Dos 15 pacientes acompanhados, 14 registraram melhorias depois de usarem medicamento feito com extrato de maconha enriquecido com canabidiol
Uma pesquisa recente da Universidade de Brasília (UnB) abre perspectivas promissoras para o uso da cannabis no tratamento dos sintomas do autismo. Os poderes medicinais da maconha vêm sendo objeto de estudos científicos em vários países, mas a maioria se concentra no tratamento de problemas como esquizofrenia, epilepsia, demências, dores crônicas e mal-estar provocado pela quimioterapia. O trabalho da UnB é um dos três únicos no mundo que investigam essa aplicação específica – os outros dois estão sendo feitos em Israel.
Em 2014, o professor Renato Malcher-Lopes, do Departamento de Ciências Fisiológicas da universidade, fez uma revisão bibliográfica em que apontou a hipótese de que a cannabis seria benéfica para autistas. De acordo com ele, estudos anteriores realizados com pacientes epilépticos que também eram autistas mostraram efeitos positivos, o que justificaria experimentar a planta como alternativa de tratamento para o segundo problema.
“A epilepsia é caracterizada por um excesso de atividade dos neurônios, uma condição que também está presente no autismo”, explica o professor.
O autismo costuma ser identificado na primeira infância e pode se manifestar em diferentes graus: geralmente há dificuldade de comunicação e de interação social, mas também podem ocorrer alterações de comportamento, como agitação e agressividade.
Depois que o primeiro artigo de Renato foi divulgado, pais de crianças autistas procuraram o pesquisador e se ofereceram como voluntários para uma pesquisa que investigasse a hipótese aventada. Renato encarou a missão, apoiado pela Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (Ama+me), que reúne defensores da causa.
Após cumprir as etapas legais necessárias para a aprovação de um projeto de pesquisa desse tipo, o cientista começou a acompanhar 15 pacientes ligados à Ama+me que fariam uso de um extrato de cannabis enriquecido com canabidiol. “A associação conseguiu que um laboratório de outro país doasse a medicação, o que nos permitiu ter bastante controle sobre os efeitos apresentados, pois todos começaram a usar o mesmo medicamento praticamente ao mesmo tempo”, relata.
Após cumprir as etapas legais necessárias para a aprovação de um projeto de pesquisa desse tipo, o cientista começou a acompanhar 15 pacientes ligados à Ama+me que fariam uso de um extrato de cannabis enriquecido com canabidiol. “A associação conseguiu que um laboratório de outro país doasse a medicação, o que nos permitiu ter bastante controle sobre os efeitos apresentados, pois todos começaram a usar o mesmo medicamento praticamente ao mesmo tempo”, relata.
Depois de nove meses de acompanhamento, 14 dos 15 pacientes registraram melhorias, de acordo com o relato dos pais. “Os resultados mais impactantes foram a redução da hiperatividade, do déficit de atenção e das crises nervosas – as quais, muitas vezes, envolvem autoagressividade –, além de melhora na qualidade do sono e na interação social”, afirma o neurocientista.
O trabalho foi publicado em outubro do ano passado na revista Frontiers in Neurology, plataforma de acesso livre reconhecida mundialmente na área de neurologia. Agora, o grupo de pesquisa liderado por Renato pretende buscar outras evidências sobre a efetividade do tratamento.
O neurocientista, que é pai de uma criança autista, acredita que a pesquisa dá um passo importante para alavancar outras investigações científicas sobre o uso medicinal do extrato da maconha. “É muito importante livrar a ciência e a academia de amarras preconceituosas, que podem impedir o desenvolvimento de tratamentos que melhorem a vida das pessoas. Agradeço à Universidade de Brasília pela oportunidade de levar adiante essa pesquisa”, diz Renato Malcher-Lopes.
Com informações de Metrópoles
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