[Editado por: Marcelo Negreiros]
Nos dirigimos aos trabalhadores da educação do estado de MG, sobretudo aos e às várias que saíram da última Assembleia insatisfeitos e se perguntando o que fazer. Buscamos contribuir na resposta a essa pergunta a partir de um balanço de como vem se nossas lutas e uma proposta de como avançar, que passa pela necessidade de superar pela esquerda a política de conciliação de classes da direção estadual do SindUTE-MG.
Uma disposição de luta desmobilizada pelo SindUTE-MG
A Assembleia começou com um anseio por greve da maior parte dos presentes, com gritos de “greve, greve, greve…” em resposta à proposta da direção estadual do SindUTE-MG de fazer, mais uma vez, paralisações parciais dias 4, 5 e 6, e depois 11, 12 e 13, com uma nova Assembleia com indicativo de greve no dia 13. Mas a direção estadual do SindUTE-MG se esforçou em questionar a força da nossa categoria para levar adiante a luta, pregando a desconfiança dos colegas uns nos outros e chegando ao cúmulo de intimidar professores novatos e contratados por participarem ativamente da Assembleia, acusando-os de não serem da categoria.
Isso só foi possível restringindo as vozes da base e da oposição, inscrevendo apenas dez falas de pessoas escolhidas como bem quer a mesa de condução da assembleia, composta integralmente por representantes da direção estadual. Dentre as pessoas que não conseguiram se inscrever estavam não apenas coletivos de esquerda que atuam na categoria, mas trabalhadoras da base e dos interiores que enfrentaram horas de caravana, sequer haviam almoçado para estar na Assembleia e poder falar, mas não tiveram esse direito.
Após essas poucas falas, a votação foi feita em um espaço onde não era possível visualizar o conjunto dos votantes da Assembleia, não tendo sido considerados vários votos a favor da greve. Esse conjunto de fatores fez com que vários trabalhadores saíssem descrentes da luta. A todos esses, nos dirigimos fazendo um chamado a que usemos o chão da escola e a comunidade escolar como um verdadeiro campo de batalha contra o governo empresarial e privatista de Romeu Zema, batalhando pelo fortalecimento dos nossos espaços de organização de base, combatendo as burocratizações da direção estadual do SindUTE-MG para impedir com que os trabalhadores tomem a luta em suas mãos.
Nós do Coletivo Nossa Classe Educação defendemos na Assembleia a greve por tempo indeterminado a partir de terça-feira (4), junto a outros coletivos da esquerda e vários trabalhadores independentes, e, batalhando por uma greve que fosse forte, apresentamos a proposta de que na segunda-feira (3) retornássemos às escolas com a tarefa de construir um comando de greve com representantes por turno e por escola eleitos pelas bases, em um processo que serviria para politizar e mobilizar. Um comando assim teria que ser o elo entre uma escola e outra, uma região e outra, para que as ASBs saiam dos banheiros e das cozinhas para ir às ruas se manifestar, para que o professor designado que, com novo ensino médio mal consegue completar seu cargo, saia das plataformas que Zema quer nos impor para poder organizar atividades de luta, como panfletar para a comunidade escolar, para que as demandas de cada escola sejam levadas em conta, para que nenhum trabalhador abaixe a cabeça aos assédios de direções.
Poderíamos ter entrado em greve, unificando nossas forças com esses trabalhadores e com a UEMG, universidade cujo carrasco é justamente Romeu Zema, e está também em greve. Mas a direção do SindUTE-MG tem fugido disso como da cruz. As ameaças de multas e judicialização, que são um ataque estrondoso de Zema à nossa categoria por via de atacar o nosso sindicato, fazem ainda mais necessário enfrentar com a maior força que temos esse governo. E a maior força que temos neste momento é nos unificar com as greves da educação em curso.
Zema é mais um entre os governadores de extrema direita e bolsonaristas que aprofundam medidas anti-greve contra trabalhadores como é, também, a imposição de pagamento de paralisações em até 60 dias. Mas nada disso pode ser usado para não lutarmos ou para não ter deflagrada nossa greve como recorrentemente vem alegando a direção do SindUTE-MG. A fundação do próprio sindicato se deu em meio a fortes greves contra a ditadura militar ao longo de 1979, em que nossos companheiros na época saíram à luta e à greve, sem aceitar as amarras autoritárias da ditadura militar contra a luta de trabalhadores e de estudantes. Um assunto tão sério como esse não pode ser usado pela direção como justificativa para frear sua base.
A conciliação de classes fortalece a extrema direita: temos que batalhar por uma política de organização dos trabalhadores para lutar de forma independente dos governos e dos patrões
É justamente para retomar o sindicato para a luta que batalhamos por uma política de independência de classe. O desgaste criado pela direção estadual com paralisações isoladas e boicote dos espaços de organização de base dos trabalhadores reflete uma política de confiança no judiciário, nos deputados da ALMG – mesmo aqueles de direita e extrema direita -, e até mesmo nas negociações entre quatro paredes com Zema, e não em nossa luta. É a velha política de conciliação de classes do PT, partido que dirige o nosso sindicato e também o governo federal, e que sempre está disposto a apertar a mão dos nossos inimigos e a calar nossas lutas para não atrapalharmos seus acordos.
Isso só desarma a categoria na luta contra os ataques de Zema. Tanto assim que hoje é o mesmo governo Lula/Alckmin que faz uma grande operação para tentar derrotar a principal greve em curso dos servidores das universidades e institutos federais, negociando com um sindicato não reconhecido pelos trabalhadores, o Proifes, para acabar com a greve e impor 0% de reajuste em 2024. Essa política serve apenas para governadores da extrema direita imporem nos estados reajustes de fome como faz Zema em MG. Ao mesmo tempo em que é o mesmo governo federal que impulsiona o maior plano Safra da história, fortalecendo um dos pilares do bolsonarismo que é o agronegócio. A conciliação de classes fortalece a extrema direita e é tarefa das nossas lutas combatê-la.
Nós do Coletivo Nossa Classe Educação, que construímos uma oposição de esquerda à direção estadual do SindUTE-MG, viemos construindo todas as paralisações nas escolas onde trabalhamos, ao mesmo tempo que debatemos abertamente contra a política de conciliação de classes da direção estadual do SindUTE-MG. É por isso que as nossas falas foram respondidas com um desprezo chamativo pelo mesmo membro da direção estadual, muito “coincidentemente” inscrito depois de nós nos três últimos espaços da nossa categoria.
Voltar às escolas e fortalecer nossa luta: o SindUTE-MG tem que organizar reuniões de representantes de base em todas as subsedes
Agora há muitos colegas se questionando se vão fazer as próximas paralisações. Sabemos que a política da direção estadual levará a desmoralização e novas derrotas. Por isso precisamos usar os dias de paralisação para batalhar por uma outra política e por uma estratégia para derrotar Zema, organizando a luta em cada escola e comunidade escolar, com panfletagens, ações de rua, vídeos para dialogar com a comunidade, dentre outros, e não para ficarmos novamente sendo um número a mais de pressão na ALMG. Mas para isso precisamos criar organismos de mobilização de base dos trabalhadores da educação.
Por batalha que demos pelo Nossa Classe no último Congresso do SindUTE-MG (2023), foi aprovado no estatuto sindical uma política de democracia de base em nosso sindicato, que passa por confiar nas forças da unidade dos trabalhadores e não nos patrões ou no Estado: a composição de conselhos nas subsedes, com representantes por turno de cada escola, para fortalecer nossa organização desde as bases. Mas a direção estadual não implementou até hoje, sendo que já estamos no segundo processo de lutas desde lá. Criaram uma Comissão Sindical que não se tem informes de quais subsedes elegeram seus representantes e, onde há representantes, esses trabalhadores são tratados apenas como informantes da direção estadual, enquanto esta segue sua agenda com centro de gravidade na atuação jurídica e parlamentar.
Em momentos de luta é ainda mais importante que haja espaços de organização de base dos trabalhadores da educação, para batalhar por superar as direções burocráticas instaladas em nossos sindicatos. Aliás, onde há sindicalismo realmente classista, é uma preocupação fundamental da própria direção sindical impulsionar esses organismos. Como exemplo a direção da subsede de Santo André do sindicato de trabalhadores da educação de SP (Apeoesp) – da qual nós do Nossa Classe somos parte compondo também a oposição de esquerda àquela direção estadual – que passou em todas as escolas da região organizando uma importante caravana para a assembleia da categoria, lutando pela greve e contra a desmobilização construída pela direção estadual burocrática da Apeoesp. Esta subsede também convocou plenárias de professores “categoria O” para organizar os trabalhadores mais precarizados junto aos efetivos. Um grande exemplo que podemos nos inspirar, para que nenhum trabalhador saia desmoralizado de nossa última assembleia frente à política da direção do SindUTE-MG.
Passa da hora de ser implementado com urgência um comitê de mobilização pra cada subsede, com representantes eleitos em cada escola e em cada turno, para fortalecer as ações de luta nos dias de paralisação de forma a superar os obstáculos à nossa mobilização criados pela direção estadual. Vários colegas destacaram a necessidade de sermos uma verdadeira pedra no sapato de Romeu Zema. É preciso definir pela base quais serão as manifestações, panfletagem, aulões, festivais, campeonatos e todas as ideias criativas que podem surgir da base dos trabalhadores para ganhar a comunidade escolar para o nosso lado e fazer nossa categoria pesar.
Isso é importante para superar todos os empecilhos que a direção estadual cria em nossa mobilização, que não são apenas questões metodológicas, mas é a prática que obedece a uma concepção política que precisamos superar: a política de conciliação de classes. Por isso se faz ainda mais necessário que a vanguarda da nossa categoria não se desmoralize nem caia na política desta direção de culpabilizar a base da categoria quando é ela mesma quem cria mais obstáculos em nossa luta. E como um primeiro passo nesse sentido reforçamos que cada trabalhador se some a nós nesse chamado a que segunda-feira (3) o SindUTE-MG esteja em cada escola elegendo os representantes por turno para reuniões de representantes de base das subsedes nos dias de paralisação, de forma a podermos batalhar pela base contra a política de esvaziamento de nossa luta e traçar um plano de luta para ampliar a mobilização e fortalecer nossa batalha contra Zema.
[Redação]
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