Em uma viagem pela América Latina em 1960, Edson Leite, diretor artístico da hoje extinta TV Excelsior, se encantou pelas telenovelas diárias da Argentina e do México. De volta ao Brasil, decidiu comprar os direitos de um folhetim do argentino Alberto Migré para implantar o modelo no país, contratando a roteirista mineira Dulce Santucci para adaptar o texto.
Nascia assim, em 22 de julho de 1963, 2-5499 Ocupado, novela estrelada por Glória Menezes e Tarcísio Meira que seria exibida, em fase inicial de testes, às segundas, quartas e sextas — e, em um mês, converteu-se na primeira produção do gênero transmitida diariamente no país.
A efeméride dos sessenta anos de sua estreia, que se completam nesta semana, ilumina uma relíquia arqueológica da TV nacional. A trama de 2-5499 Ocupado não era das melhores: Emily (Glória), uma detenta que também trabalhava de telefonista na prisão, atende a uma ligação do advogado Larry (Meira), que havia discado para lá por engano, e os dois acabam se apaixonando. Ainda que precária, a novela virou fenômeno. “Muito do sucesso deveu-se ao talento do casal de protagonistas”, analisa Mauro Alencar, especialista em teledramaturgia.
Definida como “chata e ruim” por Tarcísio (1935-2021) em uma entrevista à Globo em 2010, 2-5499 Ocupado foi produzida de modo improvisado e teve 42 capítulos gravados e transmitidos por videoteipes. Passadas seis décadas de sua estreia, ela sintetiza quanto o gênero evoluiu desde então: após tomar um banho de loja na Globo da era Boni, nos anos 1970, as novelas se converteram em produtos culturais do país — inclusive para lustrar nossa imagem lá fora, via exportação até para a China.
Exumar a curiosidade do passado expõe um fato incontestável: aquele formato de exibição diária, que alcançaria seu auge nas décadas seguintes graças a produções como Roque Santeiro (1985) e Vale Tudo (1988), hoje é coisa em extinção. Vão longe os dias em que os folhetins nacionais monopolizavam o horário nobre.
Apesar da queda flagrante, as notícias sobre a morte da novela são exageradas — e injustas. A audiência caiu, afinal, porque as pessoas mudaram radicalmente seus hábitos a partir do advento da TV paga e, notadamente, da explosão da internet e do streaming. Hoje, tudo concorre com elas — e, afora uma franja das gerações mais velhas e das classes D e E, ninguém mantém o hábito de sintonizar a TV no sofá toda noite. A teledramaturgia vem se adaptando em busca de engajamento nas redes sociais — que se tornaram não só um novo termômetro de sucesso, mas a vitrine em que as novas gerações assistem aos melodramas, em lugar da velha TV.
Agora, consome-se as novelas de maneira fragmentada e “à la carte”, sob a forma de drops no TikTok ou Twitter. Fazem sucesso no momento nessas arenas virtuais as cenas de flerte atrapalhado do garçom Kelvin (Diego Martins) e do peão Ramiro (Amaury Lorenzo) na trama das 9 de Walcyr Carrasco. Vídeos com o possível casal gay chegam a bater mais de 280?000 visualizações só no perfil da emissora no Twitter. De acordo com dados da Globo, as três novelas da emissora (além de Terra e Paixão, Amor Perfeito, das 6, e Vai na Fé, das 7) somam 129 milhões de views e 4,5 milhões de menções na rede social.
Bem mais periclitante é a situação das novelas sob outro aspecto: se nos anos que se seguiram à sua estreia diária elas pautaram o comportamento e os debates no país, sua força como formadora de opinião se esvaiu um bocado. Os folhetins hoje correm atrás das pautas lançadas na internet, muitas vezes tateando sem êxito as temáticas capazes de mexer com as pessoas. Criadora de Vai na Fé e das raras profissionais do ramo que têm conseguido engajar os jovens, Rosane Svartman lançou recentemente um livro em que analisa o futuro da novela no Brasil e vislumbra caminhos para o gênero.
De fato, não há antídoto melhor para manter esse patrimônio nacional vivo.
Entrevista com Mauro Alencar:
Pergunta: Como foi a reação do público a 2-5499 Ocupado, primeira novela diária do Brasil?
Mauro Alencar: De modo geral, a reação foi boa e a audiência correspondeu. Muito do sucesso deveu-se ao talento e carisma do casal de atores Glória Menezes e Tarcísio Meira.
Pergunta: O que mais diferencia a novela dos anos 1960 em relação às de hoje?
Mauro Alencar: A partir de 1970, a novela passou a sintetizar mais o cotidiano brasileiro ao retratar comportamentos, promover discussões, ampliar questionamentos e jogar luz sobre temas ainda não contemplados. Ganhou uma identidade brasileira ao expor conflitos sociais e econômicos, assim como nossos valores e história.
Pergunta: O que esperar do futuro dos folhetins no Brasil?
Mauro Alencar: A novela já não tem a mesma representatividade de outrora. Porém o gênero segue em produção sistemática e é parte fundamental da nossa indústria cultural. Tanto que agora está se adaptando ao streaming.
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