Desde o nascimento até um ano e meio de vida, a criança deve tomar ao menos dez vacinas, sendo que em alguns casos, são duas ou três doses, além dos reforços, mas tem sido fato que a baixa vacinação infantil ameaça o controle de doenças graves. São vacinas seguras e eficazes, a maioria aplicada há décadas. Nos últimos anos – notadamente a partir de 2015 – a cobertura vacinal no Brasil vem caindo para índices na casa dos 70%, quando o recomendado é de 90% ou 95%, conforme o imunizante.

O principal motivo da queda da vacinação, segundo especialistas, é a invisibilidade dessas doenças, como poliomielite, difteria, tétano, coqueluche, caxumba e rubéola, com poucos ou nenhum caso nos últimos anos, e, consequentemente, o desconhecimento da gravidade delas. Desinformação, falta de campanhas, a pandemia de Covid-19 e até mesmo a desorganização da rede de vacinação são outras causas do problema.

Saúde é o tema escolhido por Oeste nesta sexta-feira, 5, dentro da série de reportagens “Desafios do Brasil”, que será publicada até o dia 30 de setembro, sempre seguindo a seguinte ordem de temas na semana: segunda-feira (Educação), terça-feira (Economia), quarta-feira (Agro e Meio Ambiente), quinta-feira (Justiça e Segurança Pública) e sexta-feira (Saúde)Veja aqui a reportagem desta quinta-feira 4.

A situação é preocupante porque doenças graves e praticamente erradicadas no país, como a poliomielite ou paralisia infantil, podem voltar. No Brasil, o último caso dessa doença foi registrado em 1989. Recentemente nos Estados Unidos, onde não havia casos de pólio desde 1993, um caso foi confirmado.

 

De acordo com dados do DataSus, entre 2010 e 2015, a cobertura contra a pólio foi sempre superior a 96%. O índice mínimo recomendado de imunização para essa vacina é de 95%. Entretanto, entre 2016 e 2019, o índice ficou na casa dos 80%; em 2020, no primeiro ano da pandemia de covid-19, caiu para 76%, e, no ano passado, a queda foi ainda maior, para 70% do público-alvo. O Ministério da Saúde não respondeu ao pedido de entrevista.

“Uma doença que a gente [especialistas em imunologia] está com mais medo que retorne é a paralisia infantil. É uma doença gravíssima, com sequelas para a vida toda para quem tem a forma paralítica”, afirmou a médica pediatra Mônica Levi, integrante da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBIm).

Sarampo é doença que está de volta ao Brasil

Enquanto se receia a volta da pólio, outra doença contemplada no calendário básico de vacinação infantil já voltou. É o sarampo, cuja baixíssima incidência rendeu ao Brasil um certificado de território livre de sarampo concedido pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) em 2016. Porém, logo depois, entre 2018 e 2021, mais de 40 mil casos foram registrados no País, levando à morte 40 pessoas. A Opas retirou o certificado em 2019.

A vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, também apresentou uma curva descendente a partir de 2014, quando a cobertura passou de 100%. Nos dois anos seguintes, ficou em 96% e 95%, respectivamente. Em 2017, chegou apenas a 86%. No ano passado, somente 73% do público-alvo foi vacinado. “É absurdo pensar que crianças estão morrendo de sarampo, doença que estava quase eliminada no País”, disse Mônica.

A BCG, por exemplo, aplicada nos primeiros dias de vida, ainda na maternidade, também teve queda acentuada nos últimos três anos. Até 2015, a cobertura superava os 100%. Entre 2016 e 2017, ficou acima dos 90%. No ano seguinte, chegou novamente à totalidade do público-alvo. Porém, em 2019, baixou para 87%; em 2020, para 74%; e em 2021, para 69%.

Mônica Levi acredita que o próprio sucesso das campanhas de vacinação no Brasil intensificadas a partir da criação do Programa Nacional de Imunizações (PNI), em 1973, que reduziram drasticamente a propagação das doenças, também causam uma sensação de falsa segurança na população.

“É um paradoxo. Houve essa eliminação das doenças que fez com que houvesse a perda da percepção do medo delas. Antigamente, as mães morriam de medo de o filho pegar poliomielite, meningite, e todo mundo ia tomar vacina. Hoje, os pais mais jovens não têm mais a percepção da gravidade”, afirma  Mônica Levi

A médica explicou que essa percepção é falsa. “A única doença erradicada no mundo é a varíola. As demais estão eliminadas ou controladas. A gente só fala em erradicação quando não existe mais o vírus circulando em nenhum lugar do mundo.” Além disso, ela citou uma pesquisa americana que apontou que as vacinas – mais do que qualquer outro avanço na medicina – contribuíram para a redução de mortes e aumento da qualidade de vida. “E nós estamos botando isso a perder”, lamentou.

Ao lado disso, outro problema grave que pode ter influenciado decisivamente na cobertura vacinal foi um desabastecimento generalizado tanto na rede pública quanto na rede privada entre 2016 e 2018, período em que começou o declínio das taxas de imunização. “Esse desabastecimento temporário causa um problema terrível porque dificilmente o pai ou a mãe que faltou ao trabalho para levar o filho vacinar e não encontrou vacina voltará. Ainda mais quando não há informação sobre a data em que a vacina estará disponível”, ponderou Mônica.

Ela citou, ainda, o fato de que muitas unidades de saúde não atendem em horário alternativo ao horário comercial, o que dificulta o acesso dos pais que trabalham fora. “O Ministério da Saúde está trabalhando para resolver isso”, comentou.

Além disso, a própria pandemia de Covid-19 prejudicou a vacinação infantil. Orientados a ficar em casa, os pais deixaram de levar os filhos para a vacinação nos postos de saúde e as estruturas de saúde estavam comprometidas basicamente com o coronavírus, relegando a vacinação infantil a um segundo plano.

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Foto: Reprodução/Redes sociais

Também falta comunicação adequada, disse a médica. Equipes da SBIm e de outras entidades ligadas à saúde estão trabalhando em conjunto com o Ministério da Saúde para lançar campanhas de esclarecimento sobre a importância de vacinar as crianças. “Essas campanhas visam saber como falar para reverter esse cenário. Temos que começar a falar de maneira efetiva e que surta o efeito esperado: que as pessoas voltem a se vacinar.”

A pediatra também citou problemas como desinformação, propagação de informações falsas e a atuação de um suposto movimento antivacina. “Isso aumentou durante a pandemia”, avaliou Mônica. “São fake news, desinformação, o movimento antivacina se organizando. As pessoas estão sendo bombardeadas por essas informações contrárias dos antivax e dos negacionistas, que são mais atuantes do que o Ministério da Saúde, que deveria dar as informações corretas.”

‘Não há movimento contra vacinação’

Chamada por críticos de “líder” do movimento antivacina, a médica Maria Emília Gadelha disse que não se deve confundir a atuação de médicos contra o uso obrigatório das vacinas experimentais contra a Covid-19, polêmica surgida no fim de 2020, com o uso das vacinas do calendário infantil. “Esse fenômeno que está sendo falado, que estão imputando a um suposto movimento antivacina e, inclusive, dizem até que eu sou a líder, eu não conheço”, afirmou Maria Emília. “Essas outras vacinas [do calendário tradicional] têm mais estudos e já foram mais validadas. Não sou contra essas outras vacinas.”

Entretanto, a médica alertou que as campanhas de vacinação em massa desconsideram crianças, que pelo próprio histórico de saúde ou condição genética, podem apresentar reações adversas mesmo a essas vacinas consideradas seguras. Segundo ela, o médico precisa considerar as condições individuais de cada criança, conhecer seus parâmetros genéticos, e, então, eletivamente, encaminhar para a vacinação.

“A quantidade de pessoas que têm uma mutação genética que impactam no risco de desenvolver uma reação adversa vacinal é enorme e ninguém fala disso”, afirma Maria Emília Gadelha.

Sobre a hesitação vacinal, ela escreveu um artigo científico há dois anos.  “O que acontece é que o Brasil quer ter esse posto de país que mais vacina no mundo e isso cobra uma conta de algumas famílias.”

Apesar de não haver movimento antivacina em relação aos imunizantes do calendário infantil, Maria Emília acredita que a dúvida gerada sobre a eficácia e a segurança das vacinas experimentais contra covid, desenvolvidas em tempo recorde, pode ter “respingado na confiança” das outras vacinas. “Mas isso foi um detalhe. Os principais motivos para a queda de cobertura durante a pandemia envolvem o afastamento das crianças da escola, mudança na rotina delas, lockdown, mudança de emprego dos pais”, ponderou, salientando que a queda no índice de cobertura começou muito antes da pandemia.

 





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