Embora não haja nenhuma menção ao papel de um padrinho (ou madrinha) na Bíblia, essa é uma tradição cristã que começou no século 2 d.C., com a popularização dos batismos infantis.

No cristianismo, o batismo é um ritual de purificação (todos os pecados anteriores são perdoados) e de iniciação religiosa. O problema é que bebês não conseguem afirmar a sua fé cristã em voz alta (algo que acontece nos batismos de pessoas mais velhas). Por isso, era necessário que algum adulto fizesse as vezes de porta-voz, atuando no meio de campo entre o padre e a criança.

No começo, os próprios pais se encarregavam dessa tarefa. Mas a tradição começou a mudar no século 5º, quando Santo Agostinho sugeriu que, em casos excepcionais, outros indivíduos poderiam desempenhar esse papel. A ideia pegou, e essas pessoas passaram a ser chamadas de “pais espirituais”. Com o passar dos séculos, virou regra: em 813, a Igreja Católica proibiu que pais biológicos também atuassem como padrinhos.

Ora, mas por quê? Porque chamar alguém de fora da família para apadrinhar o seu filho era construir vínculos para além das suas relações habituais – algo incentivado pela Igreja. Ser padrinho, então, virou sinônimo de prestígio. Mostrava que a pessoa era um bom amigo dos pais – alguém de confiança.

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Escolher um padrinho também era uma ação estratégica. Os pais poderiam eleger desde parceiros de negócio (para estreitar laços) a membros de famílias rivais (para apaziguar rixas). Artesãos e comerciantes também podiam ensinar o ofício aos seus afilhados, tomando-lhes como aprendizes.

Com o tempo, cada vertente do cristianismo definiu regras particulares para padrinhos e madrinhas, dos critérios de escolha ao número máximo permitido por criança. Mas a função deles permaneceu a mesma: ajudar na educação religiosa do afilhado. Em alguns países, eles poderiam ainda ter responsabilidades legais, como cuidar dos filhos em caso de morte dos pais.

A partir da Revolução Francesa, no final do século 18, os “batismos civis” se tornaram populares na Europa. Foi nessa época que os pais passaram a preferir parentes para o papel de padrinho/madrinha. Era uma forma de reforçar o vínculo familiar: a criança estaria inserida desde o começo da vida em um grupo social já estabelecido. O papel do padrinho, hoje, é menos o de um guia da educação religiosa – e mais o de uma figura de apoio para a vida toda.

Fonte: Social customs and demographic change:  The case of godparenthood in Catholic Europe. Artigo “The Modern, Secular Godparent”, da revista The Atlantic.

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