[Editado por: Marcelo Negreiros]
O “debate político” mostrou que cadeiras servem para simbolizar poder e, absurdamente, para tentar eliminar competidores. O episódio prova a força e a profundidade daquilo que nós, antropólogos sociais, chamamos de cultura ou estilo de vida. A cadeirada desnudou as dificuldades de uma sociedade hierárquica ante tentativas de operar, seguindo um processo eleitoral democrático – competitivo e igualitário – como o velho jogo das cadeiras. Um processo semelhante ao do esporte, do trânsito, da fila, estruturado pela concorrência livre e igualitária.
Veja o que acontece – diz o barão que permanece dentro de nós, “brancos letrados e politizados” – quando a gente deixa “todo mundo” disputar uma prefeitura tão importante como a de São Paulo. Num sistema social graduado, ouvir reacionários, hiperindividualistas agressivos sem nenhum compadrio político, ao lado do nosso batido elitismo revolucionário, é, para uma sociedade alérgica à equidade, um enorme risco. Sobretudo porque a nossa esfera política se define por esperteza, malandragem, mentira, corrupção, anistia e privilégio.
É complicado, como tenho reiterado neste espaço, competir num sistema no qual todos, como nos bons tempos da escravidão e do império, deveriam “saber o seu lugar!”
Quando a mentalidade hierárquica se confronta com a igualdade democrática, como ocorre no processo eleitoral, surge o particularismo do “você sabe com quem está falando?” concretizado numa cadeirada. A violência seria a resposta para os abusos verbais. A transformação do assento em tacape provaria quem seria mais “homem” numa estrutura social que mistura questões públicas cruciais com machismo de botequim.
[Redação]
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