presidente da sigla, senador Ciro Nogueira (PI), foi ministro na gestão de Jair Bolsonaro (PL). Além disso, avaliam que o Ministério do Esporte pouco beneficiou a legenda.
Apesar da pressão para deixar o cargo, aliados reconhecem que a posição é estratégica para Fufuca, que pretende concorrer ao Senado pelo Maranhão em 2026. A ambição eleitoral dificulta oposição ao governo Lula, já que eleitores do Estado preferem candidatos da esquerda.
Um interlocutor de Nogueira afirmou que o senador, amigo de Fufuca, dificilmente o obrigaria a sair do governo. Já aliados do ministro dizem que ele não pretende deixar a Esplanada. Segundo correligionários, a saída do partido poderia ser uma solução, mas é medida considerada drástica, já que Fufuca é dirigente da sigla no Maranhão. A decisão final caberá a Nogueira.
Outra discussão marcada para terça é sobre formar chapas estaduais com partidos como o PT. “Alguns parlamentares pedem liberdade para escolher”, disse a deputada Fernanda Pessoa (União-CE), alertando que restrições podem causar debandada.
Apesar de parte da bancada nordestina simpatizar com Bolsonaro, o União Brasil mantém proximidade com o governo. O deputado Maurício Neves (PP-SP) admite risco de debandada, mas aposta que o peso da maior bancada do Congresso e a fatia do fundo partidário podem atrair novos nomes e ajudar a federação a chegar a 140 deputados.
Nogueira afirma que a decisão será tomada depois. “Eu vou lutar para que não, mas não é só minha decisão”, disse.
Na terça-feira, 19, os dois partidos realizam suas últimas convenções antes da formalização da federação. Pela manhã, o União Brasil se reúne no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, enquanto o Progressistas se encontra no Senado. À tarde, ambos os partidos promovem a primeira convenção oficial da federação.
Após a formalização, a federação ainda precisa ser homologada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para ter validade jurídica. O registro é analisado por um ministro e, em seguida, julgado pelo plenário. Só com a aprovação do tribunal a federação adquire personalidade jurídica, podendo disputar eleições, acessar recursos do fundo partidário e ser incluída nos sistemas oficiais.
Juntos, União Brasil e Progressistas somam 109 deputados federais e 15 senadores, formando a maior bancada da Câmara e uma das maiores do Senado. A federação também reúne 12,4 mil vereadores, 1,3 mil prefeitos, 186 deputados estaduais, quatro distritais, seis governadores, quatro vice-governadores e 1,2 mil vice-prefeitos, consolidando-se como a maior força partidária do país.
Sem uma resolução à vista, a federação seguirá ocupando cargos no governo Lula, enquanto seus parlamentares votam contra a gestão no Congresso. No início do mês, os partidos aderiram à obstrução liderada pela oposição na Câmara e no Senado, em protesto à prisão de Bolsonaro.
Deputados favoráveis ao desembarque consideraram positivo o apoio da federação à obstrução no Congresso.
Os futuros presidentes da federação, Nogueira e Antônio Rueda (União), já indicaram que não devem apoiar a reeleição de Lula em 2026. Nogueira tem defendido que os ministros da federação entreguem imediatamente seus cargos, enquanto Rueda intensificou ataques ao presidente, acusando Lula de “provocar” e “instigar” o tarifaço ao defender o fortalecimento comercial da Cúpula dos Brics.
A hostilidade da federação contra o governo é tão intensa que, na semana passada, Lula se reuniu com ministros do União Brasil e reclamou das críticas da legenda. O presidente tem buscado aproximação com políticos de centro-direita e já sinalizou interesse em conversar com Rueda.
[Por: Estadão Conteúdo]Source link
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