[Editado por: Marcelo Negreiros]
Enquanto civis sírios comemoravam em todo o país a queda do regime de Bashar al-Assad no domingo, muitos deram início a uma busca frenética por entes queridos que desapareceram à força durante o antigo governo. Multidões se dirigiram à prisão de Sednaya, a mais secreta e notória do país, símbolo de detenções arbitrárias, tortura e assassinato — e, sob o sol escaldante, enfrentaram quilômetros de engarrafamento para chegar ao local, publicou a rede americana CNN, que esteve na penitenciária.
Estabelecida no início dos anos 1980, numa pequena cidade a cerca de 30 km da capital, Sednaya foi usada pela família Assad para deter opositores do regime por décadas. Na prisão, conhecida como um “matadouro” por grupos de direitos humanos, estima-se que 13 mil pessoas tenham sido enforcadas entre 2011 e 2015, nos primeiros anos da guerra civil síria, segundo a Anistia Internacional. Não foi surpresa, portanto, quando os rebeldes que se insurgiram contra o regime se concentraram no local antes de avançar rumo a Damasco.
Após a fuga de Assad para a Rússia no domingo, imagens de prisioneiros sendo libertados de Sednaya foram divulgadas, e as buscas por conhecidos começaram. Na segunda-feira, muitos decidiram agir por conta própria e invadiram a prisão, impulsionados por rumores de que milhares ainda estavam presos nos níveis mais profundos da instalação, numa área subterrânea conhecida como “seção vermelha”. Quando a CNN chegou ao local, multidões gritavam “Allahu Akbar” (Deus é grande), e rajadas de tiros de celebração ecoavam no ar.
— Estão há dias tentando chegar na seção vermelha da prisão — disse Maysoon Labut, que estava na prisão em busca de seus três irmãos e o genro, à rede americana. — Não há oxigênio porque a ventilação parou, e todos podem morrer. Pelo amor de Deus, nos ajude.
Esse foi o rumor que impulsionou as multidões na segunda-feira: a ideia de que, em algum lugar na prisão, havia algum labirinto de celas ocultas com os desaparecidos. Não está claro, no entanto, se essa área sequer existe. A organização voluntária Defesa Civil Síria, também conhecida como Capacetes Brancos, enviou equipes especiais à penitenciária para perfurar e martelar o concreto na segunda-feira. Foi feito silêncio para que possíveis vozes de detentos fossem ouvidas, e um cão farejador deu apoio à busca, mas nenhuma entrada foi encontrada.
Mais tarde no mesmo dia, os Capacetes Brancos afirmaram não terem encontrado “nenhuma evidência de celas secretas ou porões desconhecidos”, nem “áreas fechadas ou ocultas dentro da instalação”. Eles anunciaram o fim da busca por possíveis prisioneiros e pediram às pessoas que evitassem espalhar informações falsas. A Associação de Detidos e Desaparecidos na Prisão de Sednaya (ADMSP) informou que todos no local foram soltos no domingo, e que as alegações sobre detentos presos no subsolo eram “infundadas” e “imprecisas”.
Mounir al-Fakir, ex-detento de Sednaya e membro fundador da ADMSP, estimou que cerca de 3 mil detidos foram libertados após a queda de Assad. À CNN, ele disse que a instalação tem um nível subterrâneo de celas, mas que não acredita que haja camadas ocultas abaixo disso. O desespero das famílias que vasculharam a prisão na segunda-feira, porém, reflete a agonia de esperar por anos sem qualquer pista sobre o destino de seus entes queridos.
Em uma das cozinhas do local, fichas de presos foram vistas espalhadas ao lado de uma espécie de forno, e familiares buscavam os nomes de seus conhecidos. A impressão é a de que os soldados que estavam na prisão fugiram rapidamente após o avanço inesperado dos rebeldes e não tiveram tempo de queimar todos os registros. Nas pequenas celas, ainda era possível ver sinais de fezes secas no chão, e na parede as famosas listras para marcar o tempo de confinamento. Alguns escreveram frases como: “punição, 60 dias”; “nunca há piedade para a nossa situação”; “agradável, apesar da tristeza” ou, simplesmente, “adeus”.
Administrada pela polícia militar e inteligência militar sírias, Sednaya começou a receber os primeiros detentos em 1987, 16 anos após o início do governo do presidente Hafeez al-Assad (1930-2000), pai de Bashar, publicou a rede britânica BBC. Uma vez totalmente operacional, a prisão abrigava duas principais instalações de detenção: o edifício branco, para militares suspeitos de deslealdade, e o edifício vermelho, principal centro prisional, destinado a opositores do governo, especialmente os suspeitos de envolvimento com grupos insurgentes.

Estima-se que entre 10 mil e 20 mil pessoas podiam ser mantidas entre os dois prédios, segundo relatos de ex-prisioneiros. Em 2017, um relatório da Anistia Internacional baseado em testemunhos de ex-guardas revelou que, após o início da guerra civil síria em 2011, o edifício branco foi esvaziado e preparado para receber manifestantes detidos por se oporem ao regime de Bashar al-Assad. À organização de direitos humanos, um antigo oficial afirmou que, depois de 2011, “Sednaya se tornou a principal prisão política da Síria”.
Ex-prisioneiros relataram que aqueles no edifício vermelho eram frequentemente submetidos a métodos brutais de tortura, incluindo espancamentos, estupros e privação de alimentos e medicamentos. Sob o edifício branco, havia o que testemunhas descreveram como uma “câmara de execução”. Um ex-guarda relatou que uma lista de prisioneiros a serem executados chegava na hora do almoço. Os condenados eram levados para uma cela no porão onde eram brutalmente espancados antes de serem enforcados.
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Prisioneiros que falaram à Anistia Internacional relataram que detentos do edifício vermelho eram “transferidos” durante a madrugada. Com os olhos vendados, eles eram levados por uma escada até a sala de execução, onde subiam numa plataforma de um metro de altura com 10 cordas para enforcamento. Segundo a Anistia, a sala foi expandida em 2012 com a adição de uma segunda plataforma contendo mais 20 cordas.
Estima-se que mais de 30 mil prisioneiros tenham sido executados ou morrido devido a tortura, falta de cuidados médicos ou inanição entre 2011 e 2018, segundo grupos de direitos humanos, publicou a BBC. Relatos de ex-prisioneiros indicam que pelo menos outros 500 detentos foram executados entre 2018 e 2021, de acordo com a Associação de Desaparecidos e Detidos na Prisão de Sednaya em relatório de 2022.
Em 2017, o Departamento de Estado americano afirmou que as autoridades sírias construíram um possível crematório no local para se livrar dos corpos de prisioneiros assassinados. Imagens de satélite divulgadas por investigadores dos Estados Unidos mostraram uma pequena ala anexa ao edifício branco que teria sido convertida num crematório para “ocultar a extensão dos assassinatos em massa ocorridos na prisão”. Os registros de satélite mostraram que o derretimento da neve no telhado do prédio sustentava essas alegações, indicando que pelo menos 50 prisioneiros eram enforcados por dia na instalação na época.

A prisão sempre foi fortemente protegida, com fortificações ao redor do complexo. O perímetro externo era patrulhado por 200 soldados das forças militares, enquanto outros 250 soldados da inteligência militar e da polícia militar eram responsáveis pela segurança interna, segundo o relatório da AMDSP de 2022. Tropas da 21ª Brigada da Terceira Divisão do Exército, conhecidas por sua lealdade ao regime, defendiam a prisão sob o comando de oficiais da minoria alauíta de Assad.
O regime de Assad sempre negou as acusações feitas por organizações internacionais, afirmando que eram declarações “infundadas”. A Anistia Internacional afirmou que, para famílias que suspeitam que seus entes queridos foram detidos em Sednaya, a queda do regime “abre a possibilidade de finalmente descobrir o destino de seus parentes desaparecidos, em alguns casos décadas depois”.
[Redação]
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