A cena se repete em todo ano de Copa em escolas, parques e ruas: dezenas de pessoas se juntam para participar ou assistir a uma disputa de bafo.
Talvez você conheça a brincadeira por outro nome, como bater figurinhas, cards ou cartinhas. Seja como for, o princípio é o mesmo: usar as mãos para virar os cromos do álbum, mas sem pegá-los com os dedos.
Entre figurinhas conquistadas (ou perdidas), é provável que você nunca tenha pensado nos vários mecanismos físicos envolvidos no bafo – mas é para isso que estamos aqui. A Super conversou com Claudio Furukawa, professor de física da Universidade de São Paulo, para entender a física por trás da coisa.
Para começar, precisamos diferenciar dois jeitos de brincar: no primeiro, uma ou duas mãos batem sobre as cartas rapidamente; no segundo, usa-se as duas mãos e não vale tocar nas cartas – seja batendo em forma de concha na superfície ou com uma palma veloz na direção das cartas.

Independentemente da técnica escolhida, o grande segredo universal para vencer no jogo resume-se a um conceito fundamental: o torque, a grandeza física responsável por fazer um corpo girar em torno de um eixo – que, no jogo, corresponde à extremidade oposta da figurinha.
O torque está presente no nosso cotidiano em diversas situações — desde o funcionamento do motor de um carro até ações simples, como abrir uma porta. Ao aplicar uma força na maçaneta, você produz um torque em torno do eixo das dobradiças, fazendo a porta girar.
Bater com a mão totalmente reta, seja sobre a figurinha ou sobre a superfície, provoca uma força distribuída por igual. Quando isso acontece, no melhor dos casos, a carta dá uma voadinha para cima ou para os lados e cai na mesma posição. Para fazê-la virar, é preciso concentrar a força em apenas um dos lados – justamente para gerar o torque.
“Porém, as forças que exercem torque podem aparecer de inúmeras formas, e podem depender do formato e tamanho das mãos, da força da batida e rapidez do levantamento e até mesmo da umidade da palma da mão, que aumenta a adesão”, explica Furukawa. “Portanto, se quiser ser um vencedor nesse jogo, é preciso treinar e encontrar o seu melhor método de virar as figurinhas, que nem sempre é o mesmo para todos os jogadores.”
Tocando nas cartas, com uma ou duas mãos

Nesses casos, o controle do ar é feito diretamente pela palma do jogador. A principal dica é nunca deixar a mão totalmente espalmada, mas sim em formato de concha. Isso permite deslocar e acumular um volume de ar muito maior. Em vez de descer com a mão reta, o movimento deve ser feito com a mão levemente inclinada, para direcionar o fluxo de ar.
O verdadeiro pulo do gato acontece na hora de levantar a mão. O jogador não deve puxar a mão verticalmente para cima, mas sim de forma inclinada. A coreografia é rápida e quase imperceptível: na descida, o lado de fora da mão, o do dedo mindinho, toca a superfície primeiro – e, na subida, é também o último a sair. Se tudo der certo, sua mão vai funcionar como uma ventosa.
A subida rápida expande o volume de ar preso sob a palma da mão, e aí está o segredo. Segundo a Lei de Boyle, quando o volume de um gás aumenta, a sua pressão diminui. Puxar a mão cria uma zona de baixa pressão entre a mão e a figurinha. Entretanto, a pressão atmosférica debaixo da cartinha continua normal.
Quando você tira a mão, é a diferença entre as duas pressões – embaixo e em cima da cartinha – que a “empurra” para a zona de menor pressão, ou seja, para cima e para o lado. Com a inclinação certa, ela sobe já fazendo uma curva e tomba com o lado contrário para cima. Bingo! Ou melhor, bafo!
As regras da brincadeira mudam pelo Brasil, mas geralmente é proibido umedecer as mãos ou as superfícies para facilitar a formação desse “vácuo”. Outro truque mal \visto pelos jogadores é curvar as figurinhas. Isso porque, quando ela está abaulada, parte do ar entra por baixo durante a batida, aplicando um pequeno empurrão inicial que levanta um dos lados e facilita a manobra.
Usando as duas mãos, sem tocar nas figurinhas

No caso em que não se toca nas cartas, seja com as duas mãos na superfície ou batendo uma palma paralela, o princípio físico muda: o objetivo aqui é criar e direcionar um fluxo de vento lateral.
Quando as mãos se chocam entre si ou com a superfície, o volume dentro das mãos é reduzido bruscamente, fazendo a pressão interna disparar. O ar sob alta pressão tende a escapar pelas beiradas.
O segredo dos craques é deixar uma pequena abertura entre os dedos na parte frontal para canalizar e projetar esse vento com alta velocidade diretamente na direção da figurinha. Mais ou menos como ocorre com um balão furado: todo o ar pressurizado tende a sair pelo primeiro espacinho que encontra.
Muitas pessoas (e explicações online) justificam o levantamento da carta usando o Princípio de Bernoulli, que explica a relação entre velocidade e pressão de fluidos em movimento. Segundo Bernoulli, quando a velocidade de um fluido (como o ar movimentado pelas suas mãos) aumenta, a pressão que ele exerce diminui. Daí, o mecanismo de baixa pressão provocaria uma sucção semelhante à explicada para a brincadeira de uma mão só.
Mas, com as figurinhas, não é bem assim. Furukawa explica que a diferença é que Bernoulli se aplica a fluxos canalizados que passam por estreitamentos fechados (como o ar ou a água correndo por dentro de um cano). Como no jogo de bafo o ar corre livre sobre a mesa, o fenômeno que realmente entra em ação para fazer a cartinha voar se chama Efeito Coanda.
Quando o vento canalizado passa em alta velocidade sobre a figurinha curvada, o fluxo de ar “gruda” na superfície e acompanha a sua curvatura para baixo. Pela lei da ação e reação, se o ar for forçado para baixo, a figurinha é impulsionada para cima.
Experimente em casa: pegue uma folha de papel leve e lisa e posicione o lado menor abaixo do seu lábio inferior. Segure a folha pelas pontas próximas ao rosto e sopre: mesmo o fluxo de ar passando por cima, a outra ponta da folha é levemente erguida.
É esse mesmo movimento de erguer a outra ponta que acontece com as figurinhas, mas, em vez de vir da boca, o sopro vem do movimento das mãos. Depois que uma ponta da figurinha já subiu um pouquinho por causa do Efeito Coanda, ela desgruda da superfície, o ar também começa a entrar por baixo dela. Isso expande a área de atuação da pressão e gera um torque forte o suficiente para virar o card.
Dicas científicas para ganhar qualquer disputa de bafão
Para transformar o conhecimento teórico em vitórias práticas, o professor de física Claudio Furukawa aponta alguns detalhes cruciais:
- Modere a força da batida: A intuição diz que bater com o máximo de força trará melhores resultados, mas a física prova o contrário. Pancadas violentas demais quebram a organização do ar e criam um fluxo turbulento. Para que o Efeito Coanda funcione, o fluxo de ar precisa ser laminar (suave e contínuo). A turbulência faz a figurinha apenas vibrar desordenadamente, impedindo o torque correto.
- Evite superfícies permeáveis e rugosas
Jogar apoiado em terrenos irregulares é furada. Tapetes, terra e outras texturas muito permeáveis fazem com que o ar escape por baixo e pelas fibras, sabotando as chances de criar a diferença de pressão necessária para mover a carta. O ideal são superfícies planas e estáveis.
- Mas também evite terrenos muito lisos
Embora superfícies lisas sejam ideais para canalizar o ar, um terreno excessivamente escorregadio (como uma placa de vidro polido) pode ser prejudicial. Sem nenhum atrito, a tendência da figurinha é simplesmente escorregar pela mesa em vez de tombar. Um leve nível de atrito na superfície funciona como o ponto de apoio perfeito, servindo de eixo fixo para que o torque execute a rotação completa da cartinha. Piso de porcelana é furada, mas concreto pode ser uma boa.
[Por: Superinteressante]
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