Por:
Marcos Nogueira
-Bom dia, Boca de todos nós!
-Bom dia, sem essa de “todos nós!”.
-Já invocando? Quis dizer que você é amigo da gente!
-Sei, e a lua falta um pedaço!
-Homi! Mas, deixa pra lá. Não se desentorta um galho envelhecido!
E as novas, Boca?…
-Novas que já são velhas e outras que já esperávamos.
-Não entendi.
-Não entendeu o quê?…
-Novas que são velhas!…
-Entenda, intelectual, não existe novidade no que eu soube. É um filme reprisado, com final igual. Apenas mudaram alguns atores. Quer dizer: aumentaram o número de artistas… artistas que são bandidos. Aliás, nesse “longa” onde não existem mocinhos!
-Explica, Boca do Inferno!
-Só se for o da Bahia! Inferno, inferno, é a tua madrinha!
-Conta, Boca do Inferno baiano!
-Ah, assim tá bom! Então quer saber! Não leu as últimas notícias? Pois lá vai!…
– Espere, lá vem doutora Edilene!
-Lima de Sousa, com S. E bonita por natureza!…
-Jorge Ben!…
-O quê?
-Me lembrei da letra da música!
-Como vai, jornalista! Que prazer! Sempre perguntava pela sua pessoa. Pode perguntar ao Boca!
-Verdade, doutora. Ele anda meio de queda pela senhorita até pintou os cabelos de novo!
-Isso é gozação, Boca do Inferno. E agora é inferno, inferno, dos vermelhinhos. Despeitado!
-Calma, pessoal. É como eu disse naquele dia, parecem o gato e o rato! Só vivem brigando!
-É, não, doutora Edilene, é que ele tem raiva de mim, porque eu leio e sou mais novo!
– Era só o que faltava, Zé do Povo querendo ser criança! Toma a chupeta, neném! Se fosse noutro local, iria te mostrar o consolo!
-Não adianta, não posso fazer um asno falar inglês!
-E quem quer falar inglês?…
-Tá vendo, jornalista, ele admite que é burro!
-Burro é teu pai e um bando de jumentinhos, que são teus irmãos, e tu vais na garupa! Chupa, que é de manga! kkkkkk
-Tá bom, gente! Desejo saber as novidades!
-E era isso que íamos falar!…
-Iamos, não, vamos!…
– Pois começa, Boca. Abre tua latrina!…
-Latrina é a boca de tua mãe! Conto mais não!
-Tô brincando, homem de Deus! Não se pode nem dizer uma brincadeira! Me desculpa!
-Pela milésima vez, vou perdoar!
-O gato e o rato, kkkk
-É, não, jornalista. É ele quem começa, sempre! Mas vamos ao que interessa! Olhem, a Prefeitura, digo o prefeito e seus parceiros, aproveitaram o fato da epidemia para gastarem o dinheiro que veio do governo federal, de todas as maneiras. Foi isso que ouvi. Sem licitação ou com licitação suspeita. E agora mesmo se descobriu uma possível firma fantasma, lá da capital, que faz limpeza de casa. E ela vendeu quase um milhão de reais, oferecendo um material que não é do seu ramo. E no local da suposta firma, apenas uma residência. Isso não é afrontar a justiça e achar que somos idiotas, não?…
-Sentimento da impunidade! Essa é a realidade! E olha, Boca, que na STRANS também ocorreu isso. Alguns vereadores denunciaram vários casos, mas correu uma mão de dinheiro e emprego na Prefeitura, calando os nobres parlamentares e grande parte da imprensa!
-Expliquem direitinho! Vou anotar tudo.
-Tudo bem, Edilene. Posso chamar de Edilene?…
-Já deveria ter feito há tempo. Ia falar isso. Sem o ” doutora!”
-Pois, jornalista, esse prefeito, que não foi eleito pelo povo, é um sujeito tido como prepotente. Pode ser um bom médico, mas como pessoa humana é insensível. Ele não tem coração, tem moela. Não tem sentimentos, não frequenta uma igreja e o deus dele é o poder. Mente mais do que o melhor mentiroso, e foi o responsável pela condenação do deputado que se elegeu prefeito. E o estranho é que ele apoiou sua candidatura e ainda colocou o poder público à disposição, gastando fábulas de dinheiro, conforme comentários, para alcançar seu objetivo. O cara, numa melhor definição, é louco!
-E por que não o denunciam à justiça!…
-Edilene, os vereadores têm o rabo preso, de uma forma ou de outra, e as pessoas ficam com medo de sofrerem represálias
-Volto a dizer: e a justiça?
– Ora, jornalista, é preciso se fazer uma auditoria, se verificar tudo dentro da Prefeitura, se denunciando ao MPF e PF.
– Entendi…
-Jornalista, um vereador o chamou disso e daquilo. Disse que ele tinha capangas. E falou bem claro. Não pediu segredo. E ele sabe que é verdade.
-Boca, e a posição dele, agora, após a eleição?…
-Tá se valendo do fato do mandato se encerrar em dezembro, pois os milhões que vieram não entraram nem nos cofres da edilidade, pelo que ouvi dizer. E o setor para o qual veio a grana, a saúde, foi cortada a gratificação dos funcionários, o pagamento começa a atrasar e não há perspectivas de melhoras
-Estão se valendo do governo estadual
-É, Zé do Povo, mas o governador não pode deslocar verba para obras inacabadas, quando já houve dotação para tal. Essas construções estão em ruínas, como é o caso de uma UPA! Além do mais, alguns dos vereadores recém-eleitos garantem investigar todas as irregularidades da gestão, desde que o prefeito legítimo foi afastado.
– Quem foi afastado?…
-O prefeito que foi eleito. Afastado, sem julgamento, sem se saber qual a sua culpa, somente porque quiseram afastar.
-É, a coisa tá complicada!
– E bota complicação nisso, jornalista! Vamos aguardar o que nos reserva a nova Câmara. Se fizerem um trabalho bom!…
-Como diria um saudoso deputado: du vi dê o dó! Mais gente, já estão oferecendo é milhares de reais, pelo voto para presidente da mesa diretora, além de vários cargos!
– E, se for assim, tudo como dantes, no quartel de Abrantes!
-Só falta dizer: Tchau que já me vou!…
– Doutor Raiz. Acertei?…
– Certo, certíssimo! A jornalista está se acostumando. É de onde?…
-Do Rio de Janeiro, fornada pela PUC. Estou fazendo um trabalho sobre o Nordeste e coronelismo político.
-Pois encontrou o lugar certo. Aqui ainda é tudo de família para família.
– Mas tem que ter dinheiro, também!
– Se não for incômodo, Edilene aceita tomar um refrigerante?…
– Eu não disse! Olha a cantada!…
– Que cantada, Boca de molambo. Tô te convidando, também!
– Então vamos os três!…
-Falou, Edilene. Agora ele fica só na vontade!
– Vai te lascar, Boca de bicheira!
– Eita povo pra brigar!
– A senhorita tem um sotaque bonito!
-Agora é tu, né, Boca. Vou ficar calado!
*Marcos Nogueira é jornalista
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