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No fim da década de 1950, os Estados Unidos estavam entrando de vez na corrida espacial. A Nasa se preparava para enviar os primeiros astronautas ao espaço – mas ainda havia muitas dúvidas sobre como o corpo humano reagiria fora da Terra.
Os cientistas sabiam que a ausência de gravidade poderia afetar o equilíbrio, a orientação espacial e provocar enjoo, entre outros efeitos. O problema é que ninguém sabia exatamente até que ponto isso poderia atrapalhar uma missão.
Para tentar responder a essas perguntas, a Nasa iniciou um programa de pesquisa em parceria com a Escola de Medicina Aeroespacial da Marinha dos Estados Unidos. A ideia era entender como o organismo reage a movimentos intensos e ambientes sem gravidade.
Foi nesse contexto que surgiu um grupo improvável de voluntários. Eles ficaram conhecidos como os “Onze de Gallaudet”, um grupo de homens surdos recrutados no então Gallaudet College, hoje Universidade Gallaudet, em Washington, D.C., uma instituição especializada na educação de pessoas surdas.
Os participantes eram Harold Domich, Robert Greenmun, Barron Gulak, Raymond Harper, Jerald Jordan, Harry Larson, David Myers, Donald Peterson, Raymond Piper, Alvin Steele e John Zakutney.
Quase todos tinham algo em comum. Eles haviam perdido a audição ainda jovens após contrair meningite espinhal, uma infecção que atinge as membranas que envolvem o cérebro e a medula. Em alguns casos, a inflamação pode atingir estruturas do ouvido.
Foi o que aconteceu com muitos daqueles voluntários. A doença não afetou apenas a capacidade de ouvir, mas também danificou o sistema vestibular, uma estrutura do ouvido interno que ajuda o cérebro a perceber movimentos e manter o equilíbrio.
Quando esse sistema funciona normalmente, ele envia sinais sobre aceleração e posição do corpo. Em certas situações – como em barcos, carros ou aviões – esses sinais podem entrar em conflito com o que os olhos enxergam, provocando náusea e tontura. Esse fenômeno é conhecido como cinetose, ou enjoo de movimento.
Como resultado, os voluntários de Gallaudet quase não sentiam esse tipo de enjoo – tornando-os candidatos perfeitos para testes envolvendo movimentos extremos e mudanças de gravidade.
“Éramos diferentes de uma forma que eles precisavam”, disse Harry Larson, um dos participantes, segundo comunicado da Nasa.
Os experimentos
Grande parte dos experimentos aconteceu em instalações da Marinha em Pensacola, na Flórida. O programa era liderado por Ashton Graybiel, especialista em medicina aeroespacial.
Os testes combinavam medições médicas e tarefas físicas. Os pesquisadores monitoravam pressão arterial, realizavam eletrocardiogramas, analisavam sangue e urina e acompanhavam os movimentos dos olhos. Também pediam aos voluntários que descrevessem o que estavam sentindo durante cada experiência.

Um dos experimentos mais conhecidos acontecia em uma instalação chamada “Sala de Rotação Lenta”. Era um espaço circular de cerca de seis metros de diâmetro equipado com tudo o que uma pessoa precisa para viver por alguns dias: cama, pia, chuveiro, fogão e geladeira. A diferença é que a sala girava sem parar.
Em alguns testes, os voluntários passavam até dois dias dentro desse ambiente enquanto ele rodava a velocidades de até dez rotações por minuto. Durante esse período, precisavam realizar tarefas simples usadas para avaliar coordenação e percepção espacial. Entre elas estavam caminhar em linha reta, arremessar bolas ou encaixar objetos pequenos em orifícios.
Experimentos posteriores usaram um equipamento ainda mais sofisticado. A estrutura podia girar, inclinar e se mover sobre trilhos, simulando acelerações parecidas com as que astronautas enfrentariam em veículos espaciais.
Depois de passar horas ou dias nesses ambientes rotatórios, alguns participantes relataram uma dificuldade temporária para se readaptar ao mundo normal. Durante um tempo, caminhar em linha reta ou lançar uma bola na direção certa podia se tornar surpreendentemente difícil.
Os testes também incluíram voos parabólicos, usados para simular curtos períodos de gravidade zero. Nessas manobras, o avião sobe e desce rapidamente, criando momentos em que as pessoas dentro da cabine começam a flutuar.
Hoje esse tipo de aeronave é popularmente conhecido como “Cometa do Vômito”, porque muitos passageiros passam mal durante a experiência. Com os voluntários de Gallaudet, porém, isso quase nunca acontecia.

Outro experimento marcante ocorreu em 1964. Dez dos onze participantes embarcaram em um rebocador para uma travessia de cerca de 320 quilômetros pelo Atlântico Norte, entre o arquipélago de São Pedro e Miquelão e a costa da província canadense Nova Escócia.
A equipe escolheu de propósito uma rota conhecida por mares extremamente agitados. Durante a viagem, o navio enfrentou ondas de até 12 metros de altura e ventos fortes que faziam a embarcação balançar violentamente.
Os pesquisadores queriam observar como o corpo humano reagia a movimentos constantes e intensos. Enquanto cientistas e tripulantes lutavam contra o enjoo marítimo – muitos deles vomitando – os voluntários permaneciam perfeitamente bem. Alguns até aproveitaram para comer durante a tempestade.
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Os experimentos ajudaram cientistas a entender melhor como o corpo humano se orienta quando os sinais normais de gravidade desaparecem. Os testes mostraram, por exemplo, que grande parte do enjoo de movimento surge do conflito entre o que os olhos veem e o que o sistema vestibular percebe.
Como os voluntários praticamente não tinham esse sistema funcionando, eles não apresentavam náusea mesmo em situações extremas. Isso permitiu aos pesquisadores observar como o cérebro se adapta quando precisa confiar mais na visão e em outros sentidos para manter a orientação.
Durante muito tempo, porém, a história desse grupo permaneceu pouco conhecida. Isso começou a mudar em 2017, quando a Universidade Gallaudet inaugurou uma exposição dedicada aos participantes do estudo. A mostra reuniu fotografias, cartas, relatórios científicos e registros em vídeo das experiências realizadas entre 1958 e 1968.
Três dos voluntários ainda estavam presentes na abertura: Harry Larson, Barron Gulak e David Myers. Hoje, os chamados Onze de Gallaudet são lembrados como um grupo improvável que ajudou a resolver um problema crucial da exploração espacial. Eles nunca chegaram a viajar ao espaço, mas ajudaram a tornar essa viagem possível.
[Por: Superinteressante]
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