DAVID BOWIE: OS ÁLBUNS DEFINITIVOS E AS CANÇÕES …

Nesta semana em que David Bowie completaria 79 anos, revisitar sua obra é mais do que um exercício nostálgico. É entender como poucos artistas conseguiram equilibrar vanguarda, conceito e sucesso comercial sem abrir mão de identidade. Para fechar a semana, reunimos dois recortes complementares: os álbuns mais reverenciados pela crítica e as músicas que conquistaram o grande público.

Imagem, persona e ruptura estética

David Bowie se tornou um dos artistas mais respeitados da história da música ao entender, muito antes de seus contemporâneos, que a identidade visual podia ser tão poderosa quanto a própria canção. Nos anos 1970, seu impacto inicial veio de figurinos e personagens que chamavam atenção imediata, mas foi a forma como esses elementos se integravam a um repertório inquieto e inovador que consolidou sua relevância artística. Em Bowie, imagem, som e conceito nunca competiram entre si. Funcionavam como partes de uma mesma narrativa.

Crédito da imagem: David Bowie em ensaio fotográfico, 1973. Foto: Brian Duffy. Reprodução.

A criação de personas como Ziggy Stardust marcou uma ruptura definitiva na relação entre artista e palco. Os figurinos futuristas, muitos deles assinados pelo estilista japonês Kansai Yamamoto, transformaram apresentações em experiências visuais completas. Já a imagem eternizada na capa de Aladdin Sane, com o raio pintado no rosto, tornou-se um dos símbolos mais reconhecíveis da cultura pop do século XX. Em seguida, o personagem do Thin White Duke apresentou uma estética oposta: minimalista, fria e elegante, refletindo também mudanças profundas em sua abordagem musical.

Questionado à época sobre o visual andrógino e a recusa em se enquadrar em padrões tradicionais, Bowie tratava o tema com naturalidade desconcertante. Em entrevistas daquele período, deixou claro que o incômodo não partia dele, mas de quem o observava.

“Sempre senti que precisava expressar o que eu era por dentro. As pessoas pareciam muito mais incomodadas com isso do que eu”, afirmou certa vez.

Em outra ocasião, resumiu sua postura diante das cobranças por definições rígidas: “As pessoas queriam respostas definitivas sobre quem eu era. Eu nunca achei isso necessário”.

Essas transformações visuais não foram gestos aleatórios nem exercícios de provocação vazia. Bowie usava o figurino como linguagem, explorando temas como identidade, ambiguidade, gênero e liberdade criativa em um período em que essas discussões ainda causavam desconforto real. Ao fazer isso, ajudou a expandir os limites do pop, influenciando não apenas músicos, mas também a moda, o comportamento e a forma como artistas passaram a se posicionar culturalmente.

Esse domínio absoluto da imagem foi decisivo para que sua obra atravessasse gerações. Mais do que estética, Bowie construiu um método: cada fase visual preparava o terreno para novas ideias musicais, abrindo caminho para os álbuns que a crítica consagraria e para as canções que o grande público jamais deixou de ouvir.

Os álbuns mais celebrados de David Bowie

A discografia de David Bowie é marcada por um refinamento raro, resultado de um cuidado que envolve estética, conceito, repertório e proposta sonora, sempre associados a projetos artísticos de alto nível. Cada álbum revela múltiplas camadas de leitura, muitas vezes envoltas em símbolos, ambiguidades e provocações que Bowie jamais fez questão de definir por completo, reforçando o caráter aberto e instigante de sua obra.

Para chegar aos cinco álbuns mais conceituados da carreira de David Bowie, o portal da Antena 1 considerou três pilares fundamentais. O primeiro é a presença recorrente em listas especializadas de veículos como Rolling Stone, NME, Pitchfork, BBC e Mojo, publicações que historicamente moldam o debate crítico em torno da música pop e do rock. O segundo critério é o impacto estético e narrativo, avaliando como cada disco redefiniu linguagem, sonoridade ou persona artística. Por fim, pesou a influência exercida sobre outros artistas e movimentos, seja de forma direta ou como referência duradoura para gerações posteriores.

A partir desses parâmetros, chegamos a uma seleção que atravessa diferentes fases da carreira de Bowie, revelando não apenas seus momentos mais celebrados, mas também sua capacidade constante de reinvenção.

The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972)

Crédito da imagem: Capa do álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars. Arte de Terry Pastor. © RCA Records.

Lançado no início dos anos 1970, o álbum marca o momento em que Bowie transforma conceito em linguagem pop acessível. Ao criar Ziggy Stardust, um alter ego alienígena e ambíguo, ele constrói um disco que funciona como narrativa contínua, algo raro no rock da época. A crítica reverencia o álbum por sua coesão, ousadia estética e capacidade de unir teatralidade, melodias fortes e comentário cultural. Na carreira de Bowie, Ziggy Stardust foi o ponto de virada definitivo, consolidando sua imagem como artista camaleônico e abrindo espaço para uma relação inédita entre música, personagem e performance.

Station to Station (1976)

Crédito da imagem: Capa do álbum Station to Station. Fotografia baseada em frame do filme The Man Who Fell to Earth. © RCA Records.

Gravado em um período de transição pessoal e artística, Station to Station reflete um Bowie dividido entre excessos, experimentação e controle estético. O disco introduz o personagem do Thin White Duke e antecipa mudanças sonoras que ganhariam forma nos anos seguintes. A crítica destaca o álbum pela sofisticação musical e pela tensão interna que atravessa as faixas, misturando soul, rock e elementos eletrônicos. Em termos de carreira, ele representa a ponte entre o Bowie americano e o europeu, preparando o terreno para a chamada Trilogia de Berlim.

Low (1977)

Crédito da imagem: Capa do álbum Low. Fotografia de David Bowie durante as filmagens de The Man Who Fell to Earth. © RCA Records.

Considerado um dos trabalhos mais influentes de sua trajetória, Low rompe com estruturas tradicionais de canção e aposta em climas, texturas e atmosferas. Dividido entre faixas mais diretas e peças instrumentais experimentais, o álbum foi inicialmente recebido com estranhamento, mas rapidamente se tornou referência crítica. Sua importância reside na coragem de Bowie em abandonar fórmulas de sucesso para explorar novas possibilidades sonoras. Low redefiniu sua relação com o estúdio e influenciou diretamente o desenvolvimento da música eletrônica, do pós-punk e do art rock.

“Heroes” (1977)

Crédito da imagem: Capa do álbum “Heroes”. Fotografia de Masayoshi Sukita. © RCA Records.

Lançado no mesmo ano de Low, “Heroes” aprofunda a exploração iniciada em Berlim, equilibrando experimentalismo e emoção. O disco ficou marcado pela faixa-título, que se tornou um dos maiores símbolos de sua carreira, mas vai além dela ao criar paisagens sonoras densas e introspectivas. A crítica valoriza o álbum pela maturidade artística e pela capacidade de traduzir sentimentos universais em uma estética minimalista. Na trajetória de Bowie, representa o momento em que inovação e comunicação direta com o público encontram um raro ponto de equilíbrio.

Blackstar (2016)

Crédito da imagem: Capa do álbum Blackstar. Design de Jonathan Barnbrook. © Columbia Records.

Último álbum lançado em vida, Blackstar passou a ser reconhecido como um dos encerramentos mais impactantes da história da música popular. Gravado enquanto David Bowie enfrentava, de forma reservada, um delicado quadro de saúde, o disco reúne jazz experimental, eletrônica e letras carregadas de simbolismo. A crítica destacou a coragem artística do projeto e a maneira como Bowie transforma temas como finitude, transformação e criação em uma obra coesa, densa e desafiadora. Mais do que um ponto final, Blackstar reafirma a coerência de um artista em permanente movimento — um projeto cuja dimensão simbólica e narrativa será explorada mais adiante nesta matéria.

As músicas mais populares de David Bowie no rádio (e na Antena 1)

Quando a missão é selecionar as músicas mais famosas de um artista, a tarefa raramente é simples. E, quando o artista em questão é David Bowie, ela se torna quase impossível. Aqui, o recorte é essencialmente radiofônico, por razões evidentes, e não se baseia apenas em prestígio crítico.

Entra em cena, portanto, a combinação entre execuções recorrentes, desempenho histórico em paradas e, sobretudo, permanência cultural. São músicas que atravessaram décadas, migraram entre formatos, ganharam novas leituras em filmes, séries e campanhas publicitárias e continuam dialogando com diferentes gerações de ouvintes.

A seleção a seguir reúne faixas que representam esse equilíbrio entre impacto imediato e longevidade, contemplando diferentes fases da carreira de David Bowie e sua presença constante no rádio.

Top 10 das canções de David Bowie, com faixas que ampliam o recorte radiofônico

“Heroes”

Lançada em 1977, a canção se tornou um hino emocional que extrapola seu contexto original. No rádio, atravessou décadas como símbolo de superação e intensidade dramática. Representa o auge do período berlinense e consolidou Bowie como artista capaz de unir vanguarda e apelo universal.

“Let’s Dance”

O maior sucesso comercial da carreira de Bowie. Com produção acessível e forte apelo rítmico, dominou as paradas nos anos 1980 e segue como uma das músicas mais executadas de seu catálogo. Marca a fase em que Bowie assume definitivamente o diálogo com o pop de massa sem abrir mão de identidade.

“Space Oddity”

A música que apresentou Bowie ao mundo. Desde o lançamento, mantém presença recorrente no rádio, impulsionada por seu tema espacial e carga simbólica. Representa o início de uma carreira marcada pela curiosidade e pela narrativa.

“Life on Mars?”

Clássico absoluto do rádio adulto contemporâneo. Nunca foi um hit óbvio de pista, mas se consolidou pela força melódica e lírica. Encaixa-se no período de afirmação artística do início dos anos 1970 e ganhou novas gerações graças a filmes e séries.

“Changes”

Uma síntese perfeita da filosofia de Bowie. A música virou hit tanto pelo refrão marcante quanto pelo discurso sobre transformação. No rádio, tornou-se quase autobiográfica, atravessando fases da carreira e da cultura pop.

“Starman”

Responsável por levar Bowie ao grande público britânico após uma performance histórica na televisão. No rádio, funciona como porta de entrada para o universo Ziggy Stardust e simboliza o momento em que personagem e música se fundem.

“Rebel Rebel”

Guitarra direta, atitude e identidade. Tornou-se presença constante em playlists e programações voltadas ao rock clássico e ao pop dos anos 1970. Representa a fase em que Bowie assume uma postura mais crua e acessível.

“Ashes to Ashes”

Um retorno sofisticado ao personagem Major Tom, agora sob outro olhar. Foi sucesso imediato no rádio europeu e permanece relevante pela atmosfera melancólica e produção refinada. Marca a transição para os anos 1980.

“Modern Love”

Uma das faixas mais radiofônicas do catálogo. Ritmo acelerado, refrão memorável e alto índice de execuções até hoje. Representa o Bowie confiante do período Let’s Dance.

“China Girl”

Embora originalmente composta anos antes, ganhou força definitiva na versão dos anos 1980. Teve forte desempenho em paradas e permanece presente no rádio graças à produção marcante e ao impacto visual associado ao videoclipe.

Faixas (bônus) que ampliam o recorte radiofônico

Dentro desse contexto, algumas músicas merecem destaque especial por sua força transversal no rádio:

“Under Pressure”

Colaboração histórica com o Queen, “Under Pressure” permanece como uma das faixas mais emblemáticas da carreira de David Bowie, com presença constante na programação da Antena 1 desde os anos 1980. No vídeo acima, Bowie interpreta a canção em uma apresentação rara gravada em 29 de janeiro de 1996, em Amsterdã, durante o programa de TV Karel, exibido pela AVRO Television, ao lado de Gail Ann Dorsey e Carlos Alomar.

“As the World Falls Down”

Trilha do filme Labyrinth, tornou-se recorrente no rádio adulto e em programações especiais, reforçando o lado mais sensível de Bowie.

“This Is Not America”

Parceria com Pat Metheny, muito executada no rádio nos anos 1980 e associada a um período mais reflexivo e político da carreira.

A despedida do Camaleão e o projeto Blackstar

Crédito da imagem: Ilustração de David Bowie para o álbum Blackstar. Arte: Helen Green. Reprodução.

Além da impressionante trajetória artística, David Bowie construiu um diferencial raro mesmo entre grandes nomes da música: a forma como transformou o drama da própria finitude em linguagem artística. Sem recorrer a discursos diretos ou explicações fáceis, Bowie incorporou o tema da morte à sua obra com lucidez, simbolismo e coragem, convertendo um processo íntimo em criação estética de alto impacto.

Ao fazer isso, não buscou comoção gratuita nem heroísmo póstumo. Preferiu a arte como mediação, deixando pistas, imagens e canções abertas à interpretação. Um gesto que reforça sua singularidade e ajuda a explicar por que sua obra segue sendo revisitada, debatida e sentida muito além de seu tempo.

Lançado poucos dias antes de sua morte, Blackstar se impôs rapidamente como um dos projetos mais complexos e simbólicos da carreira de Bowie. À época, o artista mantinha em sigilo o diagnóstico de câncer, o que fez com que o álbum fosse inicialmente interpretado apenas como mais uma guinada estética. Com o passar do tempo, no entanto, tornou-se impossível ignorar o caráter de despedida que atravessa suas letras, imagens e escolhas sonoras.

As canções de Blackstar operam em múltiplos níveis. Há referências diretas à finitude, à transformação e ao desaparecimento, mas sempre envoltas em metáforas, personagens e imagens enigmáticas. Bowie evita qualquer discurso literal sobre a doença ou sobre a morte. Em vez disso, constrói uma narrativa fragmentada, quase ritualística, em que corpo, tempo e identidade se dissolvem. A opção por uma sonoridade marcada pelo jazz experimental e por estruturas pouco convencionais reforça essa sensação de deslocamento e ruptura.

Os videoclipes produzidos no contexto do álbum ampliaram ainda mais esse universo simbólico e cumprem papel central na construção dessa despedida. Dirigido por Johan Renck, o vídeo de “Blackstar” apresenta imagens que se tornariam fundamentais para a leitura posterior da obra: o astronauta caído, os rituais, os olhos vendados e a figura de um líder espiritual em declínio. Lançado em 2015, o clipe funciona como o primeiro movimento visual desse projeto narrativo.

Já “Lazarus”, divulgado poucos dias antes da morte de Bowie, tornou-se o registro audiovisual mais diretamente associado à ideia de encerramento. No vídeo, o artista aparece fragilizado, deitado em uma cama de hospital, com os olhos cobertos por botões, em imagens que dialogam de forma contundente com a letra e com o momento vivido. É amplamente considerado o adeus visual de Bowie ao público.

Após sua morte, foi lançado ainda o vídeo de “I Can’t Give Everything Away”, que funciona como um epílogo do projeto. A peça reutiliza e reorganiza imagens dos dois clipes anteriores, reforçando a ideia de fechamento e deixando claro, já no título, o gesto final do artista: não entregar todas as respostas, mas deixar o essencial.

O corpo frágil, os olhos vendados, o astronauta tombado e os enquadramentos cuidadosamente calculados sugerem uma saída de cena consciente e rigorosamente encenada. Não se trata de autopiedade nem de confissão explícita, mas de um artista que transforma a própria condição em matéria estética, mantendo até o fim a coerência entre obra, discurso e imagem.

Nesse sentido, Blackstar não funciona apenas como epílogo, mas como reafirmação de um método artístico que Bowie cultivou ao longo de toda a carreira. Ao escolher a arte como forma de atravessar a experiência da doença, ele reafirmou sua recusa em oferecer respostas fáceis, encerrando sua trajetória da mesma forma como a construiu: provocando, desafiando e convidando o público a interpretar, não a consumir passivamente.

Uma estrela que não se apaga

Crédito da imagem: David Bowie em ensaio fotográfico nos anos 1970. Foto: Masayoshi Sukita. Reprodução.

Celebrar David Bowie aos 79 anos não é apenas revisitar o passado. É reconhecer uma obra que segue dialogando com o presente, influenciando artistas, estilos e gerações que talvez nem tenham vivido seus lançamentos originais. Um legado que não se encerrou com o tempo e que, assim como esta matéria, permanece em movimento, pronto para ser redescoberto e celebrado nas próximas décadas.

[Antena 1]

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